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A Lua
(Da Série: Estranhas histórias de amor)

Foi numa noite de julho de 1956. O salão de festas de um famoso hotel da Avenida Atlântica, orla litorânea de Copacabana, Rio de Janeiro, havia sido reservado para uma comemoração especial. O dia exato, assim como nome do hotel e o motivo da comemoração eu prefiro declinar, para manter a privacidade dos personagens envolvidos.

Naquela noite então haveria uma das festas mais aguardadas pela alta sociedade carioca. Todas as figuras de maior destaque naquela época estariam presentes, com certeza. Os convites foram disputadíssimos, mesmo que para consegui-los alguns tenha se utilizados de artifícios pouco recomendáveis à boa reputação de uma pessoa. Mas quem disse afinal que naquela época, como agora, não se pensava que os fins justificam os meios?

Mas eu não compareci, mesmo que, apesar de não fazer parte da alta sociedade, com certeza a minha presença era esperada. Mas eu não fui.

Fiquei sabendo depois que ela estivera extraordinariamente linda naquela noite. É difícil imaginá-la mais linda do que de costume, mas, pela descrição que ouvi, ela realmente conseguira se superar. Os deuses da beleza são sempre caprichosos e generosos quando desejam.

A orquestra tocava "Mad about the boy" quando ela entrou no salão pela escadaria de mármore que ligava o andar acima ao do salão, e que havia sido igualmente reservado para que as pessoas mais íntimas pudessem se preparar no próprio local.

Antes de descrevê-la, deixem que eu descreva o cenário por onde reinaria aquela encantadora criatura, naquela memorável noite.

Não estranhem eu ter falado na orquestra, pois aquela não era uma festa para menos do que isso. A melhor orquestra carioca da ocasião havia sido contratada para alegrar o convidados. Ouvindo-se "Mad about the boy" na voz da principal cantora a orquestra era mesmo como ouvi-la na voz da própria Dinah Washington.

A noite se apresentara com um suave frescor, apesar de ser uma noite de pleno inverno. Mas o dia que a sucedeu havia sido morno e seco e o resultado era uma lua cheia de orgulho por ser também ela uma convidada especial. Da varanda do salão podia-se prever que mais cedo ou mais tarde a lua entraria varanda à dentro, tal era o seu esplendor. E aquela lua, que decorava a varanda e as janelas do salão, parecia ter se vestido com todo o seu brilho para combinar com pompa e circunstancia com a decoração do ambiente. Deixada a cargo uma empresa norte-americana, que mantinha em seu currículo a decoração de festas de reis e presidentes no mundo inteiro, a decoração daquela festa primava pelo bom gosto suave, sem afetação, digna daqueles que por serem, não se desgastam por parecer ser. Jasmins, crisântemos e grandes quantidades de flores do campo, suavemente colocadas entre fachos de luzes que não deixavam que o brilho das luzes artificiais fossem páreos para aquela emitida pela senhora lua, mas ali estavam para complementar, não deixando que os ambientes mais afastados das janelas ficassem obscuros. Ah! Não vou falar de comidas e bebidas oferecidas aos convidados. Estes são assuntos menores que se subentende pelo cuidado geral com que já descrevi o que era aquela noite.

E foi nesse cenário pintado pelas mãos de anjos que ela entrou no salão. Poderia-se pensar num primeiro momento que ela era a razão da festa, mas não. A festa tinha seus próprios objetivos que era uma mescla de assuntos políticos e negócios milionários. Comemorava-se tanto uma coisa como outra e daqueles salões sairia uma pessoa que posteriormente iria assumir um mandato de grande relevância nos destinos do país.

Mas que me perdoe esta figura de tanta importância, o verdadeiro homenageado naquela noite. Aqui nesta história que estou a lhes contar ele não passa de um personagem secundário que logo deixará a cena.

Aos primeiros acordes de "Mad about the boy", de modo totalmente casual, ainda que se pudesse jurar que tivesse sido algo excessivamente ensaiado, ela começou a descer a escada. Não, a festa não parou para presenciar aquela cena, ainda que fosse merecido isto. Mas como eu disse, naquela noite ela não era personagem principal. Ela era apenas uma das sobrinhas do homenageado. Mas aqueles que estavam próximos não deixaram de perceber aquela entrada triunfal. Ela descia devagar e decidida, distribuindo sorrisos e cumprimentos de uma forma natural e encantadora, melhor seria dizer, de um modo naturalmente encantador. Enquanto ela descia a escada, entre um cumprimento e um sorriso, seus olhos vagavam no salão, como que buscando uma pessoa em especial, e vez por outra se dirigiam à entrada principal, como que esperando ver chegar o seu convidado especial.

