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Amor, fiel amor...

O trabalho




     Ubaldo, há tempos, trabalhava naquela repartição pública e seus anos de casa proporcionavam-lhe um grande respeito por parte de seus colegas; a antigüidade era como hierarquia no serviço público. Tratava-se de um sujeito bem-apanhado, no alto de seus quase quarenta anos – um meia-idade –, funcionário do Banco do Brasil, ocupando cargo de gerente e dono de um salário bastante razoável para a realidade de um Brasil que achatava as diversas categorias. O Estado ainda cativava muitos candidatos para as diversas carreiras disponíveis: sonho de estabilidade empregatícia e de generosos vencimentos na aposentadoria. Mas voltemos a Ubaldo, esse respeitável funcionário; exemplo de profissional, idealista, incansável em suas tarefas, resignado pelas imperfeições da máquina administrativa. Devotado de coração à probidade, ao zelo pelo patrimônio público; nenhuma folha de sulfite sequer se desperdiçava diante de seus olhos. Dizia sempre aos esbanjadores dos dinheiros da Fazenda: — Você está ajudando a ceifar mais um eucalipto de nossas florestas, e, o que é pior, saqueando o bolso do pobre contribuinte...
     Em todos os aspectos, sobravam-lhe predicados, inclusive no trato pessoal com os colegas; difícil encontrá-lo em atmosferas funestas, pois sua presença de espírito era contagiante – de certa forma, um verdadeiro palhaço, na expressão mais singela da palavra – e sua ausência tão marcante quanto sua presença, em carne e osso.
     Em suas características, não podemos nos furtar a destacar  seu encantamento quase servil pela figura feminina. Sim as pequenas, de fato, exerciam uma magia em sua mente; elas povoavam seus pensamentos durante a quase totalidade do tempo; dia e noite, permeavam sua imaginação e, vez ou outra, via-se envolvido em um novo amor; aquele que, por certo, seria o derradeiro, o maior de todos de sua vida... até que o sentimento se começasse a esgarçar e o conto de fadas se tornasse mais uma investida frustrada.
     Em todos seus anos, colecionara vários dissabores afetivos, várias cicatrizes e outras tantas feridas incuráveis. Mas a busca fazia parte de seus hábitos e, na ausência da pessoa certa, o certo era procurar e experimentar, afinal não se conhece a mulher ideal sem percorrer os meandros de cada uma que lhe desperte o interesse.
     Não se podia chamá-lo de mulherengo, rótulo que abominava profundamente. Preferia defender o mote do romantismo, já que se entregava de todo a suas paixões e via em cada mulher não suas irregularidades plásticas ou seus atributos que saltavam aos olhos, mas as nuanças que fugiam ao olhar raso, aqueles traços unicamente perceptíveis para os seres sensíveis. Eram os olhares contidos que revelavam, era a mordida nos lábios que dizia mais que um sorriso, a fragrância da pele e não dos perfumes importados que o provocava...
     Poder-se-ia dizer dele uma criatura controversa em relação a alguns conceitos seculares. O casamento, por exemplo, nem de perto, era uma meta em seus planos, embora não o descartasse nem diminuísse seu valor para uma sociedade bem-ordenada e correta, mas, em sua mente, acreditava que, por trás desse papel social, houvesse uma ditadura sobre o indivíduo, que se via sempre destinado a traçar esse caminho num rigor factual caso não desejasse a reprimenda condigna dessa sociedade impositiva — por vezes, hipócrita — que determinava essa trajetória aos ditos “normais”. Ele cria mesmo que essa trilha infalível rumo aos papéis impostos gerava nas pessoas um dever absurdo de, até, sobrepujar os próprios desejos em razão de uma quitação com o grupo; quase um serviço militar. A diferença é que este se expira e aquele outro, teoricamente, é para toda a vida. E aí o que se segue é, repetidas vezes, uma triste ilusão, uma mentira, para si e para os outros. As conseqüências deságuam invariavelmente no descasamento ou na dolorosa prisão matrimonial para os menos convictos de si mesmos.
     Essas opiniões rendiam-lhe longas contendas, discussões acaloradas com aqueles que lhe procuravam enfiar goela abaixo a certeza de que todo o indivíduo indubitavelmente chegaria ao altar; era o caminho da vida...
 O ponto nevrálgico era sempre o mesmo:
     — Ora, Ubaldo, que é que você espera da vida; quarentão, solteiro... As garotas não vão ficar para sempre atrás de você, não! Quer ficar velho e sozinho?
     — E o que você sugere? casar-me com a primeira que aparecer e viver como você, casado com vida de solteiro — um vigarista? mentindo para esposa, para os outros  e —o pior — para si mesmo? Não! Posso até me casar, mas será verdadeiramente por amor, inda que ilusório, mas por uma necessidade incondicional de passar o resto dos meus dias com aquela que , creia eu, nasceu para fazer parte do meu mundo, dividir meu espaço, meus problemas, minhas alegrias e mesmo o ar que respiro. E, ainda assim, não sei se será para sempre...! Pois é!...
     Mas, de uma forma ou de outra, ele aproximava a clientela do sexo oposto. Não que lhe sobrassem os atributos estéticos, já não era um garoto, mas essa sua perspicácia, esse seu modo peculiar de ver o mundo, sobretudo as mulheres, essa sua falta de ressalvas em avaliá-las, a condescendência com que lhes aceitava em suas necessidades, seus anseios de até decolar, ainda que em pensamentos, sonhos, para alhures, mundos distantes da cruel realidade da rotina conjugal, do crivo puritano, da pena moralista eram a razão de um certo sucesso seu. Imperava um desejo desmedido de provar se era mesmo possível haver um homem daquele jeito. Seria?... Essa  indagação transpassava a libido do mulherio .
     Entretanto um profissional de sua envergadura não se podia permitir viver à caça de donzelas em seu campo de labuta; era necessário manter o eixo de sobriedade, alinhando sua figura no dia-a-dia; uma disciplina no convívio com todos, e todas, embora lhe fosse quase uma tortura em dadas ocasiões; vivia cercado por elas e lutava bravamente para manter o prumo:
     — O senhor percebeu que eu mudei os cabelos?...
     — Claro que sim, Susana, e percebi que você mudou de perfume também, não é?
     — É verdade! Nossa, que faro o do senhor, hem?...




Ah!... Doralice!...




   
     E assim se seguiam os dias; tudo sob controle, na mais perfeita rotina burocrática.
     E é nessa rotina burocrática que, naquela cinzenta manhã, é apresentada a nova funcionária — Doralice —,  que já nem nova era; na verdade, oriunda de outra agência. Sua reputação a precedera. Casada, respeitável, discreta e sisuda. Poucos, muitos poucos se atreveriam a arriscar-lhe qualquer gracejo que fosse. A moça carregava um semblante impostado de matrona num corpo de menina. Muito prestigiada por sua funcionalidade, seu desempenho acentuado e, acima de tudo, sua discrição. Era o tipo de auxiliar que despertaria o interesse de qualquer chefe, fosse pelo rendimento do serviço ou mesmo pelo fulgor que sua figura emprestasse a qualquer ambiente, não importando o quão enfadonho fosse.
     Ubaldo já tivera anteriormente a oportunidade de conhecê-la na antiga agência; nada além de um contato trivial e num clima de formalidade, até pelo distanciamento hierárquico que os apartava. Concordava também que sua vinda seria uma grande aquisição.
     Doralice demorava a relacionar-se com os novos colegas. Em parte, pela ambientação natural de quem é recém-chegado no pedaço, mas principalmente por seu gênio, que lhe sugeria sempre uma postura cética em relação às aproximações , em especial, àquelas cercadas de mesuras, volteios excessivos.
     Ubaldo não tratava diretamente com ela, pois trabalhavam em salas distintas, e em rotinas funcionais diversas. Mas ele se dava muito bem com Inocêncio, chefe da moça; eram muito amigos mesmo e visitavam-se mutuamente com freqüência, o que o acabou por colocá-lo em contato corriqueiramente com aquela beldade. Como de costume, portava-se polidamente com ela, sem conversinhas fiadas, sem excessos, como agradava à maioria. Porém não perdia a oportunidade jamais de apresentar sua espirituosidade, seu fino humor — era uma poderosa arma essa sua —, e, assim, as portas iam-se abrindo, a guarda baixando e o contato ganhava um tom mais amistoso pelo caminho consensual.
