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O suave cheiro do ar...

A última lembrança que tenho de algum cheiro não estimulado quimicamente é de quando tinha seis anos de idade. Foi numa tarde de sábado, quando meus pais decidiram matar algumas galinhas de nosso pequeno galinheiro. Até ai tudo bem, pois cresci freqüentando fazendas de tios onde o início da festança era a matança do porco. Participei de três delas e sempre achei tudo aquilo muito divertido. O homem mais velho e experiente do grupo era escolhido para desfechar o golpe que mataria a pobre criatura. Logo após o óbito do bicho, o restante dos homens partia para cima do animal para começar a limpeza (inclusive eu que tinha apenas seis anos). Essas cenas nunca me assustaram, nem a cena da morte das galinhas. Acho que o problema começou quando meus pais resolveram tirar as penas das falecidas aves. No interior eles usam água quente para que as penas se desprendam mais facilmente e como meus pais eram de lá, faziam o mesmo. Só que nessa tarde inesquecível de sábado eles resolveram fazer isso na minha antiga banheira de bebê cor-de-rosa, que já estava aposentada há algum tempo e também foi usada por minha irmã. Ferveram uma panela grande de água e começaram a despenar as coitadas, eu me encontrava parado ao lado dessa cena e consigo lembrar até hoje daquele cheiro horrível que me causou uma lesão físico-psicológica que acabou de vez com meu olfato.
Demorei a perceber que minha falta de olfato provinha desse acontecimento, pois só fui tomar conta de que não sentia cheiro quando tinha uns quinze anos de idade. E só passei a me preocupar com isso quando tinha uns vinte e quatro anos. Acho que alguma porta no meu cérebro foi fechada naquele momento. Pois não tenho lembranças olfativas á partir dessa data. Procurei médico e terapeutas e o que consegui foram apenas alguns vislumbres de cheiros muito fortes como peixe e alho, mas não meu olfato, esse já está perdido há muito tempo.
Mas existe um fato que é muito interessante em tudo isso, meus outros sentidos são mais aguçados, menos o paladar, pois está diretamente ligado ao olfato. Minha audição é extremamente ampliada, escuta barulhos a uma distância incrível. Minha visão é ótima, mesmo trabalhando durante anos na frente de um computador, não falhou nenhuma vez.
E meu tato é extremamente sensível, fico excitado quando toco na pele de uma bela mulher, mais do que o normal, eu diria.
Acho que minha falta de olfato já não me incomoda mais como antigamente, os únicos momentos que lembro dessa minha deficiência física é quando algum amigo leva algo até meu nariz e diz: sente o cheiro! O que faço sempre é tentar sentir, quem sabe algum dia meu nariz pega no tranco e passo a sentir a existência dessa entidade invisível.
Jack Rocha
Enviado por Jack Rocha em 29/07/2005
Código do texto: T38638
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Sobre o autor
Jack Rocha
Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
12 textos (1694 leituras)
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Jack Rocha