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O Andarilho - Dia 09

A noite havia sido tranqüila, apesar de ter sentido algo lhe perfurando o ombro enquanto dormia. Despertou de repente. A pedra gelada estava caída ao lado, perto do rosto. O pulso já não doía mais.

“É, o velho tinha razão”. Mexeu o pulso para frente e para trás sem sentir dor. Sentiu um cheiro de cânfora entre os dedos e percebeu que o pano, que embrulhava a pedra, havia sido embebido em algum tipo de óleo ou algo parecido. Orou, e ao terminar levantou a cabeça à procura do velho e sua casa móvel. Observou um grande caminho revirado de terra pelo acostamento e um pequenino ponto preto movimentando-se ao longe. Era ele. O caramujo continuava sua fuga. Continuava a defender o que lhe restara. Sobre a beira da pista, espetado a um galho, o velho havia lhe deixado um bilhete.

“Obrigado pela sua ajuda filho. Sei que seu pulso deve estar melhor. Agora quanto ao seu ombro, deve se apressar. Ou acabará como eu. Sei que deve estar se perguntando como posso ter escrito isso. Mas isso é algo que não posso lhe dizer, ao menos por enquanto. “Deve encontrar o cachorro”. Não sei do que se trata, apenas foi o que minha mulher pediu para avisa-lo... Disse que ele pode lhe ajudar”.

O andarilho sentiu uma pontada forte no ombro. Sua ferida estava azulada. Um cheiro forte de carniça, embrulho-lhe o estômago.

“Um homem sem braços que me deixa bilhetes... Um menino morto que me manda recados... As coisas estão piorando. Preciso encontrar logo esse vira-lata”.

Ele ajeitou suas coisas e partiu. Caminhou firme sob o sol quente durante todo o dia. A ferida em seu ombro começava a doer realmente. No cair da tarde, parou para catar algo que lhe pareceu estranho, no centro da pista. Um grande crânio de cachorro. Seu ombro fisgou novamente, mas dessa vez, a dor foi mais profunda, e lhe fez cambalear. Ele agarrou a caveira e continuou a caminhar. Subia lentamente uma íngreme elevação na pista.

— Então é você quem eu deveria encontrar? — Perguntou olhando firme para o centro da cabeça. — Sinceramente, achei que seria mais difícil... — Diz o andarilho olhando a medalhinha presa ao pulso e completando: —...Salina.

Vinha tranqüilo com a cabeça em punho, quando na descida encontrou um mar. Um grande mar de ossos, que cobria a pista e toda a extremidade dos acostamentos. Cabeças pontiagudas misturam-se a grandes bolos de pêlo espalhados por toda a extensão.

“Como vou saber?”.

Não havia mais vida por lá, ao menos onde a vista do andarilho podia alcançar.

“Você saberá onde está. Todos sabem. Sempre sabem”.

Ele desceu a pista e largando o crânio que encontrara, caminhou atrapalhado por sobre os ossos. Eles estalam como galhos secos.

“E onde posso encontra-lo?”.

Andando mais adiante, um cheiro de cru lhe invadiu os pulmões, e ele percebeu que alguns cachorros ainda estavam em decomposição. Ele precisava ir em frente. Mesmo pisando sobre os corpos apodrecidos. Ele precisava continuar.

“Siga em frente na estrada. Terá que passar por lá de qualquer maneira”.

Seu ombro doía e queimava insuportavelmente.

Caminhando mais adiante, começou a ouvir os uivos de dor de alguns daqueles pequenos animais.

— Salina! Salina! — Ele gritava desesperado pelo nome inscrito na medalha que carregava.

A noite caiu, e exausto de procurar pelo cachorro, decidiu parar. Os sons dos uivos e a dor no ombro, cada vez mais profunda, lhe atormentavam a alma e lhe tiravam o sono. Tentou orar sobre as carcaças ainda vivas dos cachorros em decomposição, mas nem mesmo suas orações seriam suficientes para lhe fazer dormir aquela noite.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 19/06/2005
Código do texto: T25892
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva