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A RASURA

A RASURA
J.B.Xavier

O velho senhor sentiu que seus dias estavam contados.

Recostado nos grandes travesseiros que sua esposa colocava às suas costas, sentado num cadeirão de vime colocado em frente à janela, ele meditava sobre a maneira como tinha vivido. Às vezes pensava em sua infância, às vezes na mocidade, e outras vezes na maneira como administrara sua vida.

Seu pensamento ia e vinha pelo passado, sem se fixar em nenhuma imagem. Tivera uma vida boa, concluiu. Fizera muitas amizades, e conseguira viver sem a sensação de emergência da qual seus amigos sempre se queixavam.

Ao pensar nisso, um leve sorriso lhe veio aos lábios ressequidos. Imaginava como eles se comportariam, se estivessem em sua situação. Toda a pressa se fora!

Construíra uma boa reputação e tivera uma boa esposa. Não ficara rico, é verdade, mas também, nunca perseguira a riqueza. Mesmo assim, a vida lhe fora pródiga. Sempre tivera bons empregos, e nestes, sempre fora respeitado com um bom profissional e grande amigo. Era disso, na verdade, que ele mais se orgulhava: partir deste mundo tendo sido um grande amigo de todos os que cruzaram por sua vida.

À medida que sua saúde declinava, ele mantinha a consciência de que seu fim estava próximo. Nunca imaginara poder acompanhar seu próprio fim dessa maneira, assistindo como expectador privilegiado o passo final que todos temos que dar um dia.

Pensava ele em como havia paz agora, diante do pouco tempo que lhe restava. Como perdera a importância a pressa, as pressões, que de uma maneira ou de outra sempre existem sobre os ombros das pessoas. Nada mais disso fazia sentido. Era como se o tempo futuro subitamente lhe tivesse sido subtraído, e lhe restasse somente o passado e o presente.

Ficou a pensar que agora visitava o passado muito mais freqüentemente do que costumava fazer durante sua longa vida. Ocorreu-lhe que nunca foi de se apegar muito ao passado. Tampouco o futuro o seduzia, porque considerava que ele é construído no presente. Então, sua lógica sempre o incentivara a se concentrar no “aqui” e no “agora”.

"Quando tratamos bem o nosso hoje – costumava repetir - temos um ontem que deixa saudades e um amanhã gentilmente esperançoso!"

Fizera dessa frase o lema de sua vida, por isso sentia-se tão estranho por não ter mais futuro. “O que faz uma pessoa sem futuro?” – pensou, sorrindo desse inesperado enigma. Seu futuro, agora, era talvez, de umas poucas semanas apenas, e o que poderia ele realizar nesse reduzido tempo, quando as parcas forças que lhe restavam pareciam querer abandoná-lo de vez?

Nem a leitura, um dos seus grandes prazeres, lhe era mais possível. Seus dias ainda permaneciam confortáveis, apesar de tudo, graças ao seu neto, um menino de doze anos que alternava com seu filho, dia sim, dia não, em leituras de agradáveis contos, muitos deles já seus velhos conhecidos.

Tivera apenas esse filho. O apego ao tempo presente trouxe-lhe muita felicidade, enquanto convivia com as descobertas dele durante a infância e a juventude. Agradecia aos céus ter conseguido transformá-lo num bom homem. Mas uma sombra de preocupação lhe toldava a fronte, porque percebia que ele, como a maioria das pessoas, era um escravo do tempo.

“Ah! Se meu filho pudesse perceber o tempo da maneira como o estou percebendo” – pensou – talvez ele finalmente aprendesse que nenhum segundo perdido pode jamais ser recuperado. “Porque é tão difícil para as pessoas perceberem que não terão uma segunda chance? Que tragédia, isso!” – murmurou debilmente.

Então pensou: “O que todos chamam de segunda chance, se passa em outro tempo, diferente da vez anterior, e portanto, é outra vez a primeira chance, consumindo outro espaço de vida que, como aconteceu da primeira vez, tampouco pode ser recuperado!”