     Não demoraria muito para que Doralice demonstrasse discretamente uma espécie de admiração por aquele sujeito que — metido a literato —, entre outras coisas, arriscava alguns ensaios sobre o comportamento humano, em especial, o da mulher, essa personagem que, mesmo após consideráveis conquistas, ainda restava presa a tabus e outras formas de amarras sociais; amarras, muitas vezes, fruto da ação (ou inação) da própria mulher. Não seria surpresa alguma nascer uma curiosidade por esse homem tão envolvido com o universo íntimo feminino e que tão poeticamente descrevia suas agruras, suas fraquezas e, não menos, seus desejos mais recônditos.
     As coisas caminhavam. Em sintonia com os ares da modernidade, era freqüente entre os funcionários a utilização do correio eletrônico para envio de documentos, troca de informações, remessa  de listas, formulários, modelos de relatórios e por aí vai. Assim sendo, não era de sigilo algum, nem o poderia, a lista de “e-mails” do pessoal e... o que ocorre é que, vez ou outra, circulavam mensagens de cunho não exatamente profissional pela rede. Conseqüentemente, não eram, de todo, incomuns piadas, charges, fotografias etc.
     Foi nesse clima de liberdade virtual que, em certa ocasião, Doralice, a essa altura, bem mais ambientada e já bem-relacionada com Ubaldo, lhe resolve enviar um texto poético, mergulhando — por que não? — nessa atmosfera envolvente, capaz de abstrair-nos do pragmatismo cotidiano. Era um poema de Mário Quintana — Pequena Crônica Policial — em que a pobre mulher, esfaqueada por um marinheiro e apresentando as fundas marcas da idade, da canseira, da bebida, é levada ao necrotério por uns homens de branco. Ao abrirem seu corpo, sem mistério, uma linda e alegre menina entra correndo no céu. Lá continuando como era antes que o mundo lhe desse a maldita sina, com a sua trança comprida, os seus sonhos de menina, os seus sapatos antigos...
     O texto era belíssimo e, além de agradar muito a Ubaldo, sedimentou também o alicerce de uma via - eletrônica - que doravante seria crescentemente percorrida pelos dois colegas.




E-infidelity




     O que se seguiu então foi uma amizade sem maiores perspectivas, no que se refere ao assunto homem-mulher. Ubaldo, nem de vagar, poderia supor qualquer expectativa de um porvir de deleites com aquela jovem, e já nem premeditara, pois, em si, os fatos eram muito objetivos e sólidos, e pouca margem se dava a sonhos. Mas, no íntimo... naquele "habitat" nebuloso, e também seguro... ali, onde as divagações se agigantam e possibilidades já não chocam... ali lhe nasciam as primeiras fantasias daquele estreitamento. É claro que a moça era séria, ninguém lhe duvidava os princípios morais, mesmo ele. Mas por que uma repentina e incomum atenção assim a sua pessoa? Essa era questão que se não lhe calava. Uma pequena pulga se lhe aninhava atrás da orelha, entretanto, como já de seu feitio, em determinadas ocasiões, melhor mesmo é acompanhar a partitura dos fatos; em dado momento, acha-se o tom.
     Já que recebera um texto interessante, e inusitado, Ubaldo sentiu-se no direito justo de retribuir a gentileza, e o fez. Inicialmente teceu comentários sobre a beleza do enviado, ressaltando que também eram necessárias sensibilidade e leveza de espírito, mesmo para apreciar tal conteúdo. Mais um poema que veio, outro que foi. Chegavam e partiam na mesma freqüência.
     Ubaldo não se sabia apresentar iracundo, mas as criaturas estão sujeitas a infortúnios, e os seus dias de trevas eram de uma expressividade retumbante, impossível negar-lhe um desconforto na existência, sua transparência expunha-lhe todos os desgostos que, porventura, se lhe ruminassem no ego. O semblante se retesava feito a carne ao deitar do chicote. As sobrancelhas se escarpavam gravíssimas entre os olhos e um corte seco lhe cerrava os lábios que murchavam premidos, conferindo-lhe uma sorumbática fachada de pouquíssimos amigos. Numa dessas ocasiões, chegou-lhe uma mensagem de teor um pouco diverso das demais, e até intrigante: “Por que está tão carrancudo hoje? Seria comigo? Eu... fiz ou disse algo de errado que o tenha magoado?”
     A observação fazia-se deveras incomum, todavia, ainda mais incomum era o grau de intimidade que se principiara naquelas singelas palavras. Até então, nada pessoal se havia apresentado, e já se desenrolavam semanas desde o início desse contato virtual. E a resposta foi imediata: “Minha prezada Doralice, criatura encantadora, acha mesmo que eu lhe poderia cultivar qualquer mágoa. Saiba que gosto muito de você, uma pessoa especial. Se algo de errado, algum dia, ocorrer, dir-lhe-ei sem rodeios.”
     “A pulga” já não mais se contentava em permanecer aninhada; era agora só remelexos! Ubaldo estava certo de que algo pairava no ar e não havia como retroceder no que principiara... A cada poema, um comentário, uma alusão, uma metáfora que sugerisse uma ponte entre o universo do autor e o daqueles dois seres. Tudo muito sutil, muito velado, nas entrelinhas. Aos olhos desavisados, nada; criptografia pura. Mas o olhar lânguido, deitado mansamente sobre aquelas letras, alcançava profundezas indizíveis. Era uma cumplicidade mágica que os habitava . Tudo estava ali, e nada estava... A sugestão em si parecia mais agradar do que o próprio fato...! A fantasia permeava suavemente... Para ela, era uma fuga da rota vidinha conjugal. Seus dias eram de uma burocracia doméstica estrita; as datas marcadas, frases feitas, os presentes protocolares... E quanto ao sexo? O sexo era só prosa... nenhuma redondilha, uma quadra, um verso que fosse! Prosa... e não a prosa de Alencar ou Machado; a prosa dos manuais, dos compêndios jurídicos, da Imprensa Oficial! Não lhe restavam eufemismos para as olheiras, a comida que negligenciasse o tempero, a TPM...! Tampouco as hipérboles magnificavam as surpresas, os elogios, os carinhos!... Quando muito, alguma ironia a seus reclames de atenção. Ubaldo, por sua vez, vivia um misto entre o deleite de uma promessa tenra e os desafios de uma vereda inóspita. Seu envolvimento nessa relação dissimulada caminhava num crescente e já seus instintos mais primitivos começavam a aflorar. Os olhares, contidos, já não continham o turbilhão que prorrompia daquelas almas. Ah, as fagulhas do braseiro que se avizinham... a cogitação, o desenrolar, os sinais que se sucedem, indicando o caminho a trilhar... a velha e contemporânea dança da corte.
     A natureza humana abriga infinitas complexidades e alguns conceitos são tão sólidos quanto a névoa das manhãs de outono... Até que ponto se poderia distinguir a infidelidade da amizade estreita, mas sem planos ou maiores conjecturas? Talvez quando essa amizade ganhasse chancela de licenciosa...! Quando as intimidades extrapolassem o conforto da consciência leve, do “sono dos justos”; aquele estágio em que a moral interna nos julga e o arbítrio revolucionário nos absolve. O campo nebuloso entre as fases que os juristas denominam dolo eventual e culpa consciente. Algo como descrença da desgraça iminente e descuido pensado; “sopa para o azar”.
     Muitas relações não passariam desse ponto, porque em si se bastariam para proporcionar essa pitada de tempero, essa necessidade pura de transgredir, de alguma forma, como que dizendo: “Está vendo como eu posso o que eu quiser, quando quiser?... E não faço!...” Mas não pareceria ser esse o caso entre os dois; não depois dos acontecimentos sucessores.
     E o inevitável enfim se anuncia. Ubaldo, parafraseando Vinícius, atacou: “São demais os perigos desta vida...” A resposta foi presta e soberana: “É verdade!”
     Como refrear o impulso que já não cabia na tela do computador, nos olhares, nos sorrisos...? Não se podia: “Meu anjo, você sabe que chegamos a um ponto crucial e preciso saber... mais que isso... preciso estar certo de que... bem... preciso ler ou ouvir algo de concreto sobre essa atmosfera que nos envolve, e se ela a envolve com a mesma intensidade que a mim!” Doralice, capital, atalhou a aflição do amigo: “Aguarde um pouco mais no seu setor hoje, após o expediente. Ligarei da rua para o seu ramal! Um beijo!... Doralice.”




Sem delongas




     — Alô!
     — Oi! Sou eu!
     — Doralice, minha querida, como é bom ouvi-la e falar-lhe sem necessidade de disfarces, despreocupado com os outros funcionários, não é?
     — É, sim, mas é estranho; não me sinto muito à vontade. É uma sensação de... não sei...
     — Culpa?
     — Acho que sim...
     E aquele primeiro contato, real, era muito estranho mesmo; Ubaldo estava feito um adolescente que marcasse encontro atrás da escola com a garotinha da sala. Nada era direto. Tudo eram volteios, insinuações. Ele sabia que, se chegasse “de sola”, poderia perdê-la de vez, pois esse comportamento nada combinava com os idos que o antecediam. Doralice gostava das nuanças, dos requintes de paciência e preparação. Para ela, pouco valia ir com sede ao pote e não encontrar nada de diferente dentro dele. Ademais, sua vida já era prática o bastante em sua casa para querer isso também de um relacionamento extraconjugal. Mas Ubaldo carecia de algum sinal mais claro de que as coisas eram como ele imaginava. Não lhe bastava apenas supor; tinha de concluir. Esse hiato entre eles necessitava de preenchimento; do contrário, a aproximação física seria inconcebível. Com perseverança e resignação, o bravo soldado lançou-se à missão de sua vida, pois Doralice valia cada gota de seu suor, cada minuto do seu sono perdido, cada suspiro poético que se lhe derramasse. E assim cedeu ao jogo:
     — Está bem, anjo, as coisas serão como estiver melhor para você. Há um tempo, eu sequer poderia imaginar uma conversa dessas entre nós. Por ora, sinto-me um felizardo!
     — Pois então; tenha paciência comigo porque é tudo muito difícil para mim. Dê tempo ao tempo...!  
     — Está certo, Dorinha, então... a gente se fala amanhã!
     — Claro, você me liga ou ligo eu!
     — Então até amanhã; um beijo, minha linda!
     — Um beijo! Tchau!
     E o romance, outrora virtual, ganhava agora contornos cada vez mais precisos e sedimentados, que lhe conferiam ares de coisa real. Já se falava em encontro, planos já se rabiscavam; só faltava então deixar os rabiscos e lançar-se aos riscos da coisa factual. Mas como? como seria? onde? a melhor ocasião?...
     Enquanto essas perguntas se calavam vazias, o imaginário preenchia de outras formas. Se faltavam respostas para aquelas questões, sobravam suposições para outras, e um erotismo doce e profundo se instalava de mansinho, fazendo daquela relação inofensiva um vulcão em potencial. Eram bate-papos cada vez mais quentes; cada vez mais molhados, e sufocantes, pulsantes...
     — Como eu queria estar perto de você agora, Dorinha!
     — Queria? Para quê? Que diferença faria?
     — A diferença é que não haveria espaço quase algum entre nossas bocas e meu ar seria seu também. Assim seria impossível não nos beijarmos. Seria do seu gosto, amor?
     — Sim!... Se eu o beijasse, que mais você faria comigo?...
     — Tudo que está na sua mente agora!...
     — Quero ouvir!
     — Bem... eu beijaria cada centímetro do seu pequenino corpinho de bebê; e me deitaria sobre você, envolvendo-a com carinho. Sussurraria ao seu ouvido que você é o meu bebê, meu bebê, e que a amo, em meio à fragrância suave dos seus cabelos; tudo à meia-luz, música de fundo, alguma bebida doce, e beijos, muitos beijos; molhados, mordidos, chupados; muitos beijos... Então certamente nos amaríamos, muito, e muitas vezes, até ficarmos extenuados e estendidos na cama, de atravessado, olhando-nos saciados e completos, por horas a fio... Ainda está aí?!
     Após um longo suspiro, Doralice se recompõe e tenta articular algo, porém seus sentidos estão vagos e o  raciocínio confuso.
     — Estou... amanhã nos falamos. Tenho de desligar agora. Tchau! Beijo!
     Doralice se revelava uma pessoa extremamente auditiva; dessas que encontram prazer incomensurável em apenas ouvir. As palavras lhe eram o combustível das “viagens” e, com Ubaldo ao telefone, conseguia mesmo — tão raro lhe era — encontrar o orgasmo, aquele que se lhe fugia em sua relação burocrática, já citada. Eram momentos de uma intimidade que se desabrochava explícita. Até conhecer Ubaldo, não lhe ocorreria jamais uma situação daquelas; era uma mulher decente e casada; bem-casada. Preferiria sofrer calada, ainda nos dias de hoje, a ter um pensamento sequer desses. Porém a vida é cheia de armadilhas e o destino conspira. Doralice não cabia mais aqueles desejos ardentes que a consumiam e estava profundamente apaixonada pelo amigo. Uma atitude carecia ser tomada. Assim:
     — Acho que podemos nos ver amanhã, depois do serviço.
