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O Andarilho - Dia 11

Ele acordou sem rezar. Exausto, olhou para o lado e viu que o cachorro talvez estivesse pior do que imaginava. Poderia ter se mexido durante a noite, mas não dava para saber. Não havia conseguido sequer guardar a posição que o animal fora deixado na noite anterior.

O estômago roncou, mas a boca ainda salivava. Um cheiro de carne queimada impregnava o ar. Levantou a cabeça e olhou a sua volta. O que antes era um emaranhado de cães suicidas, agora se tornara um fumegante tapete de ossos queimados. Girou o pulso levemente até ouvir um estalo abafado. Conseguiu movimentar alguns dedos da outra mão e então percebeu que o escurecimento da ferida havia clareado um pouco desde a última olhada. “Miseráveis... Disse que não deveriam ter me tocado”. “E esses animais... O que queimou tudo isso?”.

Vasculhou o fundo da mochila à procura de algum pedaço de broa, mas encontrou apenas farelos cobrindo seu pequeno livro. O pegou, assoprou as migalhas ao vento, e simplesmente orou. Afinal, havia conseguido. Encontrara o maldito cachorro e lhe dera o que era de direito. Poderia voltar para sua jornada e caminhar como sempre fazia. Porém, estava cansado. Faminto. Morto de sede. Essa era a paga por ter encontrado o tal cachorro. Mas estava satisfeito. De certa forma, acreditava que talvez a coleira, o tivesse salvado do grande massacre daquela madrugada. “Mas pra quê? Não vai resistir. Se continuar desse jeito vai morrer antes da noite chegar”. O cachorro estrebuchava-se sobre o acostamento. Uma espuma rala de sangue começava a escapar pelos buracos do focinho. De nada havia adiantado encontrar o animal se não podia ajudá-lo. Tinha que dar um jeito naquele sofrimento. Não gostava de cachorros, porém, gostava ainda menos de sentir-se culpado pelo sofrimento de alguém. Decidiu então, livrar-se do animal. O deixaria sobre os ossos fumaçentos e esperaria que o tempo e as aves dessem conta do fim. Afinal, o banquete farto do dia anterior fora totalmente queimado. O que para Salina seria bom, pois seria devorado antes mesmo que pudesse latir. Então, o pegou pelas patas traseiras e o arrastou pelo acostamento até a beirada do asfalto. Mas ele resistia. Encontrava forças de onde não havia mais. Fincava as patas dianteiras sobre o chão fofo de terra. Ele parecia saber que seu destino não estava no bico daquelas aves.

— Vamos lá amigo... Vai me agradecer quando nos encontrarmos do outro lado. — Dizia ao cachorro, que gania e espumava ainda mais, pintando a arei com um marrom doentio.

— Escute aqui. Não posso fazer nada por você. Nada! Não temos sequer água por aqui. O que quer que eu faça? Que lhe deixe morrer esturricado sobre o asfalto?  Não quero ser culpado por ter feito alma nenhuma sofrer nessa vida... — Ele deu um puxão mais forte, e então Salina gritou. Parecia estar agarrado a alguma coisa entre o acostamento e a beirada do asfalto. E na verdade estava. Agarrara-se a ponta de um hidrante subterrâneo usado por policiais de beira de estrada para pequenos abastecimentos.

— Nem só para amarrar o pulso Salina. — Disse sorrindo ao erguer o osso como um símio que descobrira algo tão valioso quanto seus ancestrais. Então, desceu a clave abaloada e acertou o pedaço de cano que havia encontrado. O som de esguicho encheu seus ouvidos, porém o ar quente que saiu pelo cano, não seria suficiente para matar sua sede de ninguém.

A noite chegou e ele estava exausto. Havia cavado um enorme buraco com a mão e encontrado um registro. O girou com o que restara das forças, mas fora inútil. A água não brotou. Olhou para o cachorro com o focinho enterrado sobre a poça escura de sangue.

— Morra onde quiser... Sobre os ossos, sobre o asfalto... Sobre esse maldito cano... Não me importo mais... Mas se há outros truques que consegue fazer, além de encontrar canos com ar, então é melhor faze-los agora... Se ainda quiser que alguém os veja nessa vida...

O andarilho desmaiou. E com o focinho sobre a poça de sangue, Salina deu um ultimo ganido.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 14/07/2005
Código do texto: T34331
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva