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Carpe Diem

        Quando eu era pequeno, eu sempre morri de vontade de saber o que havia do outro lado do muro da minha casa. Um dia eu tentei pular. Me machuquei muito, tive que ir para o hospital por uma semana inteira. Mas eu estava disposto a encarar qualquer coisa para saber o que havia atrás daquele muro.

Estava lá, o quadro, branco de tantas letras de giz. Me sentei no primeiro degrau, e acendi um cigarro. Pensei se tratar de uma brincadeira de alguém do curso de latim, que eu havia terminado há dois anos. Comecei a rir quando cheguei na metade do texto, quando vi que o autor era supostamente um poeta, morto há uns mil anos.

Por algum motivo, ele havia voltado da sua cova para me falar sobre o outro lado, o que era a morte.

Era um texto depressivo e a letra era rabiscada, trêmula, como se houvesse sido escrita por uma pessoa desesperada, talvez sofrendo. Dizia em breves linhas que no outro lado não havia nada para se apreciar, e que o pobre maldito autor vivia uma segunda vida que era apenas de expiação e arrependimento. Terminava seu texto com a expressão “Carpe Diem”.

Sim, aproveitaria meus dias até que eles se acabassem. Meu cigarro acabou e eu acendi outro. Não tinha nada para fazer. Então me levantei e achei que seria divertido se eu respondesse ao fantasma. Peguei o apagador e limpei metade do quadro.

“Senhor fantasma, temo que teus conselhos e avisos sejam em vão. Já aproveito o dia, e não temo a morte.” Ri e continuei. “Que tal se lhe dissesse que aqui onde vivo as coisas não são tão melhores? A diferença é que aqui nós evitamos expiar, é mais ou menos que nem meu cigarro, eu puxo a fumaça e seguro aqui dentro.” Dei outra tragada. “Até o dia em que tudo apodrece e a gente morre. Daí ficamos que nem você, lamentando. Fume, vai te fazer bem.”

Coloquei o giz de volta na caixa, e saí da sala. Quando fechei a porta, meu cigarro acabou. Imaginei um cigarro gigante, seria ótimo. Enfiei a mão no bolso para pegar outro e não achei a carteira. Olhei pela janela na porta e vi que a carteira estava no chão onde eu havia me sentado. Entrei de volta na sala.

Fui até a primeira linha de carteiras, onde estavam jogados os cigarros. Peguei, olhei pela janela, o sol da manhã era agradável. Acendi outro cigarro e quando virei para sair da sala, tossi, não pela fumaça, mas pelo susto. Tudo havia sido reescrito, e meu texto havia sido apagado.

Não quis ler, tive medo. Mas no tempo em que eu fiquei pensando no medo, acabei lendo.

Eu estava tão espantado que nem prestei atenção no que havia lido. Saí da sala, fui para casa, e não acendi mais nenhum cigarro naquele dia.

E também não dormi. Rolei na cama e pensei em tantas coisas, que não cheguei a conclusão alguma. Quem sabe era um hedonista aquele tal poeta, queria que eu fosse como ele, carpe diem para tudo, viva com gosto. Então virava na cama e pensava em parar de fumar. Viver mais? Talvez seria bom, adiar a passagem. Virei de novo e pensei que isso era ridículo, e algo em mim dizia “quero ver, quero ver”. Estremeci apenas de ver esse pensamento cruzando minha mente. Morto, eu? Nem sei se lá eu posso fumar.

Mais umas viradas e eu dormi. Sonhei com um muro, e um céu roxo. Eu tentava subir, desesperadamente. Mas era incrivelmente vertical e liso, não conseguia chegar até o topo, e eu queimava por dentro querendo saber o que havia do outro lado. Então eu me sentei e chorei. Acordei suando frio.

No dia seguinte, de volta naquela mesma sala de aula, não havia nada escrito no quadro. Alguém podia ter apagado, pensei, então escrevi uma saudação breve em latim, saí da sala, acendi um cigarro, fumei ele inteiro, depois voltei para dentro. Fui saudado pelas minhas próprias palavras. Nada havia mudado. Quem sabe eu estava ficando esquizofrênico e não havia notado. Passei o resto do dia sem pensar em nada. O que será que o tal poeta queria dizer não dizendo nada? Talvez seu silêncio fosse mais forte e significativo do que mil palavras.

Continuei pensando nisso até a hora de dormir. Novamente demorei a dormir, fiquei lutando com as idéias que não paravam de saltitar na minha cabeça, iam para lá e para cá num ritmo frenético. Pensava na morte, e estava quase morrendo de pensar. Quando dormi, tive outra vez aquele sonho estranho, com o muro e o céu roxo.

Desta vez, eu tentei freneticamente subir até que me cansei de escorregar na parede vertical. Então sentei e comecei a chorar, assim como na outra vez. Mas dessa vez eu relaxei, e de repente comecei a sentir o chão subir, ia chegando cada vez mais perto do topo do muro, meu coração batia forte, forte até demais, só de pensar que eu veria o que estava do outro lado, me sentia sendo virado ao avesso, tamanha era a intensidade do que eu sentia.

Mas então minhas mãos iam se enrugando, ficando moles, velhas e cansadas, e eu esquecia do outro lado. Parecia que eu estava lá, não tinha nem medo nem curiosidade, apenas esperava para ver o que aconteceria. Quando eu estava prestes a chegar ao topo, o desinteresse pelo outro lado era tanto, que eu consegui deitar e ficar quieto. Um sol negro, parecia sugar luz ao invés de emiti-la, esquentava meu rosto, com um calor gentil.

        Acordei em um pulo. Meu rosto estava todo molhado, mas não era de suor como na noite anterior. Era sangue.

O sol se levantou, e eu de novo fui até a sala de aula. Olhei para o quadro negro, o poeta havia aparecido de novo. Dessa vez, em letras grandes, ele tentava me dissuadir de meus pensamentos e curiosidades, sendo que eu nem conseguia pensar direito, em uma situação tão bizarra quanto aquela. Acendi um cigarro.

Na hora eu não soube o que ele quis dizer, mas depois de almoçar e passar a tarde sozinho, eu tive certeza. O dia passou normalmente, eu pensando e fumando.

E naquela noite, eu tive mais uma vez o mesmo sonho. O muro, o céu roxo, dessa vez o sol negro me iluminava de cima, diretamente de cima de minha cabeça. O sol estava muito quente, eu suava sangue, o sangue escorria por todos os meus poros e formava uma poça que era a minha sombra, se eu me mexesse o sangue mexia junto.

E o chão começou a subir. Mas desta vez eu tinha medo de chegar perto do sol negro, ele estava mais agressivo do que nunca. O sangue escorria por toda a minha pele, e formava outra pessoa na minha sombra, a minha imagem. Eu comecei a socar o muro, para que ele arrebentasse, assim eu poderia ver o outro lado sem que minhas mãos ficassem velhas e fracas. Mas era tarde demais, eu já não tinha coragem nem interesse, o outro lado me parecia tão inevitável e perto que eu me deitei sobre meu sangue e dormi, o sol me derretendo.

Eu ficava cada vez mais obcecado com o poeta fantasma, deixava tudo de lado, não queria mais saber de nada, apenas das palavras naquele quadro, e no que meus sonhos diziam. De certo modo eu tinha certeza do que estava acontecendo, do que a noite me dizia. E eu sabia o que teria que fazer.

Naquele dia, quando eu fui até a sala e olhei para o quadro, senti vontade de chorar, como uma criança que, ao obedecer às suas vontades, é rechaçada pelo adulto que já superou seus ímpetos infantis. O poeta, com poucas palavras, colocou em meus ombros todo o peso de minha vida até aquele momento. Tentou em vão satisfazer minha curiosidade dizendo o que era a segunda vida, o que ele via além da morte.

O dia passou e eu nem vi, apenas esperava meu sonho. Me deitei, e como sempre, me debati, desta vez com uma agonia jamais vista, e algumas horas e alguns cigarros depois, consegui dormir.

