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Conceição de Jacuípe

Estive hoje em Conceição de Jacuípe pelo Google Earth– prefiro esse nome ao outro. É uma cidade que surge nos descampados da Bahia, se agrupando em casas, como arbustos de um deserto com receio de se perderem só, como algumas perdidas que ficaram pelo caminho aqui e ali, ao lado das imensas avenidas que parecem túneis que ligam a realidade à dimensão da fantasia.  Posso vê-la, você e sua bicicleta voltando à infância de Jacuípe, aquela menininha desbravadora de arredores, seguida por seu cão preto e branco que late com ares de importância os vestígios de animais que encontram pelo caminho. Um lagarto se esgueira por uma pedra ao longe.

Chegamos à cidade e podemos ver o Hotel Ideal com seu letreiro espalhafatoso a se proclamar: “Hotel Ideal: O melhor hotel de Conceição de Jacuípe”. Quando dona Laura se sentava na varanda da antiga casa velha da rua do Louro, ela era que podia ver os poucos hóspedes chegarem com seus ares de cidadão do mundo e se apaixonar por Jacuípe. Deposto a arrogância, comum a todos que vivem nas babilônias modernas com seus arranha-céus de ganância, Ela percebia aqueles seres de pedra e vidro descobrirem o mundo maravilhoso da cidade, e suas fantasias afloravam. Ali em plena Jacuípe, ela já vira engenheiro com MBA formado em Havard transformar-se em personagem de ficção, com poderes especiais, humildade e heroísmo, arrebatador de corações e vivente de aventuras incríveis sobre seu cavalo negro pelo sertão dos brasis. Homem virava menino. Homem virava lobisomen. Tudo dona Laura viu e contou e recontou de cor, com os olhos brilhantes, como se os visse novamente surgir de páginas folheadas pelo vento sobre a história de Jacuípe.

Demos uma passada pelo banho da Catarina. Que não necessariamente é um rio. Pela rua das bromélias, pela feira e desembocamos até a rua “nem sempre tem céu azul”. Essa é uma verdade. Ás vezes olhamos para o céu e imaginamos Deus naquela estrela brilhando, Mas na verdade, Deus pode estar mesmo é no toldo negro que cerca a estrela, obscuro mistério da Criação de onde surgiu a humanidade, toda espécie de estrela e de coisas vivas e inanimadas. E prosseguimos pela cidade até pegarmos novamente a BR 324. Você em sua bicicleta metamorfoseando novamente de menina em mulher e eu vou acompanhando tudo  pelo satélite, tão longe e tão perto um do outro.

Passamos novamente pela varanda de dona Laura, anciã de 300 anos, para lhe dar-lhe nosso momentâneo adeus. Chamamos e ela surge no umbral da porta grande de Jacarandá, tão antiga quanto ela, com suas cãs alvas, moldada em tranças longas cujo contraste com a pele cabocla lhe davam o semblante do tempo, andando vagarosamente sobre as alpercatas, como se viesse do começo dos tempos. Paramos a olhá-la. E só então vimos que ela trazia pelas mãos Júlia e Laurinha gêmeas idênticas, de súbito olhamos sobressaltado porque ouvimos um barulho vindo da casa, Dona Laura, olhou para você e sorriu. Então surge Miguel correndo, já ia sair para brincar na rua. Mas olha para você e estanca. Dona Laura ri novamente e você se põe a pedalar eu te sigo. Você traz um pensamento que aguarda a iminência de descobrir algo importante, que agora não sabe explicar, mas lá está, aquilo que te leva incomodando. Lá ficaram aquelas quatro figuras em pé, olhando você se afastar rapidamente, confortados, porque sabem que você não foi embora. Três anos depois nos casamos e, então, os meninos nasceram: miguel, nasceu primeiro, depois veio Laurinha e três minutos depois, Júlia soltou um vagido tão alto que o hospital todo veio ver. Era a dor do nascimento.
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 07/06/2011
Reeditado em 06/02/2014
Código do texto: T3019597
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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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Sérgio Caldeira