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As caixinhas de fósforos

        Morávamos numa casa antiga, de quatro assoalhadas e meia. A meia assoalhada era o hall de entrada, que podia ser mobilado. A minha mãe, que era contabilista, mobilou-o com várias colunas. A coluna dos débitos estava entre os postais e estátuas de santos de barro cru, ou mal cozido; a coluna dos créditos, entre velhos livros, porcelana chinesa, e algumas bugigangas que o meu pai trazia das suas repetidas viagens. O saldo, era o pouco espaço para circular pelo hall.
        Se um visitante se assomasse à entrada da casa, mal poderia ver a cor do velho soalho. E dois passos além do tapete, teria que abraçar quem lhe abrisse a porta.
        O meu pai fartou-se da falta de espaço e partiu, como eu parti em mil e um pedaços o São Gonçalo do Amarante. Desde o dia do acidente, a  minha mãe passou as mil e uma noites seguintes a colar cada pedacinho da estátua, com uma paciência de santo.
Naquela época, o dinheiro era pouco e vivíamos da pensão que o meu pai nos mandava, e das escritas que a minha mãe fazia para os pequenos comerciantes do bairro.
        Eu fui ganhar dinheiro para a feira da ladra. Vendia às escondidas alguns dos santos da minha mãe. Ganhei, também, o gosto pelas colecções: coleccionava palavras silenciosas, sem muita sonoridade, dentro de caixinhas de fósforos; as mesmas que a minha mãe esvaziou durante mil e uma acendidela de velas. Todas as noites, enquanto colava um pedacinho do maldito santo, ela orava a São Gonçalo do Amarante para que iluminasse a volta do meu pai. Nunca ele encontrou o caminho.
        O meu encontrei-o em palavras silenciosas guardadas nas caixinhas de fósforos. A primeira que tive, serviu para guardar a palavra « olhos ».
« Olhar » tem mais sonoridade que « olhos », pensei. Um dia perguntei à minha mãe de qual ela gostava mais: de olhos ou de olhar, mãe? Gosto mais de olhar, respondeu-me. Rasguei o olhar e guardei os olhos. Outra que engavetei foi a palavra ser. Estava em dúvida entre papel e ser. A minha mãe preferiu o papel, e eu silenciei o ser. Assim eram feitas as minhas escolhas. « Olhos » e « ser », foram as minhas primeiras palavras silenciosas. Depois descobri o vocábulo « seco » e « cego », apesar de ainda hoje ter bastantes dúvidas com o « cego ». Mas, como é de nós que a vida é feita, guardei-os. Afinal, seco e cego eram palavras que faziam parte da minha vida.
        Durante anos tentei dar vida às figurinhas de barro que tronavam na coluna ao lado dos débitos. Queria dar-lhes vida, e, talvez, passá-las para a coluna dos créditos. Quem sabe tinha a intenção de aumentar o saldo da casa… A minha mãe, coitada, venerava-as noite e dia ; falava com elas, chorava com elas, e rezava com elas, também.
        O pior é que todas essas palavras eu não conseguia coleccioná-las : venerar, falar, chorar e rezar. E algumas das minhas caixinhas, até hoje, ficaram vazias. Um dia descobri a palavra « morreu », que é tão silenciosa como a morte. Fechei-a numa caixinha de fósforos. Não a morte, claro.
        Um dia, à saída da escola, a minha mãe estava à minha espera. Disse-me que tínhamos que falar, e fomos andando para o lado do moinho do Jim, na praia da Alburrica. Lembro-me que estava um sol de lascar, e a maré estava vazia. Nunca entendi porque algumas pessoas gostam daquela praia. Tem um aspecto horrível quando a maré vaza, com aquele caudal de lama que uns chamam de terra iodada. Iodo ou não, aquilo é um nojo. Alguns até se besuntam com a terra iodada e estendem-se como lagartos ao sol. Dizem que é bom para o reumático. Sei lá!
        Da outra margem do rio, viam-se os barcos que cruzavam o Tejo, entre o Barreiro e Lisboa, e as pessoas que desembarcavam na estação do Barreiro. A minha mãe silenciou o olhar pela estação dos barcos, e esqueceu-se do que me tinha a dizer. De repente, ficou tão branca como o barro mal cozido dos santos da coluna dos débitos. Parecia que tinha visto um fantasma. Numa fúria, desatou a correr pelo lamaçal adentro.
        Enquanto ela corria, na minha mente corriam ideias e palavras, sem eu dar conta do que acontecia. Desesperada, peguei num papel e num lápis, e, automaticamente, anotei a palavra sol e lamaçal. Apressada, rasguei um bocado do papel, e descartei o lamaçal, onde ela se afundava mais e mais. Agora mesmo sinto uns repelões de consciência, quando oiço essa palavra. Para os que presenciaram a cena, a minha mãe transformou-se em santa. Mas parece que nem todos a viram com os mesmo olhos que eu.
 
 

 

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 21/11/2006
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T297009

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires