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Regresso

Não fossem as cobertas, tudo seria frio dentro do quarto. Lá fora o sol precipita-se sobre a cidade e gotas vêm bater na janela, que agora é a única fonte de luz a quebrar a escuridão do recinto. O céu cinzento de agosto, a pouca luz, não diminuem a beleza de um dia lindo, dia esse que foi precedido por uma madrugada lasciva na minha cama. São quase sete horas, mas o burburinho matinal urbano parece não se pronunciar no oitavo andar. O único som expressivo é o da respiração dela, longa e ritmada, típica de quem dorme. A cabeleira negra escorre pelo corpo nu e evidencia o contraste com a pele branca. Os dedos miúdos, apoiados sobre o travesseiro, parecem esculpidos por algum artista renascentista. E o rosto, qualquer um diria ser de um anjo. Penso comigo que ela está mais linda do que já fora e que o tempo parece lhe ter sido generoso.

Horas antes, numa madrugada de sexta-feira fui acordado pelo toque insistente do interfone e atendi com a minha habitual cordialidade:
- É bom que alguém tenha morrido pra me acordar a essa hora!
A reposta veio quase inaudível, mas pronunciada a primeira palavra reconheci a voz:
- Sou eu, posso subir?
- Vou abrir o portão.
Apertei o botão que liberava o portão do prédio, e fui para a sala abrir a porta. Enquanto caminhava descalço pelo chão frio, imaginava o que diabos ela teria feito todo esse tempo e porque me procurar àquela hora. Destranquei a porta do apartamento, sentei no sofá da sala e esperei ela entrar. Os cabelos soltos, o rosto sem maquiagem e os olhos de uma vivacidade assustadora me fitaram.
Faziam exatos 18 meses desde a ultima vez que eu a tinha visto. Uma quinta-feira, oito de fevereiro, naquela mesma sala, ela se despediu enquanto pedia desculpas e falava coisas sobre se encontrar e descobrir quem era de verdade. Beijou-me e partiu. Durantes os malditos seis primeiros meses que se seguiram, achei que enlouqueceria. Ninguém sabia dela ou do seu paradeiro. Partiu sem levar nada, deixou a mim, trabalho, faculdade, amigos e tudo mais que dizia seu. Acabei desistindo de procurá-la, sabia que não queria e nem seria encontrada, acreditei seriamente que nunca mais a veria e o que quer que estivesse procurando deveria ter achado. Foi difícil, mas eu recuperei minha sanidade, voltei a ter vida social, a até uma namorada eu tinha.
Nossos olhos não desviavam um do outro, como caça e caçador durante o embate. Ela caminhou devagar ate ficar de frente pra mim, ajoelhou-se no chão e pude perceber que seus olhos inundavam. Eu já sentia um desconfortável nó na garganta quando ela pousou as mãos sobre as minhas e disse:
- Durante todo esse tempo eu procurei algo que acreditava não ter, queria fazer parte de algo importante, achava que aqui seria coadjuvante da vida alheia. Antes quando me olhava no espelho, não via nada importante, achava tudo ali descartável, por isso resolvi partir. Quanto mais eu procurava, mais distante eu me sentia daquilo que supostamente queria. Hoje pela manhã acordei e tive a certeza que minha busca havia terminado. A única coisa que eu precisava era de você, o algo que eu tanto queria fazer parte era do nosso amor e que nós dois nunca fomos coadjuvantes de nada, mas protagonistas da nossa história.
Enquanto ela falava de maneira calma e compassada, as lágrimas rolavam uma após a outra dos seus olhos e suas mãos geladas pareciam querer se esconder nas minhas, agora impassíveis. Minha cabeça rodava e eu só conseguia sentir raiva. Pensava nas noites que eu perdi esperando ela voltar, nas datas que não comemoramos, no amor que não fizemos, na paixão que me vi forçado a sufocar e em todo sofrimento que causou ao homem que ela dizia amar.
- A única coisa que eu fiz hoje foi voltar pra casa, durante as ultimas 20 horas. No caminho de volta, pensei no que dizer a você e achei que o justo era dizer a verdade. Fui uma idiota em não reconhecer o bem que você me fazia. Fui egoísta em não perceber que seu amor, bem mais que devoção, era doação. Que tudo você fazia pra me ver feliz. Não espero que você me diga nada, sei que não estou em posição de esperar nada, só quero que me perdoe.
Entre lágrimas eu conseguir balbuciar:
- Eu quero que você saia daqui e volte para o túmulo que você estava. Faz um ano que enterrei você e não vou conversar com um fantasma.
Sem que houvesse tempo para qualquer reação, ela beijou-me a boca e eu desarmado correspondi. Acabei sendo arrebatado de toda a minha raiva e rancor, tudo por causa daquele beijo. O beijo que trouxe meu anjo de volta e ressuscitou tudo o que acreditava ter sido uma farsa.

Agora passo devagar os dedos pela pele macia do meu anjo, e ainda não tenho certeza se é verdade, não consigo mensurar a importância do regresso. Enquanto penso, ela abre devagar os olhos rasgados e um sorriso amanhece seu rosto. E como se estivesse espantando minhas dúvidas, diz: - Bom dia Meu Amor.
Hugo Eduardo
Enviado por Hugo Eduardo em 16/11/2006
Código do texto: T293142
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Sobre o autor
Hugo Eduardo
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
28 textos (1448 leituras)
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