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Guarda-chuva

        A minha relação com a literatura me leva às vezes a tomar decisões duvidosas ou pelo menos divertidas, já que a falta de um novo livro para ler [sim, se faz necessário que seja novo, no sentido de não lido, inédito e não novo no sentido de bem conservado ou recém saído da gráfica. Novo porque os livros muito se assemelham às mulheres: quase todos são merecedores de uma boa folheada nas horas vagas (ou não tão vagas, uns poucos momentos de leitura no horário de trabalho me enchem de alegria, o mesmo ocorre com ter mulheres na hora do expediente, ainda aquela velha história de que o proibido é mais gostoso. Recebendo para isso então nem se fala), mas poucos merecem ser relidos e raríssimos aqueles que posam se candidatar a ficar na cabeceira da cama e passar várias noites conosco. Outro ponto de semelhança é o fato de que muitas vezes escolhemos tanto livros quanto mulheres pela capa e quando dedicamos maiores atenções a eles nos deparamos com páginas e pensamentos pouco interessantes ou bastante aburridos]
. Visto que já me perdi na narrativa, recapitulemos: Estava contando que por causa da síndrome de abstinência causada por não ter um livro novo tomava decisões duvidosas, como a que eu vou contar agora: Em um dia frio de inverno, chuvoso, eu saía da faculdade e ia sem pressa para o trabalho (um belo pleonasmo, já que ninguém em sã consciência vai para o trabalho com pressa), quando a chuva, que antes era um chuvisco, apertou. Agora todas as pessoas tinham guarda-chuvas que as protegiam e as raras que não contavam com tão fenomenal apetrecho de desvio de pingos da chuva corriam, batendo uma contra as outras. Bem divertida de se ver a cena.
Além das duas linhas de conduta citadas acima havia um meio termo (posto que quase nada na vida é maniqueísta a ponto de só existirem dois extremos), havia o grupo das pessoas que corriam e se chocavam com o propósito de comprar um guarda-chuva. Era aí que eu me incluía. Já molhado, com frio e vergonha de estar tão bem vestido e ao mesmo tempo tão largado me dirigi ao vendedor de guarda-chuvas, eram tão bonitos, com botões dourados, dobras e mais dobras até se transformarem em pequenos guarda-chuvinhas guardáveis. Escolhera um já, preto, sóbrio, contrastando com toda a pseudotecnologia presente no aparato, que ao aperto do botãozinho dourado projetava a parte superior do cabo para frente e logo em seguida, pausadamente abria o tecido impermeável, formando uma proteção excelente contra a chuva. Verifiquei o quanto havia em minha carteira e constatei que havia dez unidades monetárias (poderia também ter dito dez dinheiros, isso foi apenas uma tentativa de universalizar e atemporalizar a história, pura pretensão do autor), ótimo, pois o guarda-chuva em questão custava apenas cinco unidades monetárias.
Satisfeito, já ia efetuar o pagamento quando uma pequena banca a uns dois metros adiante me chamou a atenção, nela um escritor amigo meu de longa data me acenava entre outros vários livros, não houve dúvida, suspendi temporariamente a compra da minha proteção contra chuva e fui cumprimentar o escritor. Na verdade não era o meu preferido de todos os tempos, mas como eu tenho fases e justamente nessa época eu estava na fase de ler os realistas-mágicos da América latina, e esse era um deles, se não o mais importante, sem dúvida o meu favorito, eu não tinha a menor chance. Perguntei quanto custava o livrinho velho, sujo, respingado de gotas de chuva, a resposta foi terrível, me jogou em um redemoinho de dúvida e incerteza que até hoje me arrepia só de lembrar. O livro custava 8 dinheiros. Portanto era o livro ou o guarda-chuva.
A dúvida era imensa, não sabia o que fazer de verdade, esperei alguns minutos parado entre os dois vendedores, ou esperando que a chuva diminuísse ou esperando que alguma outra pessoa comprasse o livro e eu me visse livre da tentação. Claro que só por capricho as nuvens apertaram mais a chuva e as pessoas de uma hora para a outra deixaram de se interessar por literatura, e assim quando menos percebia estava em meio ao fogo cruzado de um duelo (se a narrativa não se passasse por volta de meio-dia e sim ao pôr do sol creio que os vendedores estariam usando revólveres na cintura e se bateriam até a morte, o vencedor, claro, ficaria com a venda), um duelo verbal (só retificando que não é por não terem armas de fogo que os degladiantes teriam floretes ou sabres), o rapaz que ofertava abrigo contra a água que caía tomou a dianteira e começou por exaltar o benefício que traria o guarda-chuva:
Como o senhor não pretende comprar um belíssimo guarda-chuva? Pretende andar por aí molhado? Onde já se viu...Garanto que com um desses ficará bem seco e não se resfriará.
