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Durbom Stravsky depois da ultima ceia

              - Não faz muito tempo, claro que não.
              Alto de olhos amarelos claros e vestias de rapaz. Duas colunas de autoridade com os filhos pouco conservadores, e depois a única vantagem de se ser pai: se maturar para poder ser invejado. Fazia apenas duas décadas que seus ternos eram cinzas, antes disso eram azuis marinhos e os bolsos internos ainda cabiam alguma coisa, guardara neles alguns papéis de bala, caricias das antigas e já apodrecidas namoradas, mais a emissividade estava estrábica nos papeis de bala. Duas abotoaduras de ouro no calarem e finalmente, abotoavam o sofrer, dois olhos muito normais, duas orelhas, duas pernas, dois corações gravoche, naturalmente impar!
              - Tuas roupas cabiam mais belamente em seu corpo, é irônico dizer, mas, no branco do teu terno, não vejo mais anjo algum -, colocou duas pedras a mais no uisk, o álcool já estava varando até a madeira da mesa, mas não deixou de acrescentar, a verdade era de que não era muito de bebidas e precisava aliviar o intrépido ardor do álcool com o gelo que deixava já a bebida em cor de urina – a dignidade e ferocidade de um homem não cabem mais em roupas brancas, você sabe disso, não sei porque continua.
              - E meu branco amarrotado revela coisas que nunca na sua vida, veria, porque não vem desta água que você bebe agora.
              - Incrível: tua ironia Durbom, ainda te agüenta. Bebeu agora o seu “Ballantines”.
              - Não é preciso, quando tal agüenta respirar, agüenta tudo.
              - Vai, vai agüentado e acabarás por demi-mondaine despenada! Motejou um segundo, percebeu o silêncio patusco e parou, seu nariz começou a sangrar, o maldito remédio para supor-se trazia junto a sua fórmula o terrível destino do chafariz de sangue: o nariz. O sangue caiu dentro do uisk, esfriou e como se profundamente inspirasse sugou para o interior do nariz o sangue, novamente. O interior de seu terno, preto, ensopado de sangue, quando o movimento de pessoas na casa era abrandado e pela falta de forças não ia ao banheiro, limpava o sangue ali mesmo, no tecido frio que se esconde dentro de um terno.
              - Eu me penetrava nas tuas frases, e agora luto para respirar sem elas, isso é tão ruim, nem sabes, mas fico a esperar que volte e me conte a continha exclusiva e que nunca ninguém viu, da dona carochinha, a conta mais pós-superficial, mas enfim, já deve ter se esquecido.
              - Também não acho que um homem como você caiba dentro de um terno como este, um anjo meu Deus, um anjo! Empolgou-se e até encareceu o clamor numa feroz gargalhada, outra por via das duvidas sanguinolenta.
              - Dona carochinha, quem diria, cristo, quem diria!
              - Se não percebeu ainda, qualquer dia percebe: dentre o tempo, fica o espaço vago de um anjo preso pela eternidade em um terno branco, todo amarfanhado, sem abotoaduras douradas... Era linda sua elegância, nas abotoaduras, era quase que singular.
Pensou: sobrenome mais terrível, aporrinhado de se dizer: Stravsky. Que sacrilégio triste.
              - Strav eu não faço a idéia se tem porque, provavelmente um antecedente vagamundo que queria um nome estrangeiro na árvore genealógica, agora sky, me sei bem o porque: o céu que sempre quis ver...
              - Teu branco me vem alvoroçado na cara numa impugnante historia “naftalinática”.
              - Era pra eu ser pardo, mais nasci preto, e essa cor me impugna.
              - Penso logo em nuvens... Estendeu a ultima consoante e olhou pro teto letárgico, num amor, mais em um amor perfumado! A beira da praia!
              - Coisas que o sabão não arranca: a cor maldita!
              - E o mais belo, é a crença que minha irmã tem em você, uma fé de se admirar!
              - Puro trambique! Exaltou-se mais logo se acovardou em reticências.
              De duas horas em diante a conversa se estendeu cruelmente, o homem que não aceitara a cor e o homem que bebia urina cenográfica, suas remotas maneiras de se dizerem semblantes o que é a beira mar, ininterrupta pela floresta de carros e carrinhos de crianças passeando na calçada, e o mais rigoroso-frágil-destino: a valsa que nunca extingue.
              - Strav, deve vir de extravagante. Achando que havia dito algo psiquê mexeu os dedos dentro do copo de uisk para o sangue se misturar definitivamente, sua alteza pela primeira vez, depois de raros, encarou-se ao estado de excelentíssimo e fechou numa audácia os olhos que por dentro, se naturalizavam estrábicos. A ganância entreaberta.
              (Labareda, brasa, fogo, queimadura, vermelho, substância, cinza, fósforo, pólvora, poeta em uma noite de reviver sozinho, labareda, brasa, fogo, queimadura, vermelho, substância, cinza, fósforo, pólvora, poeta em uma noite caucasiana).
              - Durante toda a minha vida, sempre chorei nas madrugadas de domingos para segundas, de segundas para infinitésimo, domingos e mais suores de calores embevecidos, o corpo queimando em brasa, na cama que queima em desamparo, em peso de um corpo nu, com as gotas entrevendo o adultério, o crime, à noite em que ouve o crime.
              (“Strav deve vir de extravagante”).
              Noite passada cometera o delito, suor por todas as paredes, ao chão, ao cego, um mar de suor, escombros derretendo na água vulcânica, noite passada cometera a delinqüência, lembrara do nascimento de Jesus, e pensara em como morreu, Julius, pra não dizer Julio, czar pra não dizer Cezar, em toda uma confusão vira que havia condenado um homem a morrer, sem pena e sem compunção. Cometera o crime, estava livre agora. Havia nascido na manjedoura.
              Seu chimpanzé plúmbeo dos diabos, condenado a morte, o homem nunca haveria de ter nascido, eu nunca devia ter pisado em tal terreno, e agora estaria no infinito, mas era tarde, seus filhos já não conservaram nada, seus bolsos já não guardavam qualquer porcaria, e havia cometido o crime, enterrou na ultima tarde a poesia e deixou de não existir como poucos, para existir como muitos, virou homem.
              - Anjos vão pro céu? Desmaiou em coma alcoólico.  
Junior Monteiro
Enviado por Junior Monteiro em 10/10/2006
Código do texto: T261324
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Sobre o autor
Junior Monteiro
Umuarama - Paraná - Brasil
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