Como descrever tamanha beleza que naquela noite se excedera, tal qual a lua, em brilho e beleza? No frescor de seus dezoitos anos recém completados, era cobiçada pela fina flor dos rapazes da alta sociedade. De uma família ilustre e poderosa, o que iria se afirmar ainda mais a partir daquela noite, era uma deusa, a quem só um deus poderia de fato cobiçar. Mas não era um deus que ela procurava com tanta insistência naquele momento.

Ah! Quantas horas, dias, meses da minha vida eu não daria para ter estado ali naquele salão, não pela recepção em si, não por nada enfim, mas somente para vê-la, ainda que por um breve espaço de tempo. Daria mesmo, sem nenhum arrependimento, alguns anos da minha vida por singelos cinco minutos naquele salão. E nem pediria para ter estado frente a frente com ela. Bastava poder observá-la em plenitude, mesmo à distância. Guardaria aquela imagem como quem guarda um Renoir, imagem esta que hoje só tenho por descrições posteriores de quem teve a felicidade de contemplá-lo ao vivo e por conta de uma antiga fotografia publicada por uma revista da época.

E apesar de que isso me fosse possível, eu não fui, como já disse anteriormente.

Quando a orquestra já havia terminado "Mahattan" e iniciava os primeiros acordes de "Unforgatable" um cavalheiro lhe solicitou uma dança. Já vários casais ocupavam a área destinada como pista de dança. E ela cortesmente cedeu-lhe aquela dança. Bem podia ter sido eu o escolhido dos deuses para aquele momento, as não fui. Aliás, repito, eu não fui àquela festa. Mas mesmo dançando seus olhos não cessava a sua busca.

Mas, me perdoem, não a descrevi à altura, remediarei agora mesmo a minha falta. Seus longos cabelos louros desciam em cachos sobre sua pele rosada, em perfeito contraste com seus olhos lindamente azuis, aqueles mesmo olhos que avidamente passariam boa parte da noite suplicando encontrar quem ela procurava, O seu sorriso era antecedido pelos lábios cheios, destes que se podem realmente se chamar de lábios, e estes se vestiam de um vermelho suave. Seu vestido com um ousado decote, de cor que se confundia entre o chá e o salmão, descia levemente em seu corpo. Um pingente com uma pedra azul enfeitava seu pescoço, sem bem que nem o brilho daquela jóia ofuscasse o brilho do seu olhar. Ainda ornando o seu pescoço em suave echarpe que parecia fazê-la flutuar quando ela caminhava. E como falar daqueles olhos sem falar das sobrancelhas, da mesma cor de seus cabelos, talvez um pouco mais claras, e naturalmente construídas não para concorrer com os olhos, mas para adorná-los.

E assim, nesta atmosfera "quase" perfeita correu a noite, e nela brilhara uma princesa de conto de fadas. E a festa foi comentada por muitos anos. E há mesmo aqueles que ainda hoje se refiram àquela noite num misto de saudosismo e orgulho por lá terem estados presentes.

Soube que alguns meses depois ela casara com um daqueles semideuses da sociedade, um dos mais cobiçados partidos de então. E não poderia ter sido diferente, embora, em minha doce ingenuidade eu achasse que deveria ter sido diferente.. Há quem diga ter percebido nela um ar um tanto entediado no dia do casamento. Não sei, não se podem confiar muito nestas indiscrições.

Eu sei que muitos estarão curiosos para saber por que me refutei de estar presente àquele grande evento. E eu agora lhes explicarei. Não fui por um simples motivo: eu não era nascido ainda naquele ano. Na verdade eu só entraria neste mundo alguns anos depois, em 1961.

Eu nasci e muitas coisas aconteceram na minha vida, todas normais e presumíveis, até aquela noite de setembro de 1982 quando eu, juntamente com um grupo de colegas de faculdade, resolvi curtir uma noite de sábado numa casa noturna no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Apesar de ser um grupo que sempre fazia programas juntos, nos finais de semana, as coisas eram quase sempre improvisadas, raramente sabíamos de antemão o que exatamente iríamos fazer. Ficávamos conversando num dos muitos bares entre o Leme e o Leblon, até que alguém fizesse uma proposta decente. E naquela noite a única opção que pôde ser levada a sério era a de ir nessa casa noturna. A idéia foi aceita meio a contragosto, inclusive por mim mesmo. Primeiro porque nenhum de nós havia estado lá antes, e depois porque o clima daquela casa, isso era do nosso conhecimento, era de uma atmosfera anos 50, o que não se encaixava muito bem no pique de um grupo que variava do 19 aos 23 anos (apesar de que eu, particularmente, sempre apreciara aquelas antigas canções). Mas a proposta foi enfim aceita, e rumamos para lá, num grupo de 9 pessoas em 6 carros.

