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Dia das Crianças





Uma vida cheia de contínuos empreendimentos materiais de sucessos, ensinou ao empresário Garibaldi que uma tomada de decisão não dependia das sinalizações dos ponteiros de um relógio. O aqui, o agora era o momento ideal para qualquer tomada de novos propósitos. Era justamente sobre uma radical mudança que ele pensava  quando soou o celular. Era sua secretária.

— Sim, Rose!...Cancele. Aliás, cancele todas as reuniões de hoje. Depois explico...Até mais!

Ali onde estava sentado, sabedor que seu celular não iria parar de tocar, desligou o aparelho para dar continuidade as suas divagações.

O imprevisível ocorrera. E situações inesperadas impelem, na maioria das vezes, ao homem, buscar um exame interior. E no processo de meditação podem ocorrer valiosas descobertas que estavam internamente adormecidas. Era o que Garibaldi estava buscando nessa viagem interior: o auto-conhecimento. Seus negócios, sua empresa, suas amizades navegavam no barco do sucesso. O oposto ocorria no seio familiar. “Os negócios me impedem de estar mais presente — racionalizava — o dia deveria ter quarenta e oito horas.”

Mensalmente, viajava ao exterior, a negócios. Assim, ele vivia totalmente ausente de casa. As datas especiais, nas quais era obrigado a permanecer em casa, eram momentos de implicâncias com seus filhos mais velhos. As novas tatuagens, piercings, os desleixos dos trajes, o volume do som eram os principais motivos dos embates com os filhos. As constantes saídas da esposa para salões de beleza ou reuniões sociais também eram fatores que contribuíam para uma progressiva separação entre ambos. Já não se amavam mais como outrora.

“No mundo dos negócios consegui o impossível. Para que estou querendo mais dinheiro? Continuo me sentindo vazio e incompleto. Provoquei a perda do amor de meus filhos... de minha esposa. Sou um pai e marido totalmente ausente”.

Um toque no seu ombro fez-lhe despertar. Era o médico do Pronto-Socorro onde ele trouxera seu filho que há pouco ele inocentemente havia atropelado próximo de sua casa. O menino que estava na calçada, ao ver o carro do pai, inadvertidamente, corre para o meio da rua. Mesmo freando, não conseguiu impedir o choque no frágil corpo da criança.

— Como ele está doutor?...Vai se salvar? ...Não vou me perdoar nunca por isto?
  — Calma, pai. Ele está bem. Houve algumas fraturas, mas ele está fora de perigo. Você já pode ir vê-lo.

Respirou aliviado. Um enorme peso fora tirado de suas costas. Garibaldi naquele momento tomou a decisão mais sensata e difícil para ele. Ligou para a secretária e mandou que esta cancelasse todos seus compromissos agendados para os próximos seis meses.
Suavemente girou a maçaneta da porta e sorriu para o filho acamado.

Garibaldi não consegue conter as lágrimas com a resposta do filho, ao ser questionado sobre qual presente ele queria ganhar no Dia das Crianças.

— Pai, eu quero o mesmo presente do meu amiguinho, o filho de nosso jardineiro. Eu quero que o senhor me leve no Passeio Público e compre pipocas para darmos aos macaquinhos.

14/10/2006 19:42:48
Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 02/12/2006
Código do texto: T307887
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
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Luiz Celso de Matos