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Um homem que chora

“Homem que é homem não chora! “. Por tantas vezes ouvi ecoar em minha mente essa exclamação... E em contra partida cansei de ouvir: “ Quem não chora não mama!”. Uma neutraliza a outra? É... Não sei. O que sei é que recordo perfeitamente um soluço tímido e abafado, rompendo o silêncio daquela madrugada chuvosa em que eu não conseguia dormir direito com o incômodo da torção no pé que conquistei na pelada de rua na tarde do dia anterior.
Fixei o olhar no nada tentando apurar a audição ao máximo que podia para entender de onde vinha aquele soluço, que aparecia e sumia como que acompanhando os relâmpagos que iluminavam as frestas das telhas naquela noite invernosa. Parecia-me um tanto esquisito ouvir alguém tentando disfarçar seu choro aquela hora da madrugada. Eu era a única criança da casa e com os meus sete anos era um homemzinho e homem não chora. Acima de tudo eu não tinha qualquer motivo para chorar naquela noite, embora aquele emplastro caseiro de mastruz e mostarda, feito por minha mãe, envolvendo meu pé não evitasse aquela dorzinha latente e chata. Sentei-me na cama e cautelosamente apoiei o pé no assoalho de madeira e levantei-me concentrando o peso do corpo quase que totalmente no pé esquedo. Lentamente e com certa dificuldade caminhei até a porta do quarto sem acender as luzes orientado pela iluminação sutil que vinha da porta entreaberta do banheiro no final do corredor. Tornara-se hábito a luz do banheiro acesa durante a noite para servir de orientação, principalmente para mim quando precisasse levantar-me no meio da noite. Capricho zeloso e paternalista que meu pai não dispensava de forma alguma. Aquele homem robusto que me ensinara a arte de ser homem. Sabe? Ter uma única palavra e fazê-la valer no momento certo... Expressar respeito pelos outros e assim obter também respeito... Com seu jeitão um tanto quanto machista ensinara-me também que homem não chora. Apesar da minha pouca idade eu conseguia acompanhar o dia a dia daquele guerreiro, esse é o adjetivo correto: guerreiro. O homem parecia-me inquebrável como algo feito de aço maciço. Não consigo lembrar de um momento em que o tenha visto perder “ as estribeiras ” . Sujeito extrovertido, brincalhão, não deixava ninguém sossegado, porém muito sério em suas responsabilidades. Não tenho lembranças daquele dia triste e enfadonho para ele – foi o que me contaram – quando minha mãe sofreu um acidente terrível caindo do trem pouco antes do desembarque,  fraturou  o crânio e em seguida não resistindo, desfaleceu-se enquanto socorrida por meu pai.. Eu tiha apenas quatro anos na época, e um ano depois ele casou-se com Dona Clarice... Aos poucos acostumei-me a chamá-la de mãe. No dia do fatal incidente ele passou por um dos maiores sufocos de sua vida. Providenciou tudo sem demonstrar qualquer sinal de fraqueza embora fosse perfeitamente visível o seu pezar. Na noite do dia seguinte, quando retornava do funeral pediu a tia Izelda que tomasse conta de mim enquando iria caminhar por aí, ficar sozinho... Essas coisa de adulto. Talvez essa tenha sido a única vez em que ele tornara-se fragilizado, embora para mim ele nunca o fora já que eu não tenho em lembrança tal acontecimento. Mas aconteceu! Naquela noite ele saiu lá pros lados da estação, onde tinha a conhecida “ diversão de homens” e por lá ele bebeu até não ter mais cosciência de sua existência. Irônicamente o destino pregou-lhe uma peça, que contando ninguém acredita... O trem, aquele maldito trem que levou minha mãe... Deus do céu, eu me arrepio só em pensar. Naquela noite aquele homem forte, quase feito de aço, não passava de um  pobre bêbado inconsciente caido por sobre aqueles dormentes, com uma das pernas por cima dos trilos – guilhotina do destina que lhe deceparis parte do vigor, aço com aço, quem resistiria? – O trem persistente o pôs a nocaute, decepou-lhe uma das pernas.
Eu ainda me apoiava com  uma das mãos na maçaneta da porta e a outra na parede, adiantando minha cabeça lentamente na tentativa de visualizar a porta do quarto de mamãe e ouvir se aquele soluço choroso vinha de lá, quando coincidentemente um relâmpago iluminou mais uma vez as frestas das telhas e um soluço quase em sincronismo com a cena surgiu. Percebi claramente que vinha do lado oposto da casa. Por um momento aquele homemzinho de sete anos quase tornou-se um menino, e senti vontade de sair correndo para o quarto de mamãe... Ou para debaixo da minha cama. Ora, se soluço não vinha do quarto, quem mais poderia estar no meio da casa? Assombração? Naquele instante vasti-me de “Papai”  e corajosamente, apoiando-me na parede sem consegui pisar direito no chão segui em direção aquele ruído. Por um momento pensei em voltar para o quarto, meu pé estava doendo e depois, pela manhã eu perguntaria a mamãe ou ao papai o que acontecera na madrugada. Mas repentinamente recordei a bravura  de meu pai, que mesmo de muletas batia pelada comigo, brincava com a vizinhança e tomava sua cervejinha com os amigos embora vez por outra repetisse muito bem humorado: “ Só não vou pros lados da estação”. Nunca deixou transparecer que isso fosse obstáculo, ou talvez nunca tenha sido. Decididamente caminhei, embora a passos bem lentos, em direção a sala de estar. Mais uma vez aquele soluço engolido arrepiou-me o corpo. meu coração quase pulou fora do peito e um calafrio desceu-me da nuca até meu tornozelo machucado dando-me uma sensação de agulhada sob aquele emplastro.
Na penumbra uma sutil e suave silhueta mostrava-me que alguém ou alguma coisa havia sobre o sofá da sala. Um relâmpago iluminou rapidamente uma haste de metal caída sobre o braço do sofá. Aproximei-me cautelosamente e vi ainda em silhueta uma imagem robusta com um dos braços cruzados apoiando o outro que por sua vez apoiava o queixo. Quase não acreditei, meu guerreiro de uma perna só, soluçando timidamente escondendo seu pranto. Me fiz presente:
- Pai?
Ele descruzou os braços, entrelaçou as  mãos pondo-as sobre seu colo, pressionado os cotovelos contra o tórax numa sensação de frio, fitou-me com um olhar úmido por alguns poucos segundos:
- Vem cá... – Foi o que ele falou estendendo os braços enquanto um relâmpago iluminava os filetes de lágrimas que desciam-lhe o rosto..
Perplexo, sem entender direito o que acontecia, cai em seus braços... E choramos. Eu como um adulto... E ele como uma criança.
Contendo seu pranto, apertando-me contra o peito, entre um soluço e outro, depois de um suspiro profundo e nostálgico, falou-me:
- Sabe miúdo? Eu menti pra você quando falei que homem não chora... As vezes não dá pra segurar, aí agente percebe que não é tão forte quanto parece. Sabe? Sinto falta de sua mãe...Sinto muita falta... – Engasgou por um instante e continuou:
- Também sinto falta da minha perna...
Abraçados, choramos mais um pouco até adormecermos no sofá.
O fato de ter visto meu pai chorar não o diminuiu em nada, ele continuou sendo meu guerreiro... O homem de aço. E a partir daquele dia eu passei a entender que homem que é homem...Chora.
                                                       
                                                                       Fim
Zemar Sousa
Enviado por Zemar Sousa em 27/10/2006
Reeditado em 27/10/2006
Código do texto: T274976
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Sobre o autor
Zemar Sousa
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Zemar Sousa