     — Não terá problemas para chegar em casa?
     — Não! Ele sempre chega tarde às quartas. Diz que tem “happy hour” com os amigos. Que tenha! Tenho direito ao meu “happy hour” também, não tenho?!
     — Claro, meu amor! Escuta, Dorinha, você... aonde quer ir?
     — Acho que não há muitas dúvidas sobre o tipo de lugar em que uma mulher casada poderia ir nessas circunstâncias, não é?
     — É verdade! Então estamos combinados? Você sai com seu carro e me encontra no estacionamento do “Shopping” e, de lá, vamos no meu carro, certo?
     — Certo! Até amanhã, então!
     — Até...! Beijo, minha linda!
     Aquela foi uma noite longa, e o dia seguinte ainda maior. Mas enfim...
     Subindo a escadaria que levava ao quarto do motel, gravuras angelicais que ornavam impecavelmente as paredes. Ubaldo se perdia vendo-as correr à sua volta e seguindo aquele andar macio à sua frente. Era como a trilha do éden, mas era real, e o prazer, permitido. Ao fechar a porta, fizeram um pacto de que tudo o mais ficaria do lado de fora. Havia uma sensação suspensa — embora o pacto — de insegurança por parte dela, de zelo da parte dele. Não era mais uma transa que se aproximava — ele conhecia bem esse momento, em outras circunstâncias —, mas algo muito esperado e que deveria encetar desmembramentos, se bem-vivido. E a aproximação se deu, lenta e compassada. Não podiam faltar as palavras ao pé do ouvido -ela era auditiva; auditiva -, e os beijinhos, que se tornaram beijos, que se tornaram volúpia desabalada. As mãos de Ubaldo corriam-lhe o corpo todo e um frêmito de prazer lhe escapava dos lábios mordidos... Ubaldo ajoelha-se e leva as mãos ao botão calça da moça, que advertiu incisiva: — Não!
      Ubaldo, feito criança contrariada:
      — Não?!!!
      — Não... e ela mesma desabotoa, fazendo um biquinho de muxoxo... Não...!
      E ele, sem se fazer de rogado, parte para o zíper, mas ,dessa vez, a intervenção de Doralice foi enérgica e dissuasiva. — Não!!! E, após um olhar sisudo e um suspiro, não mais de prazer, mas de ira, seguiu-se que ela mesma, em dois únicos movimentos, levou o botão da cintura ao joelho!... Agora Ubaldo estava, de fato, às portas do paraíso.
     Como se anunciara ao telefone, eles se amaram muito, e muitas vezes, e em outras tantas ocasiões, que se tornaram um hábito; mais tarde, um vício, uma compulsão...




O verdadeiro amor é fiel




     O que se viu, a partir de então, foi um romance, que, se não ganhou rótulo de formal e público, foi por ser marginal. E que importava que o fosse? Valia o que um sentia pelo outro. E aquilo era verdadeiro, um amor sincero e de entrega. Um não dependia do outro; não poderia haver qualquer forma de interesse que ensejasse dúvida das intenções. Ubaldo era bem-sucedido, bem-empregado, estável. Doralice, além do bom emprego que detinha, estável também, e tudo mais, era bem-casada. O marido, empresário de médio porte do ramo de tecelagem, com os negócios de vento em popa.
     Ubaldo estava certo de que essa era a mulher de sua vida e, depois de muito cismar, não mais se controlou:
     — Doralice, minha santa, você sabe que eu a amo muito, não sabe?
     — Penso que sim!
     — E me é bastante claro que você me ama também, concorda?
     — Sim, mas... aonde você quer chegar com essa intermitência toda, Ubaldo?!
     — Você nunca pensou em... como eu diria...? em se separar e se casar comigo?... ficarmos só nós dois, em definitivo... oficialmente?
     —  Nem por sonho, avente uma possibilidade dessas! Você deve ter pirado!
     — Mas nós não nos amamos?