O outro gladiador por sua vez inicia um ensaio sobre as qualidades do autor do livrinho que agora começava a receber pingos cada vez mais freqüentes (só de ver o meu amigo na chuva deu vontade de compra-lo e salva-lo daquele desrespeito, mas não me precipitei de forma alguma, queria ver o fim do duelo, queria ver sangue).
  Mas um guarda-chuva pode nos servir de sombrinha nos dias de sol forte. Olhe só que maravilha, proteção para os dias chuvosos e ensolarados. Melhor coisa não há. Disse o Vendedor A. (Por questões didáticas usarei vendedor A para o homem dos guarda-chuvas e vendedor B para o que vende livros).
E nas horas de tédio, pode-se ocupar de um guarda-chuva ou sombrinha? Perguntou o vendedor B e no segundo seguinte ele mesmo responde: Não, mas os livros sim, esses nos enchem de alegria e conhecimento as horas tediosas.
O embate continua, sem que qualquer dos lados mostre sinais de que possa ceder. Agora era mais uma vez o homenzinho dos guarda-chuvas que avançava: O meu produto, que oferto por tão irrisório preço, tem também outras utilidades, pouco conhecidas pelo grande público, mas que em situações que se façam necessárias podem ser muito prestativas. Exemplo1: Podem servir como bengalas se algum dia o senhor venha a machucar uma perna, ou quando esteja bem velhinho, pois acredite, senhor, minha mercadoria acompanhará o senhor por toda a vida. Dou garantias. – Coitado, pensei, mal sabe ele que os guarda-chuvas sempre rasgam e sempre do lado esquerdo.
Prontamente o vendedor B insinua algo sobre mesas desniveladas e como um livro pode corrigir o problema. Admito que prestei pouca atenção ao vendedor porque justamente agora percebi que o livro desejado conversava com Nick Adams que estava ao seu lado esquerdo, provavelmente conversavam sobre pescarias, e Nick contava como os gafanhotos marrons eram melhores para apanhar trutas, soube disso porque do outro lado do meu livro Julien Sorel os olhava com petulância e desprezo (com certeza já esqueceu seus dias de lenhador).
Dada a pausa, vamos a contagem dos pontos: do lado do guarda-chuva há as seguintes vantagens: Proteção contra a chuva e sol e apoio garantido se algum dia ficasse coxo. Por sua vez o livro era de um autor que muito me agradava, garantiria horas de entretenimento e serviria para consertar uma mesa manca. Os dois estavam empatados.
Começava o segundo round mais uma vez o vendedor A começava atacando (decerto havia um respeito à ordem alfabética): Tendo em mãos um guarda-chuva poderá utilizá-lo para acompanhar uma moça bonita que por sua vez esteja à mercê da chuva, e assim iniciar uma abordagem, além de mostrar-se muito cavalheiro.
A resposta veio à altura: Sim, mas de que serve uma abordagem cavalheiresca se não tens assuntos interessantes para conversar com o alvo do galanteio? Não serve de nada.E assuntos interessantes têm aos montes nos livros.- Balancei a cabeça, concordando com o vendedor B. Agora a chuva ficava mais fria e minha camisa mais molhada e meu cabelo começava a cair nos olhos. (Ver apêndice).
