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15 minutos

Gouveia pega o metrô como sempre. Atrasado. Raridade, quase um monge de tão rígido.  Desde menino. Há quem discorde, padrões inalcançáveis. “Esse garoto não serve pra nada!” – Mamãe cansou de repetir, exaustivamente, um mantra. Na empresa, não é chamado de doutor, com sua imagem, assim como a dos serventes, invisível. Colegas do mesmo andar o chamam de... Não, não o chamam, essa é a verdade, quando muito acenam ou fazem meneios de cabeça a dar entender de que falta entregar tal e tal mercadoria. É o chefe da expedição. Vinte anos de labuta suportados com dedicação e um pouco de pasmaceira também, perfeito conformado com os conformes, Gouveia. Envia e recebe, assina, dá baixa, bebe cafezinhos e conta as horas. Não se queixa do serviço. Conhece bem a rotina, direitinho, consistente prestando bons serviços.

Uma vez, Roberto – este sim doutor –, o vice-diretor, mandou-lhe em nome da empresa, uma carta com bônus de gratificação anexado, pelo bom desempenho do setor pelo qual é responsável. Continha um texto elogioso, destinado ao “Sr. Gonçalves, colaborador responsável e produtivo...” Pois é.

Depois do metrô, são mais vinte minutos sacolejando apertado entre gordas senhoras bancárias e tagarelas atendentes de telemarketing. Desce da van e caminha compassadamente, marcando o ritmo nas pedras portuguesas de diferentes notas, alturas, a perder de vista. O relógio, noutra cadência, o lembra das horas a esvaírem-se, o pouco tempo, horários a cumprir. Praticamente não pensa no trajeto, o faz, e evita aperceber-se de qualquer acontecimento. Sua mente funciona de maneira singular - lembranças de colégio, sua carteira no fundo da sala, seu tamanho destoando do resto da turma.

No caminho, lá ao longe, avista um pequeno tumulto, pouco comum nesse trecho. Arredio, vai se aproximando com curiosidade, pois da calçada em que está, não se tem a visão das câmeras de televisão reluzindo no fraco sol de inverno. A equipe de jornalismo de algum canal busca o melhor ângulo para a captação de imagens. O alvo: Uma antiga edificação, patrimônