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O Mensageiro

O MENSAGEIRO

Um homem caminha pela estrada sombra num passo singular, cadenciado e mudo. Tão sisudo vai que nem os gravetos secos estalam quando seus pés paquidérmicos as pisam, amassam e trituram. Vem de longe, numa caminhada mansa começada quando o dia ainda vivia. Vem sem pressa como quem conhece o caminho, o destino, a sina. Vem numa comunhão muda com a mata que vai se abrindo para sua passagem. Vem de tão muito que o molhado da calça, de quando enfiou-se até os joelhos no ribeirão, já secou, e os carrapichos das picadas, que brincaram de espeta-gruda em sua roupa, já ficaram no caminho. Vem só, pois aqueles pequenos animais, perdendo o medo ou o respeito, que o seguiram um tanto de léguas, já acharam que era mais que hora de voltar para suas casas. Está só, pois nem a sombra rastejante no chão há mais. Acompanha-o no lombo só o peso do mando, peso do dever, peso pesado feito praga de mãe. Só. E isto basta.
Leva com ele o revólver, azeitado, infalível companheiro, benzido e protegido por Deus e pelo Diabo, ideal para andar em mata fechada e para o serviço que vai fazer. A garrucha deixou na casa do coronel. Preferiu este irmão menor que a outra enrosca em galhos e na hora da precisão pode atrasar. Ela é tipo de companhia pra mira de longe, tocaia de barriga na terra, cano descansado sobre uma pedra, os olhos pacientes abrindo e fechando ora um ora outro pro coração aquietar e fazer o serviço bem feito. Agora não. O serviço é olho no olho e pra isso um revólver é melhor, mais rápido, menos doloroso, que sofrer, chegam as dores que carrega pela vida. Chega. Basta.
Quase chegando lá, empurra a porteira podre cai-não-cai, e como bom cristão, faz o sinal da cruz com uma mão enquanto com a outra espanta um boi perdido na noite a atravancar-lhe o caminho. Boi bobo, boi fora do curral, boi da cara preta que já deveria estar dormindo ou assustando sonho de criança e ainda ruminando matos crescidos na noite negra. O animal afasta seu enorme corpo, ágil demais para seu peso, assustado com aquela inesperada aparição, largando um punhado de bosta preta e verde no caminho. Ao homem que segue em frente, indiferente é a cor da bosta, do boi, do pasto. Para ele todas as noites são negras e basta-se o caminhar rumo ao seu destino.
Rompendo a noite vem um vira-lata ladrando boas-vindas ao recém-chegado. Estende a enorme língua mal contida entre os dentes sujos e lambe a mão do homem que lhe faz carinho na cabeça sardenta com as mãos calejadas. Não se conhecem, mas há uma hospitalidade por parte do animal em bem receber quem parece não oferecer ameaça. Ambos sobem as escadas cupinzadas. O animal fica na soleira enquanto o homem, arrastando seus passos de caminhante, entra sem pedir licença, sem dar sinal daquela chegança inesperada.
A luz de um toco de vela ilumina magramente a cabeceira da cama retalhada.
- Joaquim? - rasga o vácuo a mulher sob a colcha.
O homem se põe na luz que voz naquela hora deixou fora com as corujas que enfeitam as árvores e os mourões feitos anjos de presépio. Ela reconhece aquele que não conhece. Nunca o viu, mas sabe a que veio. Basta por hora o arrepio que não sabe se da noite de agora ou se do futuro.
Ela levanta-se com dificuldade no escuro e desenvolta vai até uma tosca mesa capenga de tábua comida pela faca e pelo tempo, como uma cega que não necessita de luz, pois passo a passo conhece a casa em que nascera e vivera palmo a palmo, inda mais uma meia água que com menos de três pernadas curtas, já se está ao relento.
Escuma com a palma da mão um punhado de pó preto, derrama água de sobra de ainda a pouco esquentada para o banho, no pano encardido e acrescenta dois tantos de melaço. Derrama o líquido preto e viscoso numa caneca amassada feita de lata de óleo e oferece:
- Pode tomar. Tem veneno não.
Bem capaz, pensa o homem enquanto sopra o vapor que lhe queima os bigodes de dentro do nariz. Café conchado nas mãos que tocaram as partes do coronel, que deram prazer ao homem forte que mandou acabar de vez com aquela que faz agora o café para ele... Sorve uma golada com pouco de nojo, mas para barriga vazia o dia todo, até que assenta manso. Quando vira a cara e cospe a borra que se prendeu na língua, percebe que o vira-lata está embaixo da mesa olhando para ele com dois olhos luzindo feito fogo fátuo.
Os olhos no negro da casa acostumam-se aos poucos e a mulher parece até bonita com aqueles cabelos longos, negros e soltos feito noite. Mulher tinhosa, teimosa que deveria estar prenha e não está mais. Talvez ele tivesse demorado demais na estrada, não era essa a mulher que viera procurar. Está magra e ele deveria era encontrar uma mulher gorda, barriguda, mas esta já pariu e ele não sabe o que fazer.
Um choro miúdo sai de dentro da coberta e lá está o que deveria estar nas entranhas. O pequeno se debate, talvez sinta o cheiro da morte que o estranho traz, talvez nem saiba ainda que está do lado de fora, na noite dura e áspera feito esporão.
Indiferente à presença daquele estranho em sua casa, a mulher põe um seio, enorme e cheio de leite, para fora e oferece ao que chora. Não joga sequer um paninho, uma toalha para cobrir a vergonha, como sinal de respeito pelo homem e pela criança como fazem as mulheres direitas. O homem vendo aquela cena no tremular da vela aperta o revólver na algibeira com força tamanha que os dedos doem. Tem razão o coronel. Tem razão. Um homem tão bom como aquele que até bicheira de vaca cura com as próprias mãos para não deixar o animal morrer, não podia unir sangue com uma vadia daquela. Justo que em idade pouca, é até normal se perder por caminhos novos e ele estava ali para devolver-lhe a rota, corrigir.
Em pouco o menino volta a dormir. Ao pequeno basta este aconchego de momento. A noite, a morte, o sonho e os pesadelos, mais, só mais tarde.

