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O poeta é um fingidor

    O pobre coitado passeava por uma rua, a mulher tinha o expulsado de casa fazia menos de duas horas...e agora ele já começava a raciocinar de novo. Pensava onde iria passar a noite, na casa da amante?? Não, é de domínio público que amantes não dão abrigo a exilados conjugais, e mesmo se dessem, elas acabariam por se tornar as novas esposas, e ele teria que procurar outra amante. Que dilema.
Tudo aconteceu porque uma vizinha fofoqueira o tinha visto em companhia da amante, e a linguaruda não resistiu e contou à sua amada mulher. Sentou-se em um café, desses que tem livros à disposição dos clientes, pediu um expresso e pegou um livro de Fernando Pessoa, abriu ao acaso e lá estava:


                                 Autopsicografia
 
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.  E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.  E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.

                                       

O poeta é um fingidor, então ele era um poeta? Já que sempre fingiu ser fiel? Não, o poeta é um fingidor, mas o fingidor não é um poeta. Além do mais ele só sabia escrever crônicas, e devia fazer isso bem, pois já viva disso há algum tempo, com vários livros publicados. Pensou mais uma vez na fofoqueira, e teve raiva, o que a desgraçada ganhara com isso? Qual a necessidade de contar? Todo seu prédio já sabia do fato, antes mesmo dele chegar em casa . Mais uma vez o pensamento do poeta fingindo a dor...E os dois pensamentos se misturam, dando origem a um terceiro pensamento: Se o poeta é um fingidor, o cronista é um fofoqueiro... Porque sai a torto e a direito, contando histórias sobra a vida de outras pessoas, para pessoas que ele nem conhece, qualquer um que tenha tempo e disposição para se inteirar do fofoca contada, cronistas parecem aqueles fofoqueiros que você acabou de conhecer já estão contando detalhes íntimos de amigos e conhecidos, o tipo mais desprezível possível. Outro agravante é o fato de fofocarem mesmo depois de mortos, veja só o caso dos clássicos, o que são os clássicos além de fofocas contadas há bastante tempo, não poucas vezes humilhantes para a personagem principal da novela. Portanto da próxima vez que escutares falar de um escritor famoso, pode pensar sem remorso algum: Fofoqueiro desgraçado.

O Adúltero desperta de seus devaneios, o expresso já frio, e o relógio já bem adiantado, pede outro expresso, e dessa vez o toma, com prazer e sem pressa. Não sabe o que fazer, vai pra casa da amante, decide isso, mas fica com medo, de ser rejeitado por ela também...Não há mais o que fazer, a única coisa que resta é visitar a amante.
Segue pela rua, em direção á casa da amante, que agora está decido a promover-la à esposa, tão logo o divórcio tenha saído, já que tem certeza que a mulher, orgulhosa como era, não irá querer ver seu rosto nem pintado. Acha mais conveniente ligar antes de aparecer na casa da “outra”, que não provavelmente já sabe que a esposa sabe, mas não sabe que o amado amante irá procura-la assim tão cedo, é engraçado como a intimidade do sexo pode tirar qualquer outro tipo de intimidade.
Liga, ninguém atende, ele resolve ir de qualquer maneira, precisa dela agora, precisa de qualquer pessoa agora. Entra no carro, dirige bem, mas quando chega ao seu destina já não lembra mais o caminho que tomou até ali. Nota um carro importado parado na garagem da casa, estranha, mas a ansiedade o leva a tocar a campainha.
Toca a campainha, ninguém atende, espera, toca a campainha, ninguém atende, espera, toca a campainha, ninguém atende, espera, a mulher atende a porta, suada, vestindo uma camisola, a moça atende e se espanta por vê-lo ali, parado, com a cara de espanto.
Segue-se um diálogo:
Ele: Minha mulher me expulsou de casa...
Ela: Creio que seja por minha causa...
Ele: É, foi, por sua causa, e por causa da fofoqueira...
Ela:...
Ele: Esse carro é de quem?
Ela:..

Um homem passa pela sala, o traidor-traído o vê, o homem o cumprimenta com a cabeça e some de novo. Quem imaginou uma cena de sangue e morte, ciúmes e possessividade ficará frustrado, pois nada disso aconteceu. A mulher apenas explicou que tinha outros, ele aceitou que havia sido expulso de casa por duas mulheres no mesmo dia e entrou novamente no carro.
Agora não tinha mais jeito, ou ia prum hotel qualquer, ou voltava pra casa. Pegou o caminho de casa, põe um CD, a voz inconfundível de Frank, um velho amigo, seu agora faz companhia ao coitado. Vai a cada faixa chegando mais perto do prédio onde mora, e cada esquina seu coração bate mais rápido e ele sabe menos o que fazer. Até que chega, cumprimenta o porteiro com vergonha. Entra no elevador, por sorte sozinho.
Mora no quarto andar, mas aperta o sexto. O elevador se arrasta e chega ao sexto andar. Aperta a campainha do apartamento 602, a fofoqueira abre a porta, ela a segura pelo braço, beija-lhe a boca e os dois entram no apartamento.


Este conto também está na Bagatelas Revista de Contos, visite:
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Ernesto Aguiar
Enviado por Ernesto Aguiar em 23/06/2005
Reeditado em 30/06/2005
Código do texto: T27137
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Sobre o autor
Ernesto Aguiar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
3 textos (570 leituras)
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