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O Andarilho - Dia 08

Enfim, uma nova manhã. Um novo dia. Era bom acordar com o calor do sol esquentando a pele do rosto. O orvalho fresco da manhã enchia o peito de esperança. Depois de tudo o que vinha acontecendo, aquele se mostrava um ótimo dia para voltar a estrada.

“Não levantei em vão. Não caminhei por nada. A cada passo que dou, aumento a minha jornada”.

Ele abriu os olhos e contemplou o caminho. Olhou para o pulso deformado e pensou que se quisesse caminhar realmente, teria que dar um jeito no maldito. Catou dois pedaços de ossos que encontrara caído sobre a pista, e os amarrou com a ajuda do cordão que ganhara do menino. “O vira-lata não vai se importar. Além do quê, nem mesmo o conheço. Como poderia lhe entregar essa coisa?”. A medalha pendia bizarramente sobre a carne inchada.

Tentou movimentar a mão, e não conseguiu. Estava arranjado. Com o pulso imobilizado poderia voltar a caminhar. Mochila nas costas, um pano sobre a feria ainda aberta no ombro “Malditos... Como ousaram me tocar?”, e um sorriso. Pequeno. Mas um sorriso. Era bom poder estar de volta.

Caminhou devagar por quase todo o dia. Parecia duro, desacostumado com a lida. Mas vinha distraindo-se, chutando alguns ossos que encontrava pela pista, cada vez em maior quantidade. De repente, olhou ao longe e não pode acreditar no que vira: uma casa no meio da estrada. Era pequena, e de estrutura frágil, mas era uma casa. Como havia parado ali? Já ouvira histórias sobre ventos fortes, que arrastam tudo. Já vira até mesmo uma porta voar sobre sua cabeça. Mas uma casa? Como teria resistido a queda? Não fora o vento... Mas então, o que? O que a colocara no meio da pista?

Era inicio de tarde quando enfim, conseguira chegar mais perto da casa, e viu que não era tão pequena assim. Feita de madeira escura, ela não só estava na estrada, mas também, movimentava-se sobre a pista. Um solavanco maior e então um homem pôs a cabeça para fora, por trás de uma das laterais da casa.

— Preciso trocá-la de lugar. Venho a empurrando de longe. Pois foi tudo que me sobrou. Se puder me ajudar a leva-la até o outro lado, poderia deixa-lo dormir nela por essa noite. O que me diz? — Disse o velho.

— Ajudo-lhe se quiser. Se tiver vontade. Não me ofereça vantagens, pois não me vendo. Além do quê, estou com o pulso quebrado. Mesmo que quisesse, não sei se conseguiria lhe ajudar. — O andarilho levantou a mão amarrada com os ossos.

— Já vi que não gosta de ofertas filho, mas se me ajudar com a casa, posso lhe ajudar com o pulso.

— Não imagino como.

— Confie em mim. E olha que não precisará nem mesmo usa-lo para me ajudar. Pode fazer isso com os ombros, como faço. — O velho saiu de onde estava e o andarilho viu que ele não tinha os braços. — Não alimentei os miseráveis. Acordaram-me durante várias noites. Até que então, decidi fugir. Prefiro fugir a alimenta-los.

Uma fumaça, fina escapava pela chaminé improvisada da casa. Um sistema de troncos, a fazia deslizar sobre o chão. Não fora fácil, mas no fim da noite, o serviço estava acabado.

Através da janela, ele viu alguns corpos espalhados pela casa. Uma mulher e duas crianças. “Realmente, não havia lhe sobrado nada”. Decidiu então, dormir na estrada. Já havia tido contato demais com o outro lado. Não se comprometeria novamente com algum outro favor. “Ache meu canário que voou por aí, ou ache meu gato e faça-lhe um carinho antes de dormir”. Não. Preferiu a estrada.

Segure isso... — Disse o velho chutando-lhe uma pedra quente enrolada num pano. — Pela manhã, se sentirá melhor.

Ele lhe agradeceu com a cabeça, e percebeu seu olhar curioso para a medalha presa ao pulso. Orou como de costume e segurando a pedra, por quase toda noite, conseguiu dormir.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 19/06/2005
Código do texto: T25886
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva