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Conto de Reveillon

Aquele fim de ano dificilmente sairá de sua cabeça. Poderia ser apenas mais uma das tantas tardes que, nos últimos meses, passara sentando nas pedras que adornavam a orla marítima, mais precisamente na ponta esquerda da praia. Era a melhor vista para Guilherme; a cidade acompanhava a praia desde a extremidade oposta e desaparecia por trás do morro que se erguia por detrás dele. As luzes urbanas deixavam rastros que timidamente se refletiam no mar, enquanto o sol os combatia com seus últimos raios avermelhados.

As dores que sentia não tinham cura, a impiedosa saudade daquele tempo de amor já havia destruído seu espírito há algum tempo. Depois que Júlia partira, era naquelas pedras que ele se sentava todo fim de tarde a fim de lançar ao mar todo esse martírio e afogar as lembranças que não o deixavam mais em paz.

Era o início da noite de ano novo, noite na qual todos esperamos alguma mágica, algo que transforme nossas vidas. Ao ver a primeira estrela despontar no céu, lembrou-se de sua infância e fez logo um pedido, mantido em segredo até que se realize. Permaneceu mais algum tempo no local, observava a pálida lua que lembrava a alva pele de sua amada. O mar, agora negro, o fazia chorar, tinha vontade de mergulhar nele, como se fossem os olhos de Júlia. Poderia ficar muito mais tempo por lá, quem sabe eternamente, porém teve que cortar suas divagações, pois se lembrou que logo apareceriam os turistas e os foliões de ano novo e sua paz se transmutaria em inferno.

Ao se retirar, Guilherme sentiu a brisa marítima a lhe acariciar a pele, como se o consolasse, e realmente conseguia. Dirigiu-se até sua casa e se preparou para seu solitário Reveillon.

Mais tarde, apesar de passear em meio à multidão, estava só, como uma minúscula ilha do Pacífico. Os risos da multidão se confundiam com os gemidos de sua alma, era como se não houvesse ninguém mais ao seu redor, exceto por um par de negros olhos que tentavam roubar o brilho do reflexo lunar na baia. Estremeceu...

Cada músculo, cada pelo de seu corpo, cada poro se contraiu com aquela visão. Não podia ser! Olhou com mais cuidado e a figura continuava lá, não resistiu e se aproximou. Parecia um bêbado de tão trêmulas que estavam suas pernas, tinha a feição de uma criança quando vê aquele embrulho enorme esperando para ser aberto na manhã de Natal.

Quanto mais próximo chegava, maiores eram os passos que precisava dar. O último passo mais pareceu um difícil salto, mas sem pensar o fez. Não acreditava em seus olhos, era ela! Tinha que ser! Ao sentir sua presença, a moça se virou para Guilherme e abriu um largo sorriso.

        - Finalmente você veio Guilherme, te esperei tanto!
        - Julia?! É você mesmo? Meu Deus, quanta saudade!
        - Sim, sou eu... e também estava com muitas saudades de você....
        - Por onde você andou que não me mandou mais notícias?
        - Ah Guilherme... é uma história complicada, mas não vamos falar disso agora.

Os olhares de ambos não paravam de se beijar, apenas se olharam por alguns instantes e suas bocas não resistiram mais a espera e imitaram os olhos.

Era a melhor noite em meses para Guilherme, estava novamente com sua amada, assim como havia pedido para a estrela. Não sabiam fazer outra coisa a não ser se beijar, se abraçar, dançar a silenciosa música que o amor nos canta em nossos pensamentos, cujos passos só os apaixonados sabem. Inebriados pelo momento, como se sós no universo, dançavam lentamente em meio aos foliões, sem desatarem os corpos, os olhares, as almas. Eram apenas eles e o cenário, o mesmo que Guilherme admirava e chorava todo fim de tarde.

Próximo da meia noite, depois de momentos maravilhosos, Júlia levou Guilherme até as mesmas pedras nas quais ele passou tardes a desejá-la e disse:

        - Amor, tenho que me despedir, estou partindo.
Ele não podia acreditar no que ouvira.
        - Mas, por quê? Ainda não é nem meia-noite! A virada!  E faz tanto tempo...
        - Sim, eu sei – disse Júlia o interrompendo - mas esse é o problema.
        - Como assim, Júlia, o que você quer dizer com problema? – disse Guilherme com uma feição grave.

Transparecendo no rosto a insuportável dor que sentia, Julia lentamente abriu seus lábios e começou a falar e, à medida que falava, assistia sua dor contagiando Guilherme e sua face também se transformava.

        - Sabe, amor, o nosso problema é que nenhum segundo do próximo ano me pertence. Eu não pertenço ao ano que vem ou a qualquer outro ano.
        - Você só pode estar brincando... como...?... o que ...?...
        - Guilherme, esse tempo todo que eu não te procurei, não foi por vontade própria, foi por impossibilidade física. Meu amor, eu não existo mais desde o fatal acidente que me tirou a vida.

O rapaz empalideceu. Tudo a sua volta não fazia mais sentido, era muito absurdo pra ser verdade. Ele não podia acreditar que pudesse haver tamanha injustiça envolvendo um amor tão nobre.

        - Não vamos entrar em detalhes, você pode conhecê-los depois, sem minha presença. – voltou a dizer Julia – Temos apenas mais alguns minutos juntos e eu não posso frustrar nossa ultima chance de amor e ... despedida.
Julia o beijou e ele correspondeu num beijo de amor infinitamente belo como nenhum outro jamais foi, o abraçou com um afeto descomunal por alguns instantes que para os dois jamais terminara e se afastou, olhando pra ele que também a olhava.

        - Adeus, eu te amo. – disse ela.
        - Adeus, eu te amo. – disse ele, inconformado.

E enquanto Julia continuava a se afastar em direção ao mar, sem tirar os olhos dos olhos de seu amado, sua imagem foi gradativamente desaparecendo um pouco a cada passo, até que, finalmente, desapareceu por completo. Nesse instante a estrela à qual Guilherme fez seu pedido pulsou e seu brilho ficou mais forte. Era ela.

Ainda sem palavras, incrédulo e ressentido com a vida, Guilherme apenas observara cada passo de sua amada e os acompanhara, cada um com uma lágrima. Seu coração, mesmo sem assimilar tamanha dor e perplexidade, sabia que nada poderia ter feito. Restou ao enamorado aquela triste felicidade, aquele otimismo de botequim, que o consolava. Não precisaria mais voltar até aquele canto da praia todos os dias para chorar Júlia, pois a viu virar estrela e agora, de qualquer lugar, poderia vê-la e amá-la todas as noites e por toda sua vida.
Tiago Inforzato
Enviado por Tiago Inforzato em 29/10/2006
Código do texto: T277072

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Sobre o autor
Tiago Inforzato
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