A mãe coloca-o sobre a cama e, agora sim, põe um xale para protegê-lo do frio. Ela limpa o bico do seio ainda respingado de gotas brancas com o pano da própria roupa que veste e guarda-o para dentro do vestido. Cumprida a tarefa de mãe, olha para o homem que no escuro espera para cumprir seu papel na vida. Não sabe por que, mas agora ele tem pressa, muita pressa antes que as lágrimas sem entender e sem serem chamadas brotem aos seus olhos. Adivinhando a dúvida, a mulher vai a seu auxílio. Pega-lhe pela mão como a guiar uma criança e leva-o para o terreiro onde ela escolhe o lugar onde quer morrer: ao lado do moinho, entre o poço e o curral olhando para a tuia onde tempo atrás o coronel e ela se perderam entre sacas de café e milho. E é olhando nos olhos que olham que o homem atira. Só uma vez que o segundo tiro quem dispara é quem é mau de mira. Ele não. Um tiro sempre foi a conta. E basta. Um homem caminha pela estrada sombra num passo singular, cadenciado e mudo, tão calado que nem os gravetos estalam sob seus pés paquidérmicos. Um vira-lata sarnento o acompanha pouco afastado. Acelera o passo o homem. Ele precisa chegar cedo, antes do fim da noite, mesmo que para isso tenha que cortar caminho por pastos alheios, charcos e carrapichos. Tem pressa como nunca teve. Quer chegar à soleira da casa do coronel, colocar o embrulho chorão no chão, pega que o filho é teu, coronel Joaquim, e depois ganhar mundo que o resto o destino arremata. Nem ia ficar pra pegar de volta a garrucha. O coronel que desse ao menino que um dia ele vai aprender a atirar e que seja bom de mira para que só com um tiro lhe acerte a conta da vida. Um tiro. Basta um tiro. Basta. Basta.
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Do Livro Contos sobre cães, cavalos, homens e outros seres inexistentes, de Eugenio S. Asano.
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Despachamos para todo o Brasil.

Obras do autor, todos de conto:
Incidente em Vila de Fátima
O Crachá
O Papagaio que sabia o Hino Nacional
Assobiando Ray Conniff na escada de incêndio
 
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 31/07/2005
Código do texto: T39168
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
9 textos (340 leituras)
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