Concluído esse raciocínio, seus olhos sorriram. Havia paz em seu semblante. Curiosamente, essa paz não vinha de algum tipo de religiosidade. Ele não era exatamente um homem religioso, no sentido de freqüentar igrejas. Entretanto, sempre acreditou que é o amor entre as pessoas, o desejo sincero de auxiliar que torna o mundo melhor. E sua crença nisso aumentava, sempre que via comunidades se mobilizando em alguma campanha de auxílio aos seus semelhantes.

Aí residia a ironia de sua situação, pensou: “Diante de desastres de grandes proporções, que afetem os outros, somos capazes de nos mobilizarmos em nome do amor; mas diante da perspectiva do próprio fim, temos a tendência de transformar tudo numa tragédia, e substituímos o amor pelo medo.”

Pensando isso ele ajeitou-se com dificuldade nos travesseiros. Qualquer esforço lhe era penoso.

“O problema é que transformamos nosso fim numa tragédia pessoal, que por não ter maiores repercussões, não mobilizam pessoas a correrem em nosso auxílio”. Depois emendou o pensamento: “Isto é, se não tivermos feito amigos sinceros durante a vida, claro!”

O que o intrigava, realmente, é que a maioria das pessoas passa a vida tão ocupada com coisas passageiras e supérfluas, que nem percebem que seu estoque de tempo de vida – esse bem precioso que dispomos para fazer de nós o que bem entendermos – finalmente acabou!

Era assim que se sentia. Finalmente fora-lhe permitido olhar para dentro da ampulheta de sua vida, e pela primeira vez ele pode ver que a areia que escoava dela estava chegando ao fim. Um resto mísero de tempo era todo o seu futuro.

“Fim da linha” – pensou ele.

O que conseguira realizar estava feito. Não havia tempo para realizar mais nada.

Mas, a perspectiva da morte lhe trazia uma estranha calma. Ele não olhava para ela como uma inimiga, e nem considerava que ela sairia vencedora. Isto seria sentir-se um derrotado, e ele sabia que saíra vencedor no jogo da vida. Portanto, a morte não o venceria. E o que ela faria com ele então?

“Não sei” – respondeu para si mesmo – “o que sei é que não serei derrotado, porque já venci! O que sei é que talvez a morte seja como o frio: não existe”.

Essa linha de raciocínio o instigou, e como seus pensamentos ainda eram cristalinos, concluiu que talvez estivesse chamando de morte o que deveria chamar de “fim da vida”.

Sobre outras vidas ele nem queria se questionar, porque vivera ESTA vida, e se isso não o preparara para outras de que tanto falam, não havia, agora, nada mais a ser feito. “Tudo perde importância diante da inexorável decadência física de tudo quanto vive sobre a terra” – pensou.

Seja como for, o único incômodo que sentia era não estar certo de que seu filho um dia poderia encarar o fim com a mesma tranqüilidade que ele o estava encarando. Por ter tido uma vida feliz, ele vivia numa correria infernal entre três empregos, na tentativa de manter um padrão de vida que o escravizava. Via-o tentando cercar-se de garantias que assegurassem seu futuro.

Por tudo isso – e aí considerava que talvez tivesse falhado – estava certo de que o filho não tinha ainda percebido que a mudança é a única coisa imutável.

Bem que gostaria de fazer alguma coisa a esse respeito, mas o que pode fazer uma pessoa com um futuro tão reduzido?

O mesmo pensamento voltou á sua mente: “O que conseguira realizar estava feito. Não havia tempo para realizar mais nada.”

Depois pensou em um dos maiores amigos que tinha, um militar, que se livrara de muitas situações que pareciam insuperáveis, porque repetia sempre para si mesmo: “Você pode, se acreditar que pode!”

Tentou sorrir. “Há limite para tudo. – pensou - De nada adianta agora acreditar que posso. O que fiz está feito!” – concluiu.

Com mãos trêmulas, ele se serviu de um copo com água que estava ao alcance de seu braço. A cada dia, e depois, a cada hora, ele sentia que o copo se tornava mais pesado. Ainda assim, apesar de sua fraqueza física, Inexplicavelmente, podia perceber que seus sentidos estavam extremamente aguçados. Sua audição expandira-se e sua pele parecia um fio de alta tensão, tal a sensibilidade, a ponto de o contato com as próprias roupas lhe ser doloroso. Apenas sua visão tornava-se mais turva a cada dia.

Estava ele assim, nessas conjecturas, quando ouviu a voz baixa do filho na sala ao lado.

— Como está ele hoje?

— O médico disse que é uma questão de dias...dois ou três dias – respondeu sua esposa num cochicho, com a voz emocionada.

Apesar de falarem muito baixo, ele os ouvia perfeitamente.

“Que sensação gostosa” – pensou – e depois concluiu: “Bem, não será preciso esperar semanas, afinal. Tudo estará terminado em poucos dias.”

— Hoje tive mais problemas no escritório – escutou o filho dizer para a mãe – É o meu principal emprego e não posso perdê-lo. Mas está difícil suportar aquele imbecil do meu chefe!

Teve pena do filho. Olhando pela janela, ele viu as lindas roseiras que tanto amava, e tentou aspirar seu perfume. Seu olhar foi parar numa pequenina aranha, que espreitava, na borda de sua teia, observando um mosquito que se enredara nela, e que se debatia desesperadamente. Outras teias haviam sido tecidas em vários pontos do roseiral.

Então a porta se abriu e seu filho e neto entraram.
E voltou-lhe a imagem que sempre lhe ocorria ao ver pessoas queridas em dificuldades. Via a vida como uma grande aranha, tecendo suas teias em seu caminho.

“Ai de quem segue pela vida em linha reta” - pensou – “Certamente vai ficar enredado em alguma teia.” Ele já vira isso acontecer com muitas pessoas. Tal como a aranha, a vida não as devora imediatamente. Ela as envolve em sua teia, mantendo-as vivas, para devora-las lentamente, até que reste apenas suas carcaças ressequidas.

Decidiu que deveria ajudar o filho de alguma maneira, e se ainda lhe fosse possível, também o neto. Mas como fazer isso agora, que sua vida se esvaía, se, quando dispunha de todo o tempo do mundo, não o fizera?

“Vivi a vida desperdiçando tempo, levando-me a sério demais” – pensou – “agora disponho de dias para fazer o que não fiz durante anos. Desculpe-me, meu filho...passeei mais com meu cachorro do que com você...”

Seu neto aproximou-se da cama e lhe deu um abraço. Era um menino de olhar vivo e rosto rosado. Seu filho, um homem de uns trinta e poucos anos, puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado, afagando-lhe a mão inerte.

Ao vê-los tão jovens e saudáveis, ele teve ímpetos de chorar, mas, lembrou-se de Gabriel Garcia Marques que um dia o advertira em um de seus livros:

“Não chore pelo que passou. Sorri pelo que aconteceu!”

E um sorriso nasceu em seus lábios.

Lentamente, entretanto, o sorriso foi morrendo, ao ver estampadas no rosto do filho, as marcas de uma profunda preocupação.

Ele então chamou o filho e o neto para próximo de si, e pediu ao menino que fosse buscar duas folhas de papel, dois lápis e uma borracha.

O garotinho foi até o pequeno escritório do avô e voltou correndo, com o material que ele solicitara.

Com as poucas forças que lhe restavam, o velho pediu ao filho e ao neto, numa voz sussurrante.

— Façam um traço vertical em sua folha...

Sorrindo benevolamente, o filho e o neto dividiram suas folhas de cima a baixo, com um traço.
— Agora cada um de vocês deve escrever no lado direito, tudo o que acham de bom um do outro, e do lado esquerdo, todos os defeitos que vêem um no outro.

Quando os dois terminaram de escrever, ele disse:

— Troquem a folha e vejam o que um pensa do outro.