Assim que entrei começou a tocar "Mad about a boy", desta vez na voz legítima da Dinah Washington (obviamente não havia uma orquestra, era música mecânica mesmo). Como que dirigidos não sei por quem meus olhos seguiram diretos para outros que também me olhavam. Não será exagero se eu lhes disser que nunca antes, e jamais depois, em toda a minha vida vi um brilho tão ofuscante vindo de olhos tão azuis. Não sei precisar quanto tempo durou aquela fixação mútua de olhares. Para mim tenho a impressão de que ele durou exatamente 26 anos, 1 mês e vinte dias, mas acho que sinceramente não foi tanto assim, pois logo senti o braço de uma das colegas se enlaçando no meu, me encaminhando para não sei onde. Naquele momento parecia estar me levando para o inferno, uma vez que me afastava daquelas duas jóias cintilantes que também não desgrudavam de me olhar. Mas não era para o inferno que me conduziam, apenas o grupo já tinha escolhidos as mesas onde nos instalaríamos.

A noite deslizava entre conversas, bobagens, danças, bebidas e muitas trocas de olhares (só que os olhares, acho que não preciso dizer, era entre eu e ela).

Já havia passado pouco mais de uma hora que estávamos ali, quando tocou "Manhattman". Não sei que espírito se apossou de mim naquele momento (e foi a primeira e última vez que ele se apossou de mim) que levantei imediata e decididamente em direção a ela, naquele momento disposto a tudo, a matar ou a morrer se preciso fosse (que exagero, percebi depois). Ninguém na mesa percebeu tamanha ousadia, que só existia em mim, eu era apenas um rapaz se levantando para tentar uma conquista, ou uma simples dança, tudo muito natural.

Aproximei-me dela e a convidei para dançar. Ela aceitou. Quis dizer logo isso porque quero descrever melhor tudo o que senti e o que se passou nos centésimos de segundo entre o meu convite e a resposta dela. Mas para não deixá-los na expectativa (Será que ela aceitou? Será que ela o esbofeteou? Será que ela disse não e virou-lhe a cara?) já adiantei o resultado: ela aceitou. Então retornemos alguns centésimos de segundos para trás.

Ao me aproximar dela, para chamar-lhe atenção, pois naquele momento nossos olhares não estavam em harmonia, toquei-lhe leve e gentilmente o braço. Senti um choque de aproximadamente 220 mil volts correr dos braços dela em direção aos meus dedos. Mentira, dirão alguns. Um choque desse não me permitiria estar aqui agora, quase vinte anos depois narrando o fato. Ah, para esses eu respondo simplesmente: vocês podem entender muito de física, de eletricidade e tudo o mais, mas talvez não entendam nada das emoções. Ela prontamente, assim que a toquei, virou o rosto em minha direção e antes de dizer "sim, com prazer" lançou para mim o sorriso mais enternecedor que eu jamais presenciara. Diante de tanta beleza e doçura eu confesso que tive o ímpeto de me desculpar e sair correndo porta a fora. Felizmente não o fiz e, segurando-lhe levemente as mãos, a conduzi à pista de danças. Quando senti o corpo dela junto ao meu, minhas mãos nas suas costas, seus braços sobre os meus ombros... Deus, até hoje não sei como resisti. Disse a ela que aquela era umas das minhas canções prediletas, e iniciamos um diálogo nesse sentido. Para minha felicidade a canção seguinte foi "Unforgattable", seguida por "Tears on My Pillon", seguida por "What a Wonderful World" de Louis Armstrong. E em todas elas permanecemos unidos, eu sem nenhuma vontade de deixá-la partir, e ela não demonstrando nenhum desejo de ser deixada ir-se. Mas quando veio "Summer of 42" eu sucumbi, o que é perfeitamente compreensivo. Antes de iniciar a música nos estávamos nos olhando fixamente, tendo um assunto qualquer como pretexto. Assim que a música se iniciou meus lábios procuraram e acharam os dela, que se deixaram achar e serem beijados.

