Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Morte consumada e morte vivida

 Custo a acreditar, mas é verdade... Hoje, algo que estava fazendo força para viver dentro de meu ser, foi brutalmente assassinado. Agora não sei o que fazer, estou com uma espécie de cadáver dentro de mim. Será que existe serviço funerário para esse tipo de morte.
Imaginem a cena:
- Alô, é da funerária que cuida de sentimentos mortos.
- Sim senhor, somos especialistas em retirar, encaixotar e enterrar sentimentos que morreram e não servem para mais nada.
- Se eu levar o cadáver até vocês sai mais barato?
- Não existe custo senhor, nosso pagamento é seu bem estar.

É evidente que a parte de não cobrar nada pelo serviço é pura ficção, desde quando alguém faz um serviço desses e não cobra nada. Eu cobraria!
Mas a questão não é essa, o fato é que tenho que retirar esse cadáver daqui. Tá começando a produzir mal cheiro, não por mim pois não sinto cheiro, mas pelos vizinhos que podem começar a desconfiar de algo.

"Estudiosos como Michel Vovelle concebem a morte de duas formas: a morte consumada e a morte vivida. A primeira consiste no fato bruto da mortalidade, cujo valor é difícil de ser apreciado, pois é determinado por vários referenciais como período histórico, localização geográfica, diferenças entre os sexos e faixas etárias. Já a morte vivida é a rede de gestos e rituais que acompanham o morto e seus familiares desde o percurso da última enfermidade até a agonia do túmulo."

A morte consumada neste caso não teve efeito muito drástico, mas a morte vivida...
essa sim vinha me atormentando há muito tempo. Todo o processo de desligamento que vem ocorrendo desde a última enfermidade estava sendo muito doloroso. Acho que na verdade essa morte que ocorreu aqui dentro tem um algoz. Eu mesmo. Sou o assassino que segurava a vontade e necessidade de matar pelo simples prazer da observação. Mas hoje a coisa foi diferente. Acordei, senti esse sentimento agonizante e sem pestanejar dei o tiro de misericórdia. E como sou o assassino, cuidarei sozinho desse cadáver. Assim não deixo pistas para a polícia e saio ileso deste assassinato tão terrível que cometi há menos de 1 hora atrás.
Jack Rocha
Enviado por Jack Rocha em 29/07/2005
Código do texto: T38637
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Jack Rocha
Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
12 textos (1694 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 10:28)
Jack Rocha