Ele sorriu levemente ao ver o filho e o neto sorrindo ao verem suas virtudes lembradas e ficando muito sérios ao verem seus defeitos expostos. Observando suas reações através da visão turva, ele ficou pensando como são rudes as pessoas, em suas críticas.

“É difícil encontrar uma crítica gentil” – pensou ele.

As feições consternadas dos dois mostravam-lhe que as críticas os tinham afetado mais que as carícias dos elogios.

— E agora vovô? – perguntou o garoto, com uma expressão triste no olhar.

— Agora usem a borracha. Apaguem tudo e deixem as folhas comigo. Voltem mais tarde, porque preciso descansar...

Mas seu estado de saúde agravou-se e o filho e o neto não puderam mais falar com ele.

No terceiro dia após terem escrito nas folhas, o velho foi internado em estado grave. Ele já não podia abrir os olhos, mas mantinha-se consciente, e insistia em permanecer vivo, porque ainda não terminara sua tarefa para com seu filho e neto.

Num leve murmúrio, solicitou a presença dos dois no hospital.

Avisados pelo médico de que talvez este fosse seu último desejo, os dois entraram chorando no quarto, e caíram de joelhos ao lado do leito.

— Não chorem pelo passou – disse ele num murmúrio – Sorriam pelo que aconteceu...

Num esforço quase sobre humano, o velho lhe estendeu as duas folhas de papel que mantivera consigo, e as entregou ao filho e ao menino, fazendo sinal para que aproximassem os ouvidos de sua boca, tão fraca estava sua voz. Os dois inclinaram-se sobre o velho, para ouvir melhor.

— O que estava escrito nestas folhas? Perguntou ele.

— Não quero lembrar das coisas ruins que o papai disse de mim – falou o menino com os olhos cheios d’água - e já me arrependi do que eu disse dele...Eu não queria dizer aquelas coisas...

— Papai – disse o filho – se o senhor pretendia que eu soubesse dos defeitos que meu filho percebe em mim, já o conseguiu...Quando escrevi aquelas coisas sobre ele, eu só pretendia que ele conhecesse alguns de seus defeitos...Aprendi a lição...Agora descanse...

O velho fez sinal para que se aproximassem mais, e disse, num cochicho quase inaudível.

— Havia também elogios nas folhas...Porque vocês lembraram apenas das críticas? Então, daqui por diante, e por toda a vida, nunca mais esqueçam disso: Evitem apontar os defeitos dos outros, e se for inevitável que o façam, façam isso com amor. Procurem sempre motivos para elogiar. Quem é sinceramente elogiado, tenta agir para receber novos elogios...E assim as pessoas vão melhorando sem que precisemos evidenciar os seus defeitos. Se tiverem que criticar alguém, não façam isso com raiva. Coloquem amor em tudo o que disserem ou fizerem... Assim, as críticas servirão de auxílio, não de culpa. Criticar com raiva grava para sempre a raiva recebida no coração de quem ouve. E como vocês puderam ver, essa gravação não pode ser apagada nem mesmo com a melhor borracha. O tempo pode passar, e vocês podem até se arrepender do que disseram, mas a rasura não vai desaparecer...

O jovem abraçou fortemente o filho e chorou, compreendendo finalmente a origem de suas dificuldades.
O menino disse:

— Papai, desculpe, eu não quis dizer aquilo de você...

— Nem eu, disse o jovem...Desculpe o papai...Vamos tentar lembrar o que dissemos de bom um do outro?

— Vamos – disse o menino...

O jovem voltou-se para o velho, para lhe agradecer por esta última e mais importante lição, mas o velho parecia dormir um sono profundo. Seu peito já não arfava.

O jovem abraçou novamente o menino e conduzindo-o pela mão, saiu lentamente do quarto. Seu desejo agora era viver como seu pai, distribuindo amor até o último instante de sua vida.

Um novo futuro o aguardava.

* * *

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JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 27/01/2005
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Sobre o autor
JB Xavier
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