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Às vezes ele volta

Quando menos se esperava, a campainha tocou. Samantha levantou do sofá onde aproveitava seus raros momentos de ócio e abriu a porta. Não havia ninguém. Pensando que tinha sido só mais uma daquelas brincadeiras de vizinho, ela já ia entrando quando viu uma caixa aos seus pés. Embrulhada para presente.

Não pensou duas vezes: pegou a caixa azul, levou-a para dentro, pôs em seu colo, desatou o laço branco, abriu. Samantha ficou surpresa ao ver o que havia lá dentro: várias fotos, páginas arrancadas de agenda, desenhos, tudo embaralhado. Seguindo o instinto de curiosidade que se mexia dentro dela, pegou uma foto. Uma onda de gelo atravessou seu corpo por inteiro. Em suas mãos estava a lembrança de uma desilusão amorosa, um momento que ela queria esquecer e estava conseguindo. Por que diabos tinham que fazê-la lembrar?

A princípio ela queria jogar aquilo tudo de vez no lixo, mas resolveu continuar revirando o conteúdo da caixa. Sentou-se no chão, espalhou os papéis em volta de si e olhou-os um por um. Todo o seu passado estava ali, no chão. Todos os momentos divertidos, desesperadores, quando ela quis morrer e quando quis ser imortal. Tudo ali. Muitas coisas que antes não tinham a menor graça provocavam gargalhadas, já outras ainda traziam lágrimas aos seus olhos.

Como ela havia mudado... como as pessoas das fotos deviam ter mudado! O mundo inteiro estava mudando, e de repente aparece essa caixa com o seu passado inteiro. Por quê? Por que lembrar de tudo? Por que lembrar das coisas que machucam e que dá tanto trabalho para esquecer?

Ela não encontrou uma resposta. E talvez ninguém encontre. Até parece um sorteio manipulado: quando acham conveniente, colocam seu passado inteiro na porta da sua casa e você que se vire para lidar com as burradas que fez e não pode consertar; as pequenas mentiras que saíram do controle; as loucuras que fez por alguém que simplesmente não valia a pena... depois de um tempo, é capaz da pessoa achar que não foi ela quem fez tudo isso. Mas foi. A grande vantagem é que tudo que se fez vai parar dentro de uma caixa e dificilmente vai acontecer tudo de novo. A não ser que você seja muito idiota, ou azarado demais.

Depois de tudo, Samantha decidiu colocar suas lembranças novamente na caixa e colocá-las embaixo da cama. Aquele era o melhor lugar para aquilo que ela queria esquecer, e também para aquilo que ela quisesse lembrar de vez em quando. Quem sabe, daqui a mais alguns anos, outra caixa pare na sua porta? Quem sabe? Às vezes, o passado bate à sua porta...
Evana Ribeiro
Enviado por Evana Ribeiro em 19/07/2005
Código do texto: T35858

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Sobre a autora
Evana Ribeiro
Cabo de Santo Agostinho - Pernambuco - Brasil, 28 anos
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Evana Ribeiro