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Química orgânica

São quase seis da manhã e eu não dormi nada. Sofro de insônia há algum tempo, desde a infância pra ser sincero, teria começado logo após o falecimento de meus pais ou do suicídio de Joana, reza a lenda. Minha cabeça dói como se tivesse sido palco de alguma esquizofrênica festinha particular – insônia causa alucinações – fruto de meus medicamentos talvez. Mas que lembro de festa, lembro. O cheiro entranhado no nariz, cheiro de caipvodka, cigarro e papo-furado, essas coisas. A cabeça dói, dói, dói. Tenho compromisso hoje? O quê? Tem a ver com tradição, não que eu não seja de mantê-las, mas é difícil lembrá-las. Visitar o túmulo de Joana. Número uno. Acredito que não seja isto, até porque está marcado no calendário, em vermelho, o dia de sua morte. Ela morava no mesmo corredor que nós e, no bojo, tem um quê de trágico assistir sua vizinhazinha de doze anos estatelada como um pedaço de carne.  Não nos dávamos muito bem a princípio, arredios, os dois, nos permitíamos menos que olhares. Bastou que um gato morto despertasse a atenção da molecada do prédio para que nós, enfim, iniciássemos o esboço dos traços que viriam então, nos desenhar – mais nítido ela, vendo seu fim.

Também o que esperar de uma dupla que se divertia promovendo – celebrando, hoje enxergo –, fazendo vivisseções em animais pouco convencionais do bairro. O poodle da D.Maria foi um dos primeiros a receber nossas dolorosas intervenções. Como era chato o cachorro. Que o digam os bigodes e as sandálias de Titio. Latia justamente no horário nobre, no momento em que ele assistia o noticiário e jantava, tudo ao mesmo tempo, já que: “Um homem informado é um homem preparado” (?). Pom-pom. RG do poodle da D.Maria. Com direito a árvore genealógica, pedigree e sobrenome pomposo de duas linhas, cortesia de um canil amigo.

Começou tudo com um presente, que serviu como estopim para que as coisas rumassem ao todo final, tendo como ponto máximo nossa crueldade de crianças nascidas  ruins – e isso é fato. Aquela história do ovo gorado, do: “Deu pra ser mau... É de nascença... tem jeito não menina...” Por aí. Joana sofria de acessos, ataques, era epilética, aprendi rápido. Foi um kit de ciências - o tal presente - desses que vêm com os produtos, fórmulas, tubos de ensaio e tudo o mais, com o objetivo lúdico e nobre como os horários de Titio de introduzir e despertar o interesse pela química. Daí pra virar matéria-prima de sonhos e ocupação para uma garota problemática com família desestruturada, e prum garoto sem pais, desolados de marasmo, ambos, e criado pelos tios, só eu - a tempo de saber que: esse reage com aquele, aquele com o outro, e barbitúricos e experiências com analgésicos, e nosso gosto de não gostar de nada, foi um pulo, um salto, um passo para nosso maior momento ou “o início do fim” -, só poderia dar merda né?

E o latido esganiçado atazanava a alma de Titio e, por tabela, minha própria, uma vez que acabava com a paz de jornal das oito que tínhamos. E bigodes, chinelos, e feijão com arroz e bife. Aos domingos macarronada, frango e salada, uma ida ao parque e só. Joana tinha lá também seus problemas, que eram mais graves, dadas as circunstâncias que a cercavam e encerravam seus sérios desvios de personalidade. Daí pro formaldeído e clorofórmio e requintes cada vez mais elaborados: foi rápido. Então tudo certo.

Era domingo. Dia em que todas as donas-de-casa encontram-se na feira, preocupadas com seus legumes, verduras e receitas trocadas à experimentação. O latido soprano de Pom-pom ecoava. Ele estava na área de serviço, irritante e saltitante como é típico da raça. Tinha uma altivez, dissipada em toda sua inconveniência e desafetos gerados. Conseguimos entrar graças a uma desculpa esfarrapada criada por Joana – ninguém resistia aos seus cachos castanhos e aos olhos grandes de menina, puro disfarce, menos ainda, Tobias, o porteiro pedófilo. Uma cheirada no preparado levado por nós e Pom-pom, sem titubear, caiu duro, semidesacordado, mas consciente, do jeito que queríamos. Na bolsa que trazíamos conosco, além dos apetrechos químicos, estavam um cutelo, facas, e um barbeador para a retirada do excesso de pêlos.