O embate continuava, agora eu ia perdendo o interesse na luta, e começava a prestar atenção nas pessoas que passavam, gostava de observá-las tentando fugir da chuva e umas das outras, principalmente quando eram pegas ou por uma coisa ou outra. No auge da minha desatenção o vendedor de camisa verde (era o vendedor A, que sempre atacava primeiro), na verdade era a primeira vez que percebia a camisa verde, porque até então só prestara atenção nos guarda-chuvas, só para efeito de comparação, o outro vendedor usava uma camisa azul e não sei porque a camisa verde me parecia mais simpática apesar de gostar muito de azul. Mas voltando ao que interessa, a argumentação da camisa verde, o rapaz querendo me cativar a atenção novamente, começou um discurso sobre os efeitos do guarda-chuva como pára-quedas, dizendo que se podia saltar de plataformas relativamente altas e o tecido aumentaria a resistência com o ar e diminuiria a velocidade da queda [não entendi bem e continuo achando que só porque as duas palavras são compostas não significa que têm o mesmo efeito sobre o mundo ao seu redor, por exemplo: o guarda-chuva protege da chuva, não a guarda para usar depois (se assim fosse seria de grande utilidade no deserto, o que na verdade não acontece, pois é sabido que no deserto não chove, inutilizando a função primária do objeto em questão), o caso do outro objeto: o pára-quedas, tampouco pára realmente as quedas, apenas diminuem sua velocidade, adiando as mesmas, mais certo seria se chamar então: posterga-quedas. Daí se deduz que não é o hífen que apara a chuva ou modifica a aerodinâmica das coisas].
O duelo chegava ao fim, o vendedor de livros, de camisa azul, que também atendia pelo nome de: Vendedor B foi definitivo, começou o seu discurso final assim:
O jovem ainda deve estar na faculdade e deve chegar lá cedo, presumo. E deve odiar chegar às oito horas de um dia chuvoso e encontrar pessoas sorridentes no prédio de aulas. E digo mais, pessoas sorridentes às oito horas da manhã de um dia de chuva só podem estar procurando conversa, e claro que não é isso que pessoas normais querem às oito horas da manhã de um dia chuvoso. Eu tenho a maneira de escapar de conversas sorridentes, nunca mais você precisará se preocupar com sorrisos e conversinhas do tipo: “que friozinho hoje, hein” ou “Puxa, hoje foi difícil acordar, a minha caminha estava tão boa”. Compre um livro, ande sempre com ele e quando vir um sorrisinho matutino, abra-o, sem vacilar. Leia, ou pelo menos finja que leia, isso funcionará como uma poção mágica que fará que fique invisível às pessoas sorridentes (infelizmente não funciona para as pessoas resmungonas que se põem a lamentar com desconhecidos ou não).
Nem esperei o discurso terminar, comprei o livro, paguei feliz, certo de que jamais seria importunado por sorrisos matinais outra vez. A chuva, o frio e suas conseqüências eram até prazerosas comparadas a uma conversa com uma pessoa sorrindo às oito horas da manhã de um dia chuvoso. Saí dialogando com o escritor, que por sorte não sorria.


Apêndice - Efeitos gradativos da chuva sobre uma pessoa em direção ao trabalho.
O primeiro sintoma de que chegar molhado ao escritório é inevitável ao ver o céu escuro pela manhã e notar que esqueceu o guarda-chuva. A partir daí todos os acontecimentos seguintes são desdobramentos da ação descrita acima.
            Uma vez condenado por sua própria falha a enfrentar a força dos elementos, não tente escapar do destino com a famosa frase: “Vou sentar aqui e esperar a chuva passar”.Ela provavelmente não passará e é bem certo que aumente sua força. Saia e enfrente-a logo de cara, ela não espera isso, e o efeito surpresa pode dar a vantagem necessária para que seja logrado ao menos um empate.
As gotas começam seus golpes sempre pelos ombros e cabeça, ao caminhar expomos mais a parte da frente do corpo e ali elas concentraram seus suas forças, até que as referidas partes estejam saturadas de água. Quando passarão para as demais partes.
Os sintomas do ataque por ordem de surgimento são:
1-Cabelos levemente molhados.
2-Roupas ficando mais escuras a medida em que a água as molha.
3-Cabelos fortemente molhados, a partir daí eles começam a cair sobre o rosto.
4-Frio.
5-Pessoas olhando com pena.
6-Total sentimento de deixar de ir trabalhar, voltar para casa, tomar um banho quente e dormir.
Tempo médio de secagem das roupas em ar-condicionado central: Aproximadamente 30 minutos.


Este conto também está na Bagatelas Revista de Contos, visite:
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Ernesto Aguiar
Enviado por Ernesto Aguiar em 23/06/2005
Reeditado em 30/06/2005
Código do texto: T27135
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Sobre o autor
Ernesto Aguiar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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