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Carta do Inferno

Não, senhores, não é possível viver assim. Aqui apenas se vive e, viver é condição 'sine qua non'. Mas não se vive como é possível viver, na medida do possível. Falta algo mais, um quê de vida para esta vida e aos que nela vivem, ou parcamente tentam nela viver, já que não morrem nunca. Nem chamemos isto de vida, não se vive por aqui. Aqui somente se morre; morre-se sem nunca completar-se o fim da vida. Morre-se sem morrer. Este lugar nos é merecido segundo quem nele nos colocou. E a ele não somos nem um pouco agradecidos. Melhor seria não nos ter feito. Aqui tudo é isto que está à volta: nada e tudo existindo concomitantemente, entrelaçados numa dança em espiral.

Naturalmente não há dons, não há bênçãos, não há risos, não há chistes, não há alegria nem há alívio. Não há graça, nem há viço, apesar de tudo isso haver e estar, aqui e agora. Podemos vê-los em toda parte. Não estão em nós mas estão em algum lugar e a nós chegam pelos meios sensoriais sem que nós, inexplicavelmente, os sintamos dentro de nossos corpos e nos regozijemos com isso. Tudo está aqui e, ao mesmo tempo, não está. Há tudo isto e, ao mesmo tempo, não há nada disto. É uma fachada escancarada e adrede posta bem à vista, ante nossos olhos, mas é apenas visível, não se sente mas vê-se como se estivesse lá.

Só há a sensação de tempo perdido, de tempo gasto, de tempo que voa e escorre por entre os dedos sem que seja possível fazer nada enquanto este passa. Este mesmo tempo passa muito rápido para que possamos fazê-lo valer a pena, assim como passa muito devagar para se esperar que ele passe todo de uma só vez. Ledo engano nosso pensar que podemos aproveitar o tempo que aqui temos, mas a teimosia nos foi injetada para que tentássemos, mesmo sabendo que sempre fracassaríamos. Nos é dada toda a liberdade de ir a qualquer parte, porém toda parte é sempre a mesma parte, e as dores que sentimos em nossos corpos não nos permitem que nos movamos livremente sem nelas pensarmos. Este tempo é de uma cruel natureza que não se pode muito bem explicar.

Esta natureza cruel e nefanda, ora breve, ora prolixa, nos impede de fazer qualquer coisa e ao mesmo tempo nos faz sofrer cada segundo por estarmos parados dentro dela. Estamos completamente à mercê deste espectro controlador de nossas pobres e, infelizmente, eternas almas. Este tempo de aqui é quase uma personificação de um malfazejo demônio, que sabe de antemão quando vamos nos mexer, e age em malgrado nosso quando vamos fazê-lo, multiplicando a nossa, já multiplicada a incontáveis múltiplos, agonia, e, não nos deixando então fazer nada. Tudo aqui é pleno. Tudo aqui é sofrimento.

Cada segundo é um segundo a menos; um segundo a menos dentro de uma eternidade repleta de dezenas, de centenas, de milhares, de milhões, de bilhões, de quadrilhões, de decalhões, de zilhões deles, que muito penosamente e morosamente passam, um a um, na modorra eterna da contagem também eterna do tempo, também eterno. Eternamente a passar.

Neste inóspito lugar, não há a certeza da morte para nos garantir um fim de nossas mazelas, não há o descanso eterno por ela enganosamente representado, ou a ideia reconfortante da segunda chance. A remota possibilidade de ver-se longe e livre deste inferno não é nem mesmo remota, nem a palavra "impossível" representa tanta dificuldade quanto a necessária para dar sentido e/ou significação à altura de tão exígua chance de se pôr de corpo e alma para além destas infinitas e malogradas fronteiras. Uma vez aqui dentro, não se pode mais sair, e ponto final!

Este é um lugar de sempiternas penitências, de sempiternas mortes-vivas, de sempiternas dores, de sempiterna sofreguidão, de sempiternas maledicências, gritos, berros, e torturas de todas as sortes, as quais não se pode imaginar em seus reais termos; um lugar de sempiternas repetições das mesmas duras, perversas, malévolas, insípidas e inescrupulosas penas, aplicadas de forma ininterrupta por um algoz invisível, e que se estendem pelo tempo que for necessário para que a eternidade passe inteira, sem que nem um mísero segundo ou milésimo desta fique por passar.

Estas penas, senhores, não consistem-se de trabalhos físicos, ou açoites fustigando nossos lombos, nem máquinas apuradas e lidimamente preparadas para tortura onde nos retesam os membros até que estalem e sejam separados violentamente de nossos troncos estando nós ainda vivos. Não, não há nada disso! O que há é apenas nossos corpos inertes, lançados ao solo ardente, incadescente, pedregoso e irregular a sentir todas estas eternas sensações, como se a nós estivessem a arrancar a pele, a furar-nos os ohos, a decepar-nos os membros, a queimar-nos os dedos, a quebrar-nos os dentes, a nos crivar com mil agulhas toda a extensão de nossos corpos. São todas elas mescladas e intensas, perfazendo uma forma híbrida de sofrimento que não se pode aqui exprimir com débeis palavras de linguagem humana e deficiente. Todas estas analogias não logram êxito em representar de forma fiel o que se sente na pele aqui nestas profundezas.

E o pior é que todas essas sensações físicas são e estão em nossos corpos para toda a eternidade. Estamos irremediavelmente condenados a jazer neste chão fervilhante e formigante, bombardeados pelas mais dolorosas sensações e sabendo que estas nunca terão um fim. A morte é simplesmente tudo aquilo que nós desejamos; a efetiva extinção de nossos corpos, almas e consciências para que não mais saibamos e sintamos este crudelíssimo castigo, que não sabemos quem criou, embora desconfiemos a possível autoria. Este é o pior dos lugares, o nosso é o pior dos pesares, o mais pesaroso e desesperado. Todas as corriqueiras representações deste horrendo lugar que se encontram nos mais diversos tipos de relatos escritos, sejam eles sagrados ou não, nem que fossem somadas todas e multiplicadas ainda pelo mesmo número de todas elas, não seriam fiéis o suficiente para transmitir uma ideia legítima, autêntica e exata do que nós, por toda a inútil eternidade, em nossas peles sentiremos sem termos um segundo sequer de descanso. Pois isto é o inferno: um lugar de sofrimentos eternos!

E nós somos tudo isto! Não se distingue mais coisa alguma em meio a este imenso tártaro calcinante onde nada e tudo, irritante e desesperadamente, dançam no seu eviterno frenesi, seu maledicente e mendicante movimento de espiral, arrastando a todos nós junto com eles, nos tranformando nesta perene massa disforme que rodopia no epicentro da única e legítima dor que pode haver. Não entendo como pode haver um lugar destes, como é possível ter-se criado com esta réproba finalidade de tortura eterna. Não entendo por que viverei sempre aqui. Só entendo que espirais não têm fim.
joão niemandt
Enviado por joão niemandt em 11/08/2011
Reeditado em 12/08/2011
Código do texto: T3152856

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Sobre o autor
joão niemandt
Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil, 26 anos
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