CRISTIANO NA LAGOA DOS BARROS

      Cristiano acorda cedo, pega seus pertences e segue em direção a cidade de Osório. Caminha lento e constante, aproveitando cada detalhe da paisagem. Fica encantado com tanta beleza, morros, lagoas, matas e pássaros. Ele aprendeu a se comunicar com todos elementos da natureza.
      Ao se aproximar de uma laranjeira, carinhosamente, colhe alguns frutos, para seu deleite. Agradece ao Criador por essa dádiva. Agora ele fala com as flores da beira da estrada e elas lhe respondem com seu perfume e seu colorido. Os pássaros parece estar a segui-lo, pois sempre há um voando por perto. Eles entoam seu canto harmonioso, deixando Cristiano embevecido, ao que ele questiona; para eu tocar e cantar, precisei de um Mestre e à eles quem ensinou?...
      Nesse momento Cristiano avista uma grande lagoa, rodeando uma montanha. Ele para. Fica extasiado com tanta beleza! Senta-se numa pedra a beira do caminho e tenta sintonizar com o espírito daquela água. Fica imaginando a grande utilidade dessa lagoa para o ser humano e também para os seres que nela habitam. Assim absorto, nem percebe a aproximação de um morador da redondeza. O homem lhe cumprimenta e pergunta se está perdido. Cristiano, então, lhe diz que apenas está andando para conhecer melhor o nosso país. Ele, então, aproveita para fazer algumas perguntas. Fica sabendo que o nome é Lagoa dos Barros e que ela é assombrada, por causa de um noivo que depois de assassinar sua noiva, jogou o corpo na lagoa. Desde então, é comum enxergar à noite, uma moça vestida de branco, saindo das águas, montada num cavalo branco. Em outras ocasiões, a moça de branco, ataca os que por ali passam e pede carona, sumindo logo depois.
       - Olha, moço, te aconselho a não se aproximar da lagoa, depois do por do sol.
       Cristiano ouve tudo com muita atenção, respeitando a crença daquele homem simples, mas sincero. Ambos continuam caminhando e chegam no Armazém do Sr. Maneca. Cristiano compra um pedaço de lingüiça e um pão para sua refeição e fica na escuta das conversas.
      - Pois é seu Juca, meu pai sempre dizia que no fundo dessa lagoa tem uma cidade inteira afundada e que quando as água baixa, a gente pode inté vê a torre da Igreja.
      -É cumpadre, também já ouvi dizê que o vivente que chega lá no meio, no redemoinho, a lagoa ingole o pobre.
      -Cruiz, credo, eu nunca me arrisco a chegá lá, disse Otávio.
      - O sinhô não tá acreditando, num é memo? Falou Sr. Ernesto.
      - Eu não sou muito crente nessas histórias, mas respeito os que acreditam, responde Cristiano.
       - Óia moço, é mió não arriscá. Disse Ernesto.
Cristiano não fala nada, se despede e continua seu andar de Arauto da emoção. Enquanto isso, um dos homens ali presente, resolve dar um susto no andarilho e diz para os demais;
        - Vou preperá uma pra ele, quero vê se ele não vai acreditá em nóis e rindo, pega sua bicicleta, vai até sua casa, pega um lençol branco e uma vela e se dirige para beira da lagoa, onde Cristiano, obrigatoriamente, passaria. Esconde-se num matinho e fica na espreita. Como Cristiano não aparecia, resolveu se adiantar. Sai do esconderijo e caminha uns passos na estrada, quando, de repente enxerga um vulto branco, que parecia estar acenando pra ele.
       -Meu Deus, meu Deus! Me sarve desta coisa!
O rapaz emudeceu, paralisou e tremia igual uma vara verde. Nisso Cristiano chega perto do vulto branco, mexe nele e vê que se trata de um saco de milho que algum cavaleiro, deixou cair na estrada. Como não estava bem cheio, as bordas do saco balançavam com o vento.
Ao olhar pra frente, Cristiano se depara com o rapaz, que mais parecia uma estátua e pergunta:
      - O que houve companheiro? Estás passando mal?
      - Não, é que levei um baita susto! Pensei que era uma assombração.
       Cristiano sorri e tenta explicar que o medo é que faz a gente ver assombrações. Na verdade os fantasmas estão contidos nos nossos medos.