     — Minha família não aceitaria nunca algo assim. Além disso, nosso amor é verdadeiro porque é sem compromisso. A gente se entrega porque quer, porque é espontâneo! Se chutássemos tudo e partíssemos para uma aventura dessas — e isso, sim, seria uma aventura —, daí você veria quanto tempo duraria essa poesia toda que é o nosso romance!... Ele é bom porque é livre! Você entende isso, querido?
     — Não entendo, mas aceito... Entendo quando é com os outros, mas, quando é na minha pele, tudo fica mais confuso!
     — Não se esquente com isso, meu anjo! Você tem o meu amor, o meu verdadeiro amor, e esse é o mais fiel que pode existir! Não o sonegarei jamais, e não o entregarei a outro jamais; prometo; será eternamente seu!
     Uma declaração de amor incondicional tão sincera e convincente destrói qualquer cara feia e remedeia qualquer crise que se possa esboçar.
     Os dias viraram semanas, meses... e a vida dupla de Doralice já não a incomodava. Ela seguia sendo uma mulher séria. Até seu relacionamento extraconjugal era sério. Portanto a seriedade, deve-se dizer, pautava seu caráter. Ubaldo é que, vez ou outra, se questionava sobre a razão que o levava a manter aquela vida. Como não achasse resposta, seguia assim mesmo.
     Certa manhã, daquelas radiantes e perfumadas, em que tudo se encontra na mais perfeita ordem, o setor estava calmo, poucos documentos a despachar, o café com os colegas fora longo... Ubaldo estampava um largo e folgado sorriso enquanto lia o jornal e ouvia o “tricotar” das funcionárias. Quase inimaginável supor algo que pudesse atacar aquela distinta placidez. Quase!...
     — Seu Ubaldo, este senhor deseja falar-lhe!
     — Opa, pois não! Ubaldo. Muito prazer!
     — Prazer, senhor Ubaldo! Meu nome é Horácio; sou o marido da Doralice; o senhor conhece, não é? Podemos conversar?
     Só é possível imaginar o semblante de Ubaldo, nesse momento, vendo um boneco de cera. Instantaneamente os olhos queriam saltar-lhe das órbitas, a gravata esmigalhou-lhe a glote e um deserto avançou por sua garganta.
     — Claro... claro que sim... queira acompanhar-me. É melhor conversarmos noutro lugar.
     Ele tratou de procurar um lugar reservado aos ouvidos curiosos, mas acessível ao socorro, se necessário, e acabaram por alcançar a sala de visitas, vazia nessa ocasião.
     — Então, senhor Ubaldo...? Quanto o senhor quer?
     — É... como?!...
     — Quanto o senhor quer? Vamos direto ao assunto; eu sei que o senhor é um homem ocupado, seu Ubaldo!
     — Desculpe... eu...!
     — A Doralice não lhe disse que eu viria? O senhor não está vendendo uma “pickup” com cabine estendida?
     — Eu... estou... É... estou; estou sim!
     — Ah, pois então; é por isso que estou aqui. Gostaria de saber das condições. Já até a vi lá no estacionamento. É cinza, não é? Lindíssima! Essa minha mulher... deveria ter avisado que eu viria... Ela que me contou que o senhor botou à venda.
     — Ah...! É...!
     Isso só poderia ser um sinal divino, era hora de acabar com tudo; Ubaldo sabia disso. Deus estava-lhe testando, provando seu restinho de valor moral. Não se poderia decepcioná-lo. Ubaldo tratou de interpor todos os obstáculos imagináveis para impedir a venda. Era necessário afastar-se de vez de qualquer motivo que o aproximasse de Doralice. Entretanto...
     — Olha, seu Ubaldo, barato não está, mas eu me apaixonei por ela; é tudo que eu estava procurando. O senhor guardou-a estes anos, do jeitinho que eu queria, só para mim. Eu pago! É minha!
     Isso atalhava os argumentos e então a venda se deu. E como aquele sujeito falava...
     — Foi muito bom fazer negócio com o senhor. Percebe-se que é gente muito boa, sujeito muito distinto. Para que time torce?
     — Eu sou Timão; Corinthians!
     — Nossa, eu também! Logo vi! E o senhor joga bola?
     — Jogo... jogo; eu... tenho um time de futebol de salão...
     — Ah, mas que bárbaro! Eu também! Jogo com o pessoal da empresa; temos dois quadros. Vamos marcar um contra; semana que vem; topa?
     — Não sei... preciso ver com o time... se a quadra estará disponível...
     — Jogamos na do meu pessoal! Está combinado! Não aceito não! Quarta, às oito!
     — Está bem; avisarei meus amigos...!
     Ao ver Doralice, Ubaldo não se pôde conter.
     — Por quê? por que você o trouxe aqui?
     — Que bobagem! Você queria vender, ele queria comprar... Eu só fiz a ponte entre os dois desejos!
     — Ah, você é maluca!!!
E então a partida, a cervejada, o “happy hour”... Ubaldo não se conformava por não conseguir desvencilhar-se daquela situação. Era provação; provação divina! Não tinha por onde ser outra coisa. E não acabava ali. A essa altura...
     — Ubaldo, foi muito boa a partida, hein?
     — É verdade; é verdade!
     — Que é que você vai fazer no domingo?
     — Eu?... Bem... não sei...
     — Pois muito bem. É aniversário da minha patroa, a Doralice. Vinte e oito aninhos! É uma criança ainda... E o senhor está convidado! E não aceito não como resposta! A partir das duas. Pegue o endereço com ela no banco!
     — Está bem!
     Se era uma provação divina, seria uma longa provação, pois o tempo reservaria momentos de muita união para aqueles três novos amigos. A freqüência na residência do casal seria uma constante, e é certo que se tornariam muito íntimos. Só não se partilhou a cama de Horácio porque Doralice não achava correto; era uma falta de respeito para com o esposo. E o amor proibido continuou ao longo dos anos. Ubaldo falhou na provação divina!
     O que não se poderia esperar era que o destino fosse operar de golpe tão intenso na vida daquelas pessoas. Como diz o adágio, “para morrer, basta estar vivo”. E, com essa máxima, selou-se o fim de Horácio. Novo, com seus trinta e oito anos. Pobre Doralice — jovem, trinta e cinco, viúva... Ainda bem que lhe restava o amigo, que nunca a abandonara, e não o faria agora, na hora de maior aperto.
     — Minha querida, estou aqui! Estarei sempre!
     — Promete? Promete que não vai me abandonar?
     — Claro que sim, meu anjo! Nunca a abandonei; não seria agora...!
     Não é difícil entender que essas pessoas acabariam ficando juntas oficialmente, afinal se amavam! Amaram-se sempre; era justo. E veio o casamento; não de pronto; não pegaria bem; poderiam pensar coisas. Mas, com o passar do tempo, foi-se tornando natural a necessidade de ter alguém ao lado... Ela era jovem... Ele era amigo da família... As pessoas viram até como algo bom. Dessa forma, os amigos ataram finalmente os laços do sagrado matrimônio.
     A vida seguiu seu curso. Ubaldo aposentou-se e passou a cuidar da empresa de tecelagem com a parte de Horacio, destinada a Doralice por força de herança. Ela seguia firme no Banco do Brasil, agora também no cargo de gerente. A vida realmente presenteava Ubaldo, apesar de, no seu íntimo, carregar algo de culpa por aquela história da provação. Mas, se estava com sua amada, era porque o amor maior - o único, forte e verdadeiro - vencera por fim. E ele era grato à vida...
     — Nossa, querida, a vida da gente daria um livro, não é?
     — É mesmo, amor!
     — Sou muito grato a Deus, sabe? Tenho a mulher que amo e que me ama, temos uma bela casa, nossa situação é estável, temos a empresa... Que mais posso querer, não é?
     — Claro!
     — Aliás, acho que já está na hora de vender esse nosso carro, comprar outro mais novo. Talvez um mais clássico, modelo executivo, confortável. Aproveitar que os negócios vão bem. Que você acha?
     — Ótimo!... Inclusive... eu sei de um gerente lá do banco, o Terêncio, que está querendo vender um Corolla, preto, lindíssimo! Se... você quiser... eu falo para ele que está interessado e... que irá ver o carro... Você quer?...




Fim

























Éder de Araújo
Enviado por Éder de Araújo em 04/11/2006
Reeditado em 08/07/2008
Código do texto: T282326

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Sobre o autor
Éder de Araújo
Santo André - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Éder de Araújo