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Perguntas Íntimas

Lá estamos nós, como sempre, na sala. Eu em um sofá e ela deitada no outro. Um silêncio sepulcral. Meu Deus, o que será que ela está pensando? O olhar está vazio, a mente distante, os lábios cerrados. É sempre assim. Que angústia me dá! Pergunto-lhe se está sentindo alguma coisa, já que ela está tão ferida por dentro, já que carrega tantas dores, uma causada por minha incompetência em lidar com a vida. Ela se irrita com a minha pergunta, como sempre. Mas eu não aprendo a ficar quieto.
Não vejo sorriso, alegria e muito menos felicidade. Sinto-a como se estivesse morta. E está, morta por dentro. Ah, se não fosse o amor pelos filhos, com certeza já teria se matado. Ela pensa que não sei, mas guarda uma caixa de opiáceo para quando as dores emocionais se tornarem insuportáveis.
Às vezes vejo-a rindo, mas sei que não é algo que vem de dentro. É o mesmo riso do palhaço, pintado no rosto, para alegrar aos demais. Mas quando há silêncio eu tremo de medo, culpa, compaixão. Não, não devo ter pena dela, pois ela odeia esse sentimento. É uma mulher muito interessante, inteligente, culta. Uma pessoa assim não é digna de pena, ela diz sempre. Mas eu às vezes me sinto indigno dela. Não sou culto, não tive tato para lidar com a sensibilidade e o sofrimento dela e feri-a mais ainda com minha traição. Ela me surpreendeu com a calma com que lidou com isso. Mas como sou burro em não ter percebido que eu me tornara menor aos olhos dela, já que tinha outras preocupações bem mais sérias com pessoas que ela amava muito.
Mas que diabos! Por que esse silêncio? Por que essa alienação de nossa vida? Nada diz nada à ela. Faz o que tem que ser feito, trabalha para ganhar seu próprio dinheiro, que não é muito. Mas ela nunca foi mulher de muitas coisas, de futilidades e gastos absurdos. Bastam-lhe os livros, os Cds e os DVDs. No mais, nada a interessa.
Porque eu errei tanto? Por que coloquei caraminholas em minha cabeça, julgando que o jeito de ela ser significava que não gostava de mim. Ela gostava sim, mas do jeito dela, sem abrir mão das coisas que realmente a faziam sentir-se bem. Meti os pés pelas mãos e sei que a perdi, que a perco um pouco mais à cada dia.
Às vezes ela acorda gritando meu nome durante à noite. Mais um pesadelo! Ela sempre tem pesadelos referentes às coisas ruins que lhe aconteceram. Ela tem medo e precisa de medicamentos para não ficar deprimida. O médico é ótimo, pois quem a vê não percebe as dores que traz no peito e nem a depressão que eternamente fará parte de sua vida.
No que será que está pensando? Não sai quase de casa, exceto para trabalhar, cortar o cabelo ou acompanhar os filhos quando solicitada. Eles fazem de tudo para alegrá-la, mas eu sei que isso não existe mais para ela: alegria, vontade de viver. Um dia por vez, repete sempre, como um mantra, para dizer como vive. Sem planos, sem querer acordar no dia seguinte. O sono é, para ela, imprescindível. Sono? O que é o sono senão uma forma de morrer todos os dias para ressuscitar no outro?
Anos se passaram, mas ela não pára de sofrer. Às vezes chora escondida, porque não admite sequer que a consolemos. Eu não a acho fraca. É uma mulher forte, guerreira, mas ferida pela vida. Minha esposa, minha mulher, ainda bonita, ainda cheia de mistérios que jamais desvendarei. Ela tem uma vida interior em que não deixa ninguém penetrar. Seus olhos falam e eu percebo isso. É nítido. Um olhar forte, cheio de incógnitas. Mas, ao mesmo tempo, ele fala, ele revela os sentimentos.
Ela é discreta demais, até nas roupas que veste. Discreta na forma de se relacionar com os outros. Tem bom-senso e odeia fofocas. Vive tão à parte desse mundo que temo que seja atropelada, sequestrada, que desmaie na rua. Sim, ela tem muitos desmaios e nem o médico sabe explicar o motivo. Já fez muitos exames e nada acusa. Ele diz que se trata de um estresse que tomou conta dela de forma definitiva. Portanto, não a aborrecemos. Ela desmaia se houver aborrecimento, numa situação grave, quando a pressão sobe. A pressão é outro problema. Sobe, mas é de fundo emocional. Eu sempre a levo ao cardiologista, único especialista que ela admite na vida dela, mas ele não descobre mal algum. É estresse decorrente do choque pós-traumático.
Tantas coisas ela enfrentou sozinha. Tanta luta para cuidar dos que ela amava. Tanta dedicação. E se esqueceu de que, no final de tudo, quem iria ter sequelas era ela, que não admitia procurar um psicólogo ou alguém que lhe receitasse calmante. Guerreira, corajosa, incansável, assustada, em estado de alerta o tempo todo. Só podia dar no que deu. Mas eu tenho uma parcela de culpa nisso tudo. Eu a ajudava, mas não fui leal. E isso ela jamais perdoará.
Quando a conheci fiquei encantado com sua beleza, seu corpo, sua inteligência, seu olhar e uma aura de mistério que a envolvia. Talvez uma versão menor de Clarice Lispector e de Ingmar Bergman, cheios de fantasmas que os atormentavam. Saudades desse tempo, onde já se percebia um rasgo de tristeza em seu sorriso, em seu olhar. Dizem que os que pensam muito sofrem mais. Pode ser. Ela não gosta de lugares cheios de gente, festas barulhentas. Música só o melhor da MPB, o jazz, o blues, o clássico barroco. Sim, ela tem muito bom gosto, além de ser muito discreta. Mas eu já disse isso. Fico me repetindo. Olho para o sofá e lá está ela, olhar distante, pensamento vagando por onde sequer imagino e lábios apertados. Não, não perguntarei novamente se está sentindo algo, passando mal, ou somente triste. Ela se irritaria.
Minha filha está chegando. Como são bonitos os meus filhos! E inteligentes como a mãe. Bem, se ela chegou é porque está na hora de nós irmos para a cama. “Oi filha!” “Pai, vamos para a cama, é hora de dormir”. “Eu estava aqui observando sua mãe com esse olhar distante, vazio”. “Pai, pelo amor de Deus, mamãe já morreu há tantos anos e você teima em não aceitar isso como uma verdade. Agora somos eu, você e meu irmão.”
É verdade. Ela se foi, mas eu não consigo olhar para aquele sofá e vê-lo vazio. Ela sempre estará lá. Ela e seu olhar distante. Acho que a minha culpa não permitiu que eu deixe de vê-la todos os dias, como antigamente.

19 de fevereiro de 2012, 23:59 horas
Emar
Enviado por Emar em 20/02/2012
Reeditado em 20/02/2012
Código do texto: T3508918
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Sobre a autora
Emar
Campos dos Goytacazes - Rio de Janeiro - Brasil
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