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GERMUNDE

Germunde
Conto

Germunde é feia carrancuda e fria. Aparece estampada na encosta, como um ovo podre atirado à parede com as claras negras e viscosas a escorrer até ao rio. Súbita se venho do lado da Póvoa ou de Pedorido. De Melres no outro lado do Douro, vê-se como nódoa sombria a escurecer a serra em frente. O entulho desprende-se cascalhudo e solto até à beira das águas do rio a perpétuar a imagem que antecipa o inferno. Enormes pavilhões cobertos de chapas de zinco e fibrocimento assemelham-se a escangalhadas tendas de campo de concentração abandonado. Mais ao centro em zona previamente escolhida e bem longe dos barulhos da lavaria, há casas, vivendas misturadas com grandes prédios urbanizados e barracas pré-fabricadas que abrigam o pessoal médio. No meio destas há campo de ténis, piscina, bar luxuoso e messe limpa para os mais ganhadores de salário.
Por baixo de uma enorme placa de betão, fica o refeitório da classe operária mais baixa. Dentro deste espaço austero e frio, há mesas de madeira alinhadas na totalidade do comprimento do sitio com bancos corridos também alinhados sobre um chão de cimento bruto. A delimitar as diferentes zonas, há cedros e ciprestes plantas que emprestam um ar de cemitério a este local sinistro.
O sol ainda não despontou em Germunde nem vai despontar, distante lá em cima no céu passa por trás desconfiado e ensombreia a terra que já de si é negra. A claridade chega pelas oito e define um pouco mais a estrutura esquelética do aglomerado. Germunde não é cidade não é vila nem aldeia. Não é nada, nem uma coisa nem outra, o que mais parece é um espinho cravado na encosta do monte. Ninguém é de Germunde, a história não reza esta estranha espécie de vida aqui, mas ela existe trazida de longe, importada, alguma aciganada, tipo gente infeliz dos colonatos árabes. Ninguém se conhecia antes como não vão ficar conhecidos depois. Convivém mas ignoram-se, partilham estes espaços de terra e entulho como quem partilha a água de lavar tripas de porco. Germunde é um nicho para alguns vampiros que chupam o sangue a quem lhes cair nas mãos. Transformam o castigo desumano e duro, em obra de misericórdia abusando da debilidade do sustento deta gente. Aqui só se pára para morrer ou mijar, até a água das nascentes é férrea e preta a condizer na perfeição com o tormento. Bem se enfeitou ela de natureza vinda de fora, mas em vão, aqui não nasciam cedros, nem aciprestes, nem rosas, só urtigas azevim e mato. De Germunde ninguém gosta, nem os que aqui hão-de de nascer, vão fugir sem saudades para longe na primeira oportunidade que surgire e não voltarão mais. Em tempos remotos ouve vida aqui em Germunde, o edifício da messe foi solar de fidalgos, lavradores abastados no nome, que quem lavrava a terra eram outros. Tinham cavalos e coches meio de transporte para se deslocarem aos salões da Granja onde desbaratavam à sorte, o que os outros produziam. As madames alçavam as pernas e mostravam as coxas alvas e luzidias enquanto fumavam cigarrilhas cubanas. Os almoços também eles lautos, eram no restaurante Galo de Ouro em Aveiro e começava sempre por uma avantajada caldeirada de enguias a que se seguiam bifes de vitela enfeitados com tartulhos. Enfartados adormeciam e ressonavam alto. Ficavam por lá dias a fio até gastarem dez anos de salário de um cavador de terra a beber champanhe como quem no dia quatro de Agosto na festa do S Domingos, bebe uma esturraçada de água fresca do cântaro do Fome Negra.
Esta era pois a espécie de vida que em tempos remotos proliferava em Germunde, mas nesse tempo, ainda não se adivinhava o calvário que vinha a seguir, aquilo era só o prelúdio de uma tragédia que levaria à destruição de centenas de vidas. Germunde é uma terra propicia às maleitas, nasceu ou foi criada à imagem e semelhança do inferno
Bem ao centro do cenário em patamar de entulheira, discreta mas presente, o possível disfarçada fica a boca do suplício. A entrada da mina. Por aquela escancarada boca vão entrar as filas dos que vieram a caminhar há horas. E ai estão eles. Os gasómetros prenhes de carboneto que balouçam nas costas dos homens vão entrar em acção.
Uns atrás dos outros desaparecem ao fundo da ampla galeria transformando-se em pequeninas luzes trémulas e difusas. Lá vão o Marto, o Pestana, o Maneta, o Isidro, o Rã e os outros todos. Caminham cem metros pelo lado do trilho das vagonetas e ao fundo deparam com três enormes poços. O pg1 à direita, à esquerda fica outro na galeria da Santa Bárbara, o trinta e cinco.
No primeiro dois elevadores fazem a descida. As Jaulas que consistem num patamar de madeira de dois metros e oitenta, por um metro e trinta, cercado com grades de ferro é a cabines onde vão os homens misturados com os materiais. Quando um desce, o outro sobe carregando uma vagoneta cheia de carvão. Os mineiros descem também aos poços por escadas de madeira que de dez em dez metros tem um patamar e assim sucessivamente até atingir os trezentos metros de profundidade.
Chegados ao fundo novas galerias se formam onde se faz então a distribuição do pessoal pelas diversas frentes de serviços. Uns para um lado, outros para outro dispersos pelas travessas a começar nas seis e acabar nas trinta e cinco. Uns cavam outros enchem à pá pesados carros de mão construídos em madeira.
Vê-los agora é penoso. Quais toupeiras. Essas escolhem o terreno onde pretendem cavar, eles não. As marcas foram definidas antecipadamente e seja duro ou seja mole, tem de se avançar sempre. Inclemente e dura a vida aqui. Molhados, sempre molhados, se não é do suor é da água negra que pinga incessantemente do tecto, vão torçendo as negras camisolas único aconchego e protecção. Das mãos e braços chagosos pelas pedras afiadas e soltas escore sangue que se mistura com a massa preta do carvão. Transfigurados em camisola interior ou de tronco nu e em cuecas, assemelham-se a penduricalhos vivos. Nada lhes proteje o nariz e a boca e o pó negro entra livre até aos pulmões provocando a fatal silicose.
Ah mineiros do Pejão! Que erigirá o templo das vossas memórias! Quem lá há-de chorar o vosso inenarrável sofrimento. Que cá fora a nortada sopra e agita as folhas dos salgueiros tentando desesperadamente abafar os vossos aflitivos gritos. Ela que vos conhece desde meninos, que afagou o rosto da vossa juventude lancetada, sofre também em rajadas de revolta.
Pára rio Douro, escuta os lamentos dos homens enterrados vivos e lava-lhes as feridas do corpo e da alma com as tuas doiradas águas.
Parai barcos rabelos que da Régua vindes desfraldando ao vento vossas velas brancas e encarvalhado trazeis o precioso néctar que outros escravos fizeram, mas que não corre nas gargantas dos pobres.
Pára vento norte, não vês que é impossível calar o desespero destas almas famintas de luz!? Deixai que se faça silêncio, que cá fora a noite desça solidária com a noite deles e que Deus e S.ta Bárbara os protejam e velem então pelas suas desprotegidas almas.
Manuel Araujo da Cunha
Enviado por Manuel Araujo da Cunha em 18/11/2006
Código do texto: T294460
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Sobre o autor
Manuel Araujo da Cunha
Portugal, 69 anos
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Manuel Araujo da Cunha