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(Da Série: Estranhas Histórias de Amor)

Há aqueles que torcem o nariz quando ouvem falar em amor à primeira vista. Duvidam que isso seja possível. Da mesma forma quando ouvem falar em amor platônico, aquele mantido em silêncio em certos corações. Fico então imaginado se não os levarei à loucura com esta história que, apesar de não tratar exatamente nem de uma coisa, nem de outra, possui ambos ingredientes, senão de forma plena, mas de modo ligeiro. Mas talvez o que eu vou lhes contar seja muito mais impressionante que vocês possam imaginar. E afinal por que eu devo me preocupar com os incrédulos das tantas variantes possíveis que ocorrem nos assuntos do coração. Estes dificilmente gastarão o seu tempo nas leituras dessas histórias.

Isto ocorreu em 1987, mas vou ter que iniciar do ano anterior.

Eu atuava no setor de informática de uma grande empresa e estava, desde junho de 1986, supervisionando uma equipe que trabalhava em horário noturno, numa escala de trabalho conhecida como 12 por 36, ou seja, trabalhávamos das 19 horas às 7 horas da manhã do outro dia e só retornávamos ao trabalho na noite do dia seguinte. For isso, eu prestava serviços de caráter particular para outras pequenas empresas, o que era comum entre os demais colegas e do conhecimento da direção da empresa.

Quando encerrávamos o serviço pela manhã, aqueles que exerciam o mesmo cargo que eu preenchíamos um boletim e ocorrência onde relatávamos qualquer anormalidade ou sugestão para um melhor desempenho das atividades. Por isso mesmo era comum ficarmos um pouco além do encerramento do nosso horário, fora o que muitas vezes nos perdíamos em bate-papos, de caráter profissional ou não, com os colegas do dia. Era um bom ambiente de trabalho, e salvo algum compromisso relevante, nunca tínhamos realmente pressa em ir embora. Eu mesmo, muitas vezes só me retirava da empresa depois de 8 horas da manhã. Era comum então eu ir para casa tirar um cochilo, para na parte da tarde poder dedicar-me aos trabalhos particulares. Se bem que às vezes acontecia de eu ter compromissos agendados já para a manhã. Sempre que possível eu os evitava, mas às vezes isso não era possível.

Antes de eu prosseguir acho bom explicar mais uma peculiaridade desta empresa. Por ser uma empresa de grande porte, ela possuía uma estrutura bem grande, com filiais em outros Estados e ocupava na matriz, onde eu trabalhava, um prédio de 12 andares, sendo o 5º andar exclusivo do setor de informática.

Bem, tudo caminhava dentro da normalidade, se bem que o que vou narrar nada tenha de anormal, até aquele dia de novembro daquele ano. Entre os colegas do meu setor, havia diversas mulheres, muitas lindíssimas, e era comum organizarmos grupos para sair nos finais de semana, quando não estávamos escalados para trabalhar. Era comum certos affairs nestas noitadas, mas salvo raras exceções, nenhum deles implicava em nenhum compromisso mais sério. Eu sempre passara incólume a isso, não por não me sentir tentados por uma ou outra colega, algumas verdadeiros monumentos de beleza, e digo isso pedindo perdão por este discurso um tanto machista. O meu distanciamento nesses assuntos não se devia a nenhuma forma de timidez, mas é que eu sempre levei um pouco mais a sério que a maioria dos colegas estas questões de relacionamento.

Naquele dia se incorporou ao nosso setor mais uma colega, que apesar de já trabalhar há mais de dois anos na empresa, havia sido transferida a quinze dias de São Paulo. Ela era natural de Friburgo, cidade serrana do Rio de Janeiro, de ascendência suíça (seus pais tinham vindo daquele país e se instalado naquela cidade) e tinha ido morar em São Paulo alguns anos antes, por conta de questões familiares. Lá em São Paulo ela havia concluído seus estudos, começara a trabalhar na empresa e agora havia conseguido transferência para o Rio.

Era uma loura belíssima, com os cabelos um pouco abaixo dos ombros, totalmente lisos (que um dia aparecerem lindamente encaracolados por uma sessão mágica de um cabeleireiro competente), dona de uns olhos verdes encantadores, pele clara, que ficava vermelha (melhor seria dizer rosada) quando ficava encabulada.

Era uma pessoa simpática e agradável, e não demorou muito para ser bem aceita e fazer parte do grupo que tinha mais afinidade entre si, do qual eu tinha o prazer de pertencer.

Apesar dessa afinidade espontânea, ela nunca participava das nossas noitadas. Ela era noiva e o seu noivo, apesar de trabalhar também na empresa, igualmente transferido para a matriz, pertencia a outro setor. Não era raro ele ir lá ao nosso setor, mas isso também não era freqüente, e apesar de parecer um sujeito simpático, nunca ouve maiores aproximações entre ele e o nosso grupo.

Mas até esse momento ela não passava de apenas mais uma colega de trabalho, logo incorporada, segundo a opinião do setor masculino da equipe, como parte do grupo das mulheres estonteantes do setor. É claro que o setor feminino jamais soube claramente que estava divido em três grupos, se bem que isso não deve espantar ninguém. Assim como as mulheres, os homens também têm lá seus segredinhos.

Já havia quase dois meses que ela trabalhava conosco, e nos aproximávamos do final daquele ano. Até então nós tivéramos alguns momentos em que conversávamos, mas nada diferente do tratamento que eu dispensava aos demais colegas, homens e mulheres, assim como ela também era tão simpática comigo como era com os demais.

Mas eis que num determinado dia eu me encontrava sozinho na ante-sala da chamada sala da supervisão, caminho obrigatório de todos que chegavam ao trabalho, ocupado preencher o meu boletim de ocorrência, que naquele dia me exigira um pouco mais de tempo e de concentração (e por isso mesmo eu escolhera ficar solitário) quando ela chegou. Ela entrou com seu costumeiro sorriso e um sonoro (e quase cantado) bom dia. Eu, que estava distraído e não percebera sua aproximação, levantei a cabeça para cumprimentá-la e quase tive um colapso. Naquele dia ela usava um vestido azul claro (jamais esquecerei aquele dia e aquela roupa) um pouquinho acima dos joelhos e estava... O que dizer? Linda? Não, é pouco. Deslumbrante. Se bem que mesmo isso ainda seja pouco para descrevê-la. Mas vá lá, faltam-me palavras, e sempre faltarão para descrevê-la naquele momento. Mas o que mais me afetou não foi somente a sua beleza, tanto na sua vestimenta, como naquele rosto que naquele dia resplandecia de uma forma especial. O que mais me afetou foi o fato de que, assim que eu a vi, senti a sensação mais estranha e invulgar que já me aconteceu na vida. Ao vê-la na minha frente senti como se tivesse levado um tapa violento na testa, bem entre os olhos. Não, ela não me agrediu, ninguém, pelo menos nenhum ser humano o fez naquele momento. Vi-me, assim tão repentinamente completamente inebriado, inexoravelmente envolvido, totalmente encantado, perdidamente apaixonado. Como era possível esta sensação por alguém a quem eu já me acostumara a ver com freqüência? Era como se eu estivesse diante de uma criatura que eu jamais vira antes.

A partir daquele dia ela povoava os meus pensamentos. Pensava nela com freqüência. Sonhava com ela, tanto dormindo como acordado. Mas o que eu poderia fazer? Claro que e poderia ter me declarado. Mas eu não fiz nada. Apenas fiquei alimentando aquele sentimento dentro de mim, sem nenhuma força para dizer isso a ninguém, nem a ela própria. Entrei então numa fase de um louco amor platônico. Louco e atormentado, pois ao mesmo tempo em que tinha o desejo de expressar tudo aquilo, ao mesmo tempo eu decidia não fazê-lo. E um dos fatores que contribuiu decisivamente para aquilo tudo foi o fato de que, apenas uma semana antes ela havia nos comunicado que marcara o seu casamento para o dia 30 de dezembro daquele ano.

No fundo eu me perguntava que direito eu tinha de atravessar a vida dela naquele instante. Quem sabe o que poderia acontecer. Talvez não acontecesse nada. Talvez ela ouvisse a minha declaração de amor e a ignorasse. Talvez ela cortasse qualquer relação de amizade comigo (o que, naquele momento não faria mais nenhuma diferença). Talvez ela até fosse compreensiva, e me mostrasse que entendia que eu sentia, mas não me desse nenhuma chance ou esperança, e talvez, quem pode dizer, aquilo mexesse com ela de alguma forma. E para ser sincero era essa possibilidade, ainda que remota, que mais me amedrontava. Que direito tinha eu, me repetia sempre, de interferir assim na sua vida?

Eu sempre tive uma inclinação para poesia (notem que eu disse inclinação, não talento) e desse dia em diante ela foi a musa de tantas das minhas poesias. Eu esperava ansioso pelas manhãs em que a encontraria, e odiava aquelas em que isso não acontecia, gostaria mesmo de ser escalado para trabalhar todas as noites, somente para poder encontrá-la no dia seguinte. Os finais de semana tornaram-se tediosos. Não bastasse isso, o que de fato acontecera é que nós havíamos nos tornados muito próximos. Passávamos muito tempo juntos, conversando, e assim como eu, ela também se distanciava dos demais colegas para conversarmos. Mas em nenhum momento aconteceu algo que pudesse sequer insinuar nenhum tipo de interesse do tipo amoroso por parte dela. O meu horário de saída foi sendo cada vez mais sendo protelado, e não raras vezes eu somente ia embora após as 9:30 da manhã.

Mas isso era tudo. E nada mais do que isso.

Chegou então o dia do casamento dela, e por mais irônico ou estranho que possa parecer eu fui um dos que compareceram ao evento, tanto na cerimônia religiosa, quanto na recepção. No fundo eu esperava que a partir daquele dia eu encerrasse aquela fixação por ela. Que tolice, agora eu vejo, imaginar que podemos dar prazos ou pretextos para as coisas do coração.

Ela foi uma das noivas mais lindas que eu já vira. Soubera escolher bem o seu vestindo de casamento e estava esplendidamente maquiada. Ah, para que prolongar esse sofrimento de lembrar todo o seu encanto justamente naquele dia?

Depois do dia do seu casamento, e da licença a que tinha direito, ela iria entrar de férias, de forma que só retornaria ao trabalho em fins de janeiro, enquanto e iria tirar férias justamente no final daquele mês. Ficaríamos então quase dois meses sem nos vermos. No fundo eu até me sentia aliviado com isso. Passei o reveillon mais louco da minha vida, tentando sufocar aquele sentimento de perda de modo extravagante. A turma do trabalho se encarregara da programação para o ultimo dia do ano e eu, ao contrário do que sempre ocorrera, terminei aquela noitada nos braços de uma colega que há algum tempo vinha tentando me seduzir. Não obstante todo o prazer físico daquela noite, senti completamente arrependido por ter sido tão mesquinho de tentar esquecer meu grande amor daquela forma tão fútil.

Nas minhas férias eu aproveitei para um tour pelo Nordeste, na companhia de um amigo que também saíra de férias naquele período. Foi à fase mais galinha da minha vida. Eu queria uma companhia feminina quase que diariamente, sob qualquer pretexto. O arrependimento da noite de reveillon não fora suficiente para que eu continuasse com aquelas tolices, e após cada deslize novamente eu me arrependia muito.

Chegou o dia então de retornar ao trabalho. No fundo eu me achava preparado para enfrentá-lo, mesmo sabendo que no dia seguinte eu iria enfrentar uma dura prova. Mas, apesar de me sentir curado, assim que a hora da saída se aproximava, eu era tomado por uma angústia crescente. Meus lábios ficavam ressequidos, meu estômago embrulhado, e eu tinha vontade de sumir do planeta instantaneamente. Como isso não ocorreu eu estava ali quando ela entrou. Ah, como eu gostaria de encontrá-la terrivelmente feia, sem graça, mal vestida, qualquer coisa que justificasse deixar de me sentir atraído por ela. Mas que nada. Ela só não estava mais linda por que isso seria impossível. Que vontade eu senti de me atirar sobre ela, de beijá-la, de amá-la ali mesmo. Mas me contive e a recebi com um grande sorriso. Ela é que foi um pouco mais impetuosa do que eu, e veio me cumprimentar com um longo, terno e apertado abraço.

E a vida tomou seu rumo do mesmo modo que antes. A única diferença era que naquele momento eu passei a me policiar e procurava ir-me embora o quanto antes. Estabeleci o horário das 8:30 como meu limite. E apesar de continuá-la tratando com o mesmo carinho de antes, evitava o máximo estar sozinho com ela. Mas procurava fazer isso de modo natural, e desse modo não conseguia fugir dela em determinados momentos em que ficávamos sós. Mas nunca eu tivera tantos compromissos marcados para o horário da manhã - esta era sempre a minha desculpa para partir.

Mas, apesar disso tudo a vida seguia seu curso. As noitadas com a turma continuavam, a minha rigidez no que diz respeito às intimidades voltou a ser como antes, e sempre depois dos domingos tínhamos as segundas-feiras. E tudo podia ter se encerrado deste modo, não fossem os atos imprevistos que todos nós estamos aptos a cometer, e que no fundo nunca conseguiremos explicar.

Uma determinada noite eu fizera ma poesia que havia me agradado muito. Acho que nem precisaria dizer que falava daquele amor que eu sentia, mas já falei. Resolvi então, não sei por que, dar a ela aquela poesia. Confesso que passei a noite toda lutando comigo mesmo por causa dessa decisão, como aquelas tão repetidas histórias do anjinho e do diabinho sobre os ombros, ora eu ouvia os conselhos de um, ora do outro. Mas não sei ao certo quem defendia o que. O resultado deste embate se deu no dia seguinte. Mas devo confessar que não tive coragem suficiente de presenciá-lo. Decidi dar-lhe não somente aquela poesia, mas também três outras de mais tempo, poesias que, aliás, não deixavam nenhuma dúvida sobre o que elas, poesias, queria dizer. Quem as lesse não teria dúvidas de que se tratavam de uma declaração de amor, ainda mais sendo entregue assim tão diretamente. Mas como eu disse faltou-me coragem para fazer isso diretamente. Deixei a poesia na gaveta da mesa dela, e sob o pretexto de uma emergência fui-me embora, sem esperar a chegada de nenhum colega. Passei os dois dias mais angustiantes da minha vida. Ao mesmo tempo em que me sentia arrependido do meu ato, eu me sentia também feliz com ele. Aquela altura do campeonato nada mais me importava. O empate jamais seria um bom resultado, tive que partir para o ataque. O preço eu pagaria resignadamente. Naquele momento só me importava me livrar daquela paixão platônica, mesmo que para isso eu tivesse que perdê-la de vez.

Fui trabalhar no dia seguinte corroído de ansiedade pelo dia seguinte, e qual não foi minha surpresa ao abrir a minha gaveta e encontrar nela as poesias. Num primeiro momento me senti frustrado e definitivamente arrependido daquilo tudo. E até irritado. Ah, que ela as jogasse fora, as rasgasse, mas devolvê-las? Para que eu as iria querer. Mas quando abri as folhas notei que havia algo escrito nelas. E não pude acreditar no que li. Numa delas ela havia escrito "Adorei!", na outra "Linda", em outra "Fiquei vermelha" e na mais direta delas "Será que eu mereço isso?".

Ah Deus! Será que eu mereço isso, eu me perguntava tal qual ela numa das observações. Ela não só as havia lido, como também perecia que tinha gostado da minha atitude. Jamais poderei explicar a felicidade que se apossou de mim naquele momento. Eu passei a noite caminhando nas nuvens, e naquela noite não houvera problemas que eu não enfrentasse sereno e placidamente.

No dia seguinte eu ansiava cada minuto que aproximava a chegada dela. E não sei se por aquilo tudo aquele foi o dia em que a achei mais bela. Notei um certo acanhamento dela, assim que chegou. Ela me olhou rapidamente, com um sorriso meio querendo se conter. Mas naquele dia eu não tinha nenhuma pressa em ir embora. A minha decisão de não ultrapassar as 8:30 tinha sido definitivamente alterada. Não faltou oportunidade para estarmos sozinhos (no fundo os outros colegas já haviam percebido essa nossa empatia, e apesar de nunca desconfiarem do meu sentimento real em relação a ela, eles perceberam que tínhamos uma afinidade especial) e nesse momento eu falei com ela sobre o quanto ficara feliz com as observações dela nas poesias...

A partir daquele dia essa cumplicidade foi se afirmando. Mas devo confessar que nenhuma outra intimidade física aconteceu. Também nunca houve nenhuma proposta de encontros ou coisas assim. Não que isso me contentasse, mas nunca houvera nenhuma oportunidade.

Passados alguns meses o marido dela foi transferido para um outro escritório da empresa, ainda que no Rio de Janeiro, num outro bairro. E ela também. Não para o mesmo endereço dele, mas mesmo assim aqueles encontros matinais chegaram ao fim.

É claro que eu não tinha nenhuma outra forma de contato com ela. Não podia telefonar para a casa dela, nem ir até lá, obviamente. Fiquei quinze dias nesse impasse até que determinado dia resolvi ser ousado mais uma vez. Como eu estivesse atendendo um cliente num endereço próximo resolvi visitá-la no novo escritório. Se a surpresa dela foi grande, a minha não foi menor com a recepção que tive dela. Foi um abraço tão afetuoso, tão carinhoso, tão...

Nesse escritório ela tinha uma sala onde ficava sozinha a maior parte do tempo, e a partir daquela data as minhas visitas se tornaram constantes. Passávamos horas juntos. Por mais inocente que eu possa parecer, direi sem nenhuma vergonha que aqueles foram dias muito felizes para mim, e sempre me lembro de pequenas coisas que, por pequenas, eu já deveria ter esquecido, mas que ficaram gravados na minha memória. Mas até ali nada físico, nenhum beijo sequer, fora os beijinhos no rosto. Os gestos mais ousados ficavam por conta de uns afagos de mão, carinhos nos rostos, coisas superficiais, porém de uma importância sem par para mim. A maior oportunidade que tive foi um dia em que ela ficou sem carro, e eu lhe ofereci uma carona. Neste dia ela ia à casa de uns tios dela, na Tijuca. Quando chegamos lá, estivemos pela primeira vez frente a frente fora do ambiente de trabalho, e o nosso primeiro beijo esteve próximo de acontecer, impedido por uma prima dela que a reconheceu no carro e resolveu dar um oi. Tive o desejo de cometer um "primacídio", mas me contive. Ela me apresentou à irmã como um colega de trabalho (e eu tive que dizer o velho "muito prazer" mais falso de toda a minha existência).

Antes que alguém resolva dizer ou pensar alguma coisa sobre o caráter dessa minha amada, deixem que eu diga algumas coisas em sua defesa. Não falarei como um apaixonado daqueles dias, mas como alguém que tem vivido a vida de olhos abertos e que hoje, tendo visto e vivido tantas coisas na vida, é capaz de compreender, ou pelo menos tenta sempre compreender as armadilhas da vida.

Ela não era uma pessoa leviana. Se fosse as coisas teriam acontecido mais rápido, ou nem teriam acontecido, pelo menos no que dependesse de mim. Como já deixei claro eu nunca fui do tipo atraído por uma conquista qualquer, daqueles que vivem a vida colecionando números e mulheres. Eu sempre procurei, antes dela, e mesmo depois, acumular sentimentos. Sim, passei por uma fase destrambelhada, como disse acima, mas aquilo foi um momento de total desespero. O que aconteceu entre nós foi simplesmente um daqueles encontros que a vida nos reserva: inesperados, impossíveis, imprevisíveis e quase sempre maiores do que nossas forças de tentar impedi-los. É como um acidente de percurso. Assim como ninguém, em sã consciência, sai de casa disposto a enfiar o carro ribanceira abaixo, ou na traseira de um caminhão, ninguém também sai de casa disposto a se apaixonar, ou deixar de se apaixonar, mesmo que seu estado civil o permita ou o proíba.

É claro que eu sempre me perguntei (e me arrependi tantas vezes) se não teria sido melhor se eu tivesse tido coragem suficiente de ter provocado aquilo antes dela ter se casado. Ah, sei lá! Agora, distanciado de tudo, é muito fácil resolver estas questões. O problema mais difícil de se resolver, meu amigo, minha amiga, é aquele que está diante de nós. Lembre-se sempre disso na hora de emitir pareceres ou julgamentos sobre os outros ou sobre si mesmo. Depois de passado o tempo do problema, quantas soluções nós encontramos.

E dito isso, continuemos a história, que não tarda por encontrar seu desfecho.
Os dias se passavam e os nossos encontros se tornaram quase que diários, embora ainda inocentes. Isso durou até o dia em que ela teve que se ausentar da cidade, em função de problemas graves de saúde da mãe dela, que ainda residia em São Paulo. A previsão é que ela iria ficar por lá uns 20 dias, no mínimo. Que tormentos seriam aqueles dias.

Já havia se passado seis dias que ela se ausentara quando fui chamado pela alta direção da empresa para uma reunião. Nesta reunião fui informado que fora um dos escolhidos (um dos poucos, diga-se de passagem) para a implantação de um novo projeto da empresa. Que honra, seria isso, anda mais com uma gratificação que quase triplicava o meu salário. Mas tive vontade de atirar todos aqueles benefícios na cara do presidente da empresa, pois aceitar significava ter que me transferir para o interior do Mato Grosso, com a previsão de ficar lá por no mínimo três meses ininterruptos. E, para piorar as coisas, não ia ficar num centro urbano, mas num acampamento da empresa, onde tinham alojamentos até luxuosos, conforme pude apreciar pelas fotos que me mostravam, mas que o único meio de contato com o resto do mundo era através de um aparelho de telex.

Para os mais novos, já acostumados com um mundo dominado pela Internet, pela telefonia celular, e tantas formas modernas de comunicação, devo lembrar que lá pelos idos dos anos 80, em alguns locais do Brasil, os únicos meios de comunicação se restringiam ao telégrafo, ou para as empresas mais modernas, o telex. E a empresa que eu trabalhava era avançadíssima.

Aceitar a proposta significava longos meses longe dela. Recusar significava assinar meu atestado de óbito na empresa. Se naquele dia eu soubesse o que isso significaria, trataria eu mesmo da missa de corpo presente do indivíduo.

E o pior é que eu não tinha nenhum modo de falar com ela antes de tudo concretizado. Eu simplesmente sabia que ela estava em São Paulo, mas não tinha a mínima idéia de onde. E a minha ida para o inferno deveria ocorrer em quinze dias a partir daquele dia. Com muita sorte ela retornaria antes. Mas não retornou.

E lá estava eu no meio de um acampamento no meio do pantanal, sem notícias dela, sem poder me comunicar, completamente isolado do mundo, apesar de cercado de mais de 12 pessoas.

Para os mais curiosos explicarei o que era aquele trabalho no meio do nada. Entre outras atividades da empresa, uma delas era o rastreamento de satélites que forneciam informações geodésicas. O equipamento que operávamos tinha um custo estimado em alguns milhões de dólares (sim, milhões) e sua operação demandava mão de obra especializada, e a partir daquela data contaria também com todo o suporte da informática que não possuía até então. Ora, pensava eu, se não possuía até então, tinha que passar a possuir logo naquele momento da minha vida? Mas essa decisão estava além das minhas capacidades. Só para finalizar acrescentarei que aquele experimento seria o embrião do hoje largamente empregado sistema GPS, que faz o monitoramento e acompanhamento de veículos em deslocamento, ainda um pouco restrito às grandes empresas de transporte, que podem acompanhar o deslocamento de sua frota por informações enviadas por satélites, mas que já começa a ser utilizados também por veículos comuns.

E isso foi o início do fim.

Fui liberado depois de quatro meses naquele fim de mundo. Durante aquele período não puder dizer um olá sequer para ela. Infelizmente aonde ela trabalhava não existia um aparelho de telex, que por ser um equipamento caro, era instalado em setores gerenciais da empresa. Também não podia, sob pena de colocá-la numa posição delicada, mandar uma mensagem para ela através do escritório central.

Quando enfim retornei, ansioso por reencontrá-la, fui informado que ela e o marido haviam se transferido definitivamente para o Paraná, e desta vez para trabalhar numa outra empresa. E para piorar, ninguém sabia qual era esta empresa.

Este seria o fim da história, não houvesse um pequeno apêndice.

Não vou tentar relatar tudo o que sofri com aquele desencontro dentro daquele encontro que a vida havia me dado e me retirado. Isso não acrescentaria nada a nossa história, somente intermináveis páginas de lamentos. Vamos então nos poupar disso. Poupar vocês dessas lamentações, e a mim de reavivá-los.

Mas vamos ao arremate da história. Passara-se 3 anos desde a ultima vez que estivéramos juntos quando um dia (a essa época eu já havia abandonado o horário da noite) ela entra na minha sala, tão linda e meiga como sempre. Vinha com uma criança de pouco menos de dois anos, seu filho. Nos abraçamos de um modo tão demorado que o tempo pareceu ter dado uma pausa para que pudéssemos dizer um ao outro, naquele abraço, tudo o que sentíamos. Ela me apresentou seu menino, e nós conversamos por mais de uma hora, ao fim do qual ela foi embora, para que nunca mais voltássemos a nos ver. Claro que na nossa conversa falamos da forma como fomos obrigados a nos afastar um do outro, mas nenhum de nós tivera nenhuma culpa nisso. Tivéssemos um compromisso formal, as coisas teriam sido diferentes.

Hoje devo afirmar para todos vocês que, apesar de ser um homem que já amou na vida mais do que talvez tivesse sido possível, nenhuma das minhas paixões persiste com tanta força dentro de mim como esta que acabei de lhes contar. E é engraçado que entre todas esta foi a única em que o corpo foi tão pouco solicitado. Acho que é o que se chama de encontro de almas. E, com todo o respeito, carinho e admiração que tenho por todas àquelas a quem em determinados momentos da minha vida elegi para partilhar comigo um pedacinho desta minha caminhada nesta vida, nenhuma delas me traz o desejo que eu sinto de reencontrar alguém como tenho o desejo de reencontrá-la. Das demais eu sinto saudade, mas uma saudade fundamentada no seu próprio tempo, sem nenhum desejo de reviver este tempo. Mas com ela não, com ela eu desejaria estar novamente um dia frente a frente, em qualquer circunstância, em qualquer tempo, em qualquer lugar. E desta vez poder dizer a ela de um modo definitivo os trechos daquela canção do Geraldo Azevedo:

"Se você vier pro que der e vier comigo
eu lhe prometo o Sol, se hoje o Sol sair,
ou a chuva, se a chuva cair,
se você vier até onde a gente chegar,
numa praça, na beira do mar,
um pedaço de qualquer lugar,
e nesse dia branco,
se branco ele for,
esse tanto, esse canto de amor,
se você quiser e vier pro que der e vier comigo (...)"

Lucas Castro
Enviado por Lucas Castro em 17/11/2006
Reeditado em 12/10/2008
Código do texto: T293978

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Sobre o autor
Lucas Castro
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