Lá estava eu, em pé diante do muro, sol negro a pino, céu roxo me esperando. Novamente eu comecei a sangrar por todos os poros. O sol queimava, não por causa de sua escuridão, mas porque fazia minhas veias ferverem.

Quando o chão começou a subir, eu reagi, reagi agonizante. Soquei o muro, tentei de tudo, dei cabeçadas, chutes, bati com meu corpo inteiro, mas nada acontecia. Minha sombra já começava a criar uma outra pessoa, moldada em sangue seco. Mas dessa vez ela não me obedecia, se tornava algo independente. E sorriu para mim, enquanto entrava no muro. Quando metade de seu corpo estava atravessando a parede, seu braço voltou, e me estendeu a mão, convidando. Segurei a mão, e notei que as minhas começavam a se enrugar, já estavam ficando velhas, e eu sabia que perderia o interesse pelo outro lado. “Venha, não toque o sol…”, disse a minha sombra de sangue. E eu quis ir com ela, ver o que havia do outro lado. Mas sua mão foi descendo, o chão subia e ela foi se afastando. Eu via que o sol não dava trégua, e como eu já tinha sangrado tudo que tinha para sangrar, meu corpo apenas doía uma dor agonizante. Eu não queria perder o interesse pelo outro lado, era o maior medo que eu tinha, e eu não queria que minhas mãos envelhecessem e perdessem o poder em potencial que elas tinham. Sabia que com elas ainda jovens eu poderia cavar um túnel através do muro.

Eu quis acordar, para não ficar velho e experimentar a apatia de novo. Então em um gesto desesperado, eu enfiei meus dedos nos meus olhos, e arranquei-os. Ainda continuava subindo, mas o muro estremeceu. Então eu enfiei minhas mãos dentro das órbitas vazias dos meus olhos, e arranquei meu rosto, mas continuava envelhecendo. Arranquei minha pele, meus ossos, mas continuava de pé, subindo, envelhecendo. Me joguei contra o muro, abrindo mão de meu corpo e vida. O muro arrebentou, mas eu não vi nada, acordei. Tudo era uma questão de sentido. “De dentro para fora”, pensei quando me sentei na cama, suado e com o nariz escorrendo sangue.

Naquele dia, eu fui para aquela mesma sala de aula, e acho que já esperava ver o que eu vi. No quadro negro, não havia nem um grão de poeira do giz. O silêncio do poeta falou mais que mil palavras. Fechei os olhos, pensei. Acendi um cigarro.

Dessa vez, o dia passou devagar, tão devagar que eu tive a impressão que no fim do dia minhas mãos estariam tão envelhecidas quanto elas ficavam ao me aproximar do sol negro.

Chegou a noite, e minhas mãos permaneciam jovens, e eu agradecia ao tempo, pela sua misericórdia. Dessa vez eu nem fui para a cama. Fechei os olhos em pé no meu quarto. E vi , se separando de mim, minha sombra de sangue. Ela olhou nos meus olhos, com uma expressão de satisfação, e me estendeu as mãos. “Venha, venha ver o outro lado do muro.”. Balancei a cabeça, afirmativamente, e sorri. Com esse sorriso no rosto, sabendo que eu estava prestes a pular o muro, abri a gaveta, peguei meu revólver, e encostei o cano na minha têmpora. Engatilhei.

Quando eu era pequeno, eu sempre morri de vontade de saber o que havia do outro lado do muro da minha casa. Um dia eu tentei pular. Me machuquei muito, tive que ir para o hospital por uma semana inteira. Mas eu estava disposto a encarar qualquer coisa para saber o que havia atrás daquele muro.
Luiz Gabriel da Silva Conforto
Enviado por Luiz Gabriel da Silva Conforto em 30/06/2005
Reeditado em 05/10/2005
Código do texto: T29376
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Sobre o autor
Luiz Gabriel da Silva Conforto
Curitiba - Paraná - Brasil, 28 anos
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