O inominável como uma lagarta

Acordou ratificando desconforto e dor, sensações conhecidas de não ser, não estar, não existir, não ver lhe perseguiam desde domingo, enfrentara situações adversas e constrangedoras de ter que estar e ser presente durante a semana e foi um alívio, ontem, quinta-feira, ter ficado em casa.

Temia que o telefone tocasse e tivesse que dizer, falar, pensar, explicar, se expor ao Outro. Se ao menos pudesse não pensar. Organizou a casa até ao meio-dia (repudiava-lhe a idéia da convivência com estranhos neste espaço íntimo, expiando-lhe o cotidiano, a disposição dos objetos, os cheiros da casa, os sentimentos que ali se ocultavam) e a tarde passara lendo. Seu corpo em simbiose com a poltrona da biblioteca, já há algum tempo lhe pedia uma trégua.

Era pesado existir daquela forma, tentava buscar explicações no passado e entre uma página e outra fechava os olhos para ver melhor as cenas que se preparava para compreender, acreditava que haveria respostas, havia um preparo para dar respostas.

O desconforto lhe vinha da traição da linguagem. Escolher entre o primeiro e o segundo era o modelo sobre o qual seu cotidiano existia, experimentava o limite do paradoxo de perceber o mundo em A e o verbalizar em B, Y, Z, escapando-lhe ao controle o que de fato sentia. Recuava quando as palavras chegavam à superfície. Envergonhava-se quando as frases fitavam-lhe de volta, não eram a expressão que desejava. Inútil tentativa, o “sentido” acabava de ser fundado às avessas pelo signo.

Ainda nos últimos dias estava lendo sobre o paradoxo, o caos demoníaco, a desconstrução dos falsos binarismos. Intimidava-se com as incertezas, a realidade lábil, escorregadia. As conhecidas sensações de não ser, não estar, não existir, não ver intensificavam-se todos os anos no dia de seu aniversário, por isso não comemorava aniversários seus.

Os outros encenavam a existência. Eles sentiam, vibravam, gesticulavam, falavam, surgiam no palco, fundando uma existência. A emoção que os fazia existir, não conhecia...

Tinha medo, experimentava o pavor de não encontrar as cenas que buscava e abriu os olhos novamente, retomando o texto esquecido. Seríamos capazes de explicar a gênese de todas as imagens oníricas recorrendo à investigação da origem? Tanto essas imagens quanto as imagens observadas em estado de vigília formavam um material obliterado pela “realidade”.

Continuou lendo-se no texto que estava na biblioteca atormentando-se pelos textos que estavam além daquele espaço, além do quadrado que formatava o seu cotidiano. A sala tinha uma janela. Em tempos remotos, os livros eram a via que pela qual se libertava do ambiente opressivo e do seu estado de lagarta contemplava uma borboleta azul, grande, porém efêmera.

O horror às lagartas, seres desprezíveis, falsas imagens do devir. O mistério não desvendado.

Este tremendo ser que se transforma de lagarta a borboleta não suporta a aproximação do outro, ao mais simples contato perde sua cor no objeto que lhe toca, fazendo aparecer os traços da origem e tal como o homem na sua relação com a linguagem conhece a traição.

Inverno, 26, 06,2010.

Kaminski
Enviado por Kaminski em 20/10/2011
Código do texto: T3287142
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