A primeira incisão percorreu de ponta a ponta seu abdome, deixando à mostra, para nós e para ele, que a tudo observava com uma cara idiota, toda sua beleza interior – D.Maria teria adorado. Depois passamos para o cutelo. Nós, criativos, havíamos levado um mapa pra cortes bovinos, daqueles com um boi todo costurado: “picanha, alcatra, filé mignon...” Primeira. Segunda. Terceira cutilada. Aí perdi a conta, e notei que aquilo dava mais prazer à Joana, claro que eu estava em uma cruzada particular e cheia dos ideais nobres, remetendo sempre a Titio e minha paz, apesar de ter aquela pontinha de satisfação masoquista como a de coçar um machucado ou a de espremer um furúnculo, a despeito da dor causada, sentida. Ademais, eu tocava o foda-se mesmo e queria ação e, não vou mentir, foi bom mandar aquele cão pro inferno. Agora, comparar ao regozijo de Joana, não dá.

Nunca fomos descobertos. Muitos outros depois serviram de cobaias para nossa relação doentio-bizarra com o mundo animal e para com nossa amizade. Até o dia em que ela veio com um papo de novos horizontes e expansão de domínios, e eu achando que se tratava de outro bairro, já que em outros prédios do condomínio nós já atuávamos, mesmo que a verve inicial tivesse sido perdida e tal, e o processo todo ser mais um vício mesmo – a essa altura nossa aventura química já passava de cheirar éter.

Ela queria mais. Ela falou em espécime humano. A vítima ideal: um garotinho cuja família era de São Paulo, acho. Eu disse que não, que ela tava viajando. Aí ela chorou e ficou louca, esperneou e simulou convulsão, e eu conhecendo-a bem e acostumado a todo o gênero, caguei. Fiquei em minha indiferença forjada em anos de horários nobres e passeios esparsos. Pra minha surpresa, ela parou com o primeiro ato e se recompôs, foi ao banheiro e voltou com a caixinha de remédios, tão íntimos nossos. “Tô com um antiinflamatório aí, que dá uma ondinha... Vamo tomá?” “Bóra”. Respondi sem imaginar no que daria, sem cogitar ser este aquele momento em que a lona, o véu do tempo, do espaço continuum, ou seja lá a merda que a metafísica diga, se rasga, e as bifurcações que surgem, dependendo da escolha, têm uma importância crucial no porvir.

Dessa vez ficou pior, disse que se matava, deu com a cabeça na parede e falou que me amava. Só cena, pensei. Louco de remedinho, eu só olhava pros botõezinhos de seus seios pré-púberes, que se revelavam por baixo da camiseta branca, fininha, com o Mickey e a Minnie estampados; novamente ignorei, e fiquei calado em minha viagem dormente, transbordando comprimidos odontológicos. Ato dois. Ela deixou o palco e foi à cozinha, pegou o cutelo e começou a se mutilar em um frenesi macabro, cada golpe levava um naco de carne considerável, já que o cutelo era mantido afiadíssimo e utilizado só para partir ossos. Um a um, pedaço por pedaço, ela se cortou, até que a sala estava coberta de sangue: hemorrágico, coagulado, apaixonado, insano. Eu não podia acreditar e, além disso, estava completamente chapado, e fiquei ali atônito, quando, de repente, em um estalo, tomei o cutelo de suas mãos e finalizei sua agonia, do auge de minha maturidade de treze anos. Eu lhe devia isso, em algum ponto onde convergimos nisso. O ocaso de Joana.

A vizinhança, sem conhecimento do que se sucedia há um tempo, ficou feliz ao ver o fim do desaparecimento de seus mascotes e, presumivelmente, chocada com o destino da filha da moça do 702.



Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 09/08/2005
Código do texto: T41361
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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