Daí para frente eu não saberia mais explicar nada na ordem correta. Só sei que eram 1:30 da madrugada de domingo quando entramos num sítio de propriedade dela em Petrópolis. Não preciso dizer que a lua naquela noite resolveu nos brindar com o mesmo brilho daquela noite em que eu não fui àquele baile.

Naquela noite nos amamos como duas pessoas que esperaram mais de duas décadas por aquele momento, sem jamais imaginar se aquilo seria realmente possível. Sim, era uma sede de 26 anos, 1 mês e vinte e um dias. Não houve cansaço que nos abatesse, nem ouve sono que nos vencesse, pelo menos até o amanhecer. Entre um momento e outro conversávamos como duas pessoas que se conhecessem de muito tempo. E em parte isso era verdade.

Soube então que ela ainda era casada com aquele mesmo que citei acima, cujo nome omiti e continuarei omitindo. Soube então que ela nunca desejara casar com ele, e o fizera simplesmente por pressão da família. Nunca se sentira feliz, mas sentia-se conformada. Tinha um casal de filhos. O marido estava na Europa em viagem de negócios e a filha estudava nos EUA. O filho morava e estudava no Rio e, pasmem, era meu colega de faculdade, que por coincidência não havia saído conosco àquela noite por causa de outros compromissos. É claro que eu omiti isso dela, apesar de confirmar que o conhecia da faculdade. Ela me contou também (e, mesmo que pareça ingênuo, eu acreditei) que nunca se envolvera antes em aventuras extraconjugais, apesar de inúmeros apelos que surgiram, e de todas as possibilidades, visto que o marido passava muito tempo fora, nas suas viagens, e da liberdade que ela tinha para sair e se divertir. Se fui ingênuo em acreditar nisso, devo confessar que fui muito mais em amá-la ainda mais por isso.

Passamos juntos todo aquele domingo, e este foi um tempo não computado no céu, pois o passamos no paraíso.

Porém veio a manhã de segunda feira e tivemos que retornar ao Rio. No caminho de volta viemos calados, apenas minhas mãos acariciando as dela e sendo pelas dela acariciadas.

Antes de descer do carro ainda calados, trocamos o olhar mais profundo de todos, nos beijamos com ardor e nos despedimos sem palavras, sem nenhuma palavra sequer. No fundo nós, que tivéramos o encontro mais tácito do mundo, que sabíamos perfeitamente o que o outro sentia, sabíamos também que os nossos destinos estavam selados. Os céus haviam aberto uma brecha para nós, mas isso era tudo o que havia sido permitido. E antes de sair, olhando profundamente nos olhos dela, vi escorrer uma lágrima naqueles lindos olhos que viam escorrer lágrimas também dos meus. Nunca, até hoje eu sei precisar se aquelas lágrimas mútuas eram de tristeza somente, ou se nelas havia um quê de agradecimento, de mim para ela, dela para mim, de nós dois aos céus.

Nunca mais a vi. Li, dias depois nas colunas sociais de um jornal que ela havia viajado para uma temporada sine die na Europa. Dois meses depois fiquei sabendo que ela morrera num acidente de automóvel na Itália, acidente na qual o marido havia escapado com vida, apesar do estado lastimável que havia sido retirado dos destroços. Tranquei-me três dias seguidos em casa e chorei todas as lágrimas que eu possuía, e mesmo aquelas que um dia eu iria possuir. Acho mesmo que quase me sequei, pois nunca mais depois disso os meus choros foram além de duas lágrimas arrancadas com muita dificuldade de mim. Eu estava até preparado e resignado em nunca mais encontrá-la, mas nunca deste modo. Preferia ela linda naquele salão, em 1956, longe de mim, mas viva, capaz de ver a lua que hoje eu contemplo com tristeza. Talvez seja egoísmo eu dizer que mesmo longe de mim, mas viva, eu me sentia vivo também nas lembranças dela.

Mas a vida seguiu seu curso e alguns dias depois eu já havia retornado as minhas atividades normais, inclusive na faculdade. É claro que eu nunca comentei sobre isso com mais ninguém, muito menos com o filho dela. Mas depois daquele final de semana eu nunca mais consegui olhar para ele, que aliás era um pouco mais velho do que eu, sem ver nele uma espécie de filho, um filho que eu não tive com ela por causa de pequenos problemas cronológicos. Mas no fundo eu me sentia como uma espécie de pai espiritual dele.

Lucas Castro
Enviado por Lucas Castro em 27/10/2006
Reeditado em 12/10/2008
Código do texto: T275221

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Sobre o autor
Lucas Castro
Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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Lucas Castro

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