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SEDUÇÃO



Saiu à noite, procurou pelas vielas escuras, nem sabia bem o quê. Mas havia um impulso, pulsão para alguma coisa em sua mente ainda não bem determinada. Precisava sentir-se vivo. Impulso, pulsão, compulsivo. Tudo que milhares de psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, autores de auto-ajuda já tinham lhe falado. Sabia, entretanto que precisava seguir aquele ritual, embora não fosse visível em sua mente perturbada, muito menos de forma consciente e racional. Era de fato uma necessidade, não sabia se sexual, sentimental, intuitiva. Só que era um sentimento de busca, uma verdade inconteste que latejava no peito e respondia no sexo, o degrau mais inferior que percorria pensamentos, mas que o chegava mais próximo de sentir-se alguma coisa, ou alguém. Talvez fosse um louco, destes alucinados que andam pelas ruas, às escuras, escondidos nas brumas das árvores dos parques, prontos a atacar ou serem atacados. Via na praça uma saída e corria para ela, como quem corre para a matinê, com a sensibilidade aflorada e a curiosidade permeando na pele desnuda, atiçada pelo filme e todas as conclusões que se seguem. Era o filme de sua vida. Sempre um filme quase violento, cheio de aflição, angústia, temor, e muito pouco ou quase nada de prazer. Mas a praça trazia uma sedução, uma atração pessoal tão qualificada, que era quase impossível fugir.
Lembrava-lhe brinquedos, dias ensolarados, o avô caminhando ao seu lado, oferecendo pipoca, algodão doce, tão doce quanto o contato permanente, o carinho seguro, a firmeza na mão, o passo certo, a liberdade vigiada, a certeza de que a vida se resumia naquela mão na mão, ombro às vezes guarnecido pela mão grande, peluda, de dedos longos, cheios de calos de uma vida de maltratos. Protegiam-lhe, davam conforto e até alegria. Nada os separaria, estariam sempre juntos, ele, ouvindo suas histórias toscas, enfadonhas, mas que o transportavam a sua vida rural, de serviços forçados, de lida diária com o gado: um modelo tão estranho e diferente do seu. Era, porém, o que se lhe apresentava para conquistar. Aos dez anos, não tinha muitos amigos, ou talvez não tivesse um que fosse seu amigo, realmente. O pai, distante, executivo assoberbado, exaltado, temeroso da falência aviltada eternamente a seus ouvidos,  a mãe envolvida na sua vida social, tão própria e decadente. Nada mais restava a não ser o avô, um velho marginalizado pela pouca cultura, narrador de histórias  rudes, baseadas em sua vida de campo, no manuseio dos animais, cercado por peões, gente simples e grosseira como ele, considerada desprezível pelo pai e por toda a família. Também não se importavam com a sua presença, desde que se mantivesse contida no elo familiar do menino. Este aprendera quase tudo que lhe interessava, sobre cavalos, éguas no cio, vacas prenhes, caças proibidas, das quais o velho se vangloriava. Mas o que mais o fascinava não era o enredo inverossímil  das histórias, mas do ambiente lúdico da praça, que ficava próxima a sua casa, onde tudo acontecia, onde elas se desenrolavam na riqueza de detalhes e narrativas fantásticas. O que o encantava era a intimidade com o avô, naquele espaço de liberdade e paz, onde pombas sobrevoavam, atrevidas, à cata de pipocas, onde palhaços faziam publicidade de circos que chegavam à cidade, onde os animais pululavam em sua vida brejeira de alegrar os visitantes. Onde via nos olhos do avô o brilho da inocência.
Mas agora, aos trinta anos, o velho já enterrado há mais de dez, não lhe importavam as luzes da praça, nem o ensolarado dos recantos, nem a busca nos brinquedos, nem a mágoa ressentida de se afastar dos meninos mais audazes, que não temiam os brinquedos perigosos, que se arriscavam na gangorra, em pé, em alta velocidade, na roda gigante, da qual podia se avistar o topo das árvores e os patos e gansos se tornavam pontos brancos nos lagos poluídos. Nem o menosprezo e a inveja de sentir-se bem no carrossel, girando em volta do mundo, sabendo no entanto que a qualquer momento, colocaria os pés em terra firme. Bobagem. Nada disso lhe causava qualquer emoção, apenas lembranças distantes de dias díspares, nos quais a verdade se escondia em seu coração e o refúgio maior era o coração do velho.
Viver pelos becos sombrios, atravessar as vielas sórdidas, envoltas no negrume dos desejos mais recônditos era de um prazer muito maior do que o  gozo procurava. No entanto, um vazio tão grande se aprofundava em seu peito, que sentia o suor escorrer gelado através das roupas grossas de lã, sob a camiseta de algodão, um frio intenso, de bater joelhos, que nada significava a não ser um frio interior,  que lhe era o parceiro nestas procuras intermináveis. Via em cada olhar que surgia entre as sombras, como uma provável fonte de prazer, mais forte do que o medo, o pavor de ser atacado, de ser cruelmente maltratado, de ser humilhado, ultrajado, não importava. Aí estava a saída. Em todos, talvez avistasse os meninos que o desprezavam, e talvez por isso, quisesse agradá-los, para sentir-se um igual, compreendido e compreensivo, amado enfim. Ou talvez, as imagens sombrias e disformes traduziam a rudeza do avô, que mesmo no ensolarado do sol, carregasse com ele, inerente a sua personalidade, a crueza de um mundo marginalizado, que não era o seu, mas que o atraía intimamente. Olhos passeavam nas sombras agitadas, de rumos diferentes, que se cruzavam a todo momento, que se aproximavam, se tocavam, pedindo sexo. Homens, mulheres, prostitutas, vadios, mendigos, ladrões, traficantes, drogados, policiais,  travestis, garotos de programa, todos em fila, à espera de um beijo seu. Uma confirmação que finalmente cedera a sua sina. Coração  alerta, seguindo os avisos dos membros trêmulos, já também a cabeça, como se tivesse um mal terrível, um tremor incontrolável, doente de frio.
A noite está límpida. Só estrelas no céu e a lua brilha desenhando imagens absurdas na praça. Seres que se contorcionam no ambiente frio e insípido, molhados de sereno e suor, molhados na boca, que procura outras bocas e outros corpos. E ele, ali, como um malabarista entre os galhos contorcidos pelo inverno, secos e disformes, escondido, mostrando-se pouco, obedecendo à hierarquia da sedução, temeroso de ceder também, de se sentir um igual, tão igual que jamais voltasse a ser o que era. Nocivo, estorvo, um tumor.  Alguns sorriam, outros se masturbavam indecentes, uns aos outros, na noite vazia de sonhos e ilusões, outros se locupletavam com as moedas que proviam a miséria de seu cofres sem dono. Covil de ladrões. Ladrões de corpos e de almas. Ladrões de si mesmo, de suas vidas, seus destinos, tão curtos, desafiados a cada momento no brilhar de facas, no tilintar de faróis oficiais, no estourar de pistolas.
Se pudesse fugir, afastar-se, mas estava agarrado ao solo, realizando o ritual que repetia em toda a sua existência.
Foi assim, que um olhar foi mais forte, uma voz  que não falava com a boca, mas com o corpo todo e ele se sentiu tão atraído que pensou que fosse morrer. Até sorriu, quando a beleza passou entre a miséria humana e pensou ser um dos seus. Com sonhos, esperanças, ideais, quem sabe, um dia fugir daquela vida, transformar-se num novo homem, esquecer este universo avesso à vida, à realidade dos homens de bem. Quem sabe, ser realmente como ele. Então o acompanhou, como pôde, aos trancos e barrancos, as pernas ainda trêmulas, a voz embargada, o coração aos pulos, a boca estremecida, mas o sexo intumescido. Estava ali a sua chance. Seria só  uma vez. Um homem como ele, não se atreveria jamais a prosseguir naquele caminho. Bastava ser feliz, por alguns momentos e esquecer para sempre. Seguiu-o para uma touceira, desfiou o blusão nos nódulos do tronco, entorpeceu os braços, estendido no alto, sem ação, enlevou-se em frases bonitas, gestos sedutores que certamente outro homem não faria, pelo menos não um como o avô. Sentiu-se apalpado, beijado, invadido, avassalado, tombado de vez. Não fez gesto, manteve-se quase infantil, como menino, a procura de amigos, frustrando-se por ser covarde, agarrado na figura firme e segura do avô. Não precisa mais dele. Libertara-se finalmente. Havia segurança ali também, com o outro. Quando o encarou e seduziu-se na voz sussurrante, até sorriu. Até quando avistou a arma brilhar, cintilante e pairaram exigências rápidas, como cartão de crédito, dinheiro, chave do carro, códigos, senhas. Nada dizia, pois nada acreditava. O torpor impediu-lhe a voz.  A mãe sorria, dizendo-lhe que a página policial não era para a sua família, somente a da high society;  o pai por sua vez não acreditava na exigüidade da hora, do confronto da conversa, do contra argumento, e por isso, afastava-se, acenando enfadonho,  a cabeça. Só lhe restava o avô, com suas histórias, no ensolarado da praça, contando como se sacrificava o porco e como o sangue jorrava, lavando a mesa improvisada, espumando a boca entreaberta, após gritos dilacerantes de dor. Então, sentiu o sangue correr na mão, oriundo do pescoço, como o porco sacrificado e pensou que encontraria o avô e certamente, ele ficaria novamente feliz com ele.


Gilson Borges Corrêa
Enviado por Gilson Borges Corrêa em 21/11/2006
Código do texto: T297618
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Sobre o autor
Gilson Borges Corrêa
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil
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