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Liberdade estética

Abre-se na cela um caminho estreito e listrado de luz que invade o rosto do prisioneiro 6.638. Acorda. Um emaranhado de trapos velhos aglutinados e cuidadosamente amarrados, semelhante  a uma almofada, repousava no chão frio e úmido. Ao lado, sobre uma espécie de cobertor cinza desbotado e puído repousava seu corpo esquálido e estaqueado  com o abdômen para cima. Ao abrir as janelas da alma, o olhar, ainda sem foco, contempla maravilhado a paisagem registrada por ele no teto. Era a sua realidade, sua verdade, sua vida. Fica estarrecido e  excitado como um artista a admirar sua criação. Sempre o mesmo teto, já amarelado, sujo e com “rios poluídos” (era assim que 6.638 chamava as infindáveis infiltrações do teto) próximos às cantoneiras de sua alcova. O olhar de 6.638 ganha foco e então se deleita com os novos vestígios de sangue, certamente seu. Sangue extraído de mosquitos que explodiram suas efêmeras, mas significativas vidas no teto comprimidas por densas trouxas de roupa lançadas como torpedos sobre seus corpos, esparramando sangue fresco e doce na tinta amarelada do teto. O prisioneiro era capaz de reconhecer os tortuosos caminhos entre uma mancha e outra de sangue, como as linhas da vida da palma de sua mão. Ele era capaz de associar fatos imaginários a cada uma das manchas. Ele as nomeava, conversava com elas, as ouvia, as sentia. Chegava ao cúmulo de aguardar pacientemente até que o inseto que se alimentara de seu sangue, estivesse em um local, cujo valor estético de seus vestígios fossem reconhecidos e de repente: “Pláfit”. Que maravilha! Mais uma criatura criada em seu universo. Mais um filho, sangue de seu sangue, literalmente. Era sua obra mais que perfeita, era da morte dos insetos que sobrevivia em sua medíocre humanidade.
Era assim que tirava vida de sua vida. Morte de sua morte. Não era mais um ser humano como os outros, não contava o tempo pelo tic-tac do relógio, nem tão pouco pelo nascer ou o  pôr do sol, contava o tempo pelas criaturas que surgiam a cada manhã em sua vida, pelas manchas avermelhadas do teto de sua cela. Porém, após vinte anos, como quem nada quer, um novo carcereiro, com a melhor das intenções, vendo a imundice da cela de 6.638 resolveu lavá-la. Escorreu seu sangue, limpou o teto, lavou sua vida, levou sua alma...
Marta Klumb Rabelo
Enviado por Marta Klumb Rabelo em 19/07/2005
Reeditado em 20/07/2005
Código do texto: T35864
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Sobre a autora
Marta Klumb Rabelo
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 50 anos
15 textos (915 leituras)
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Marta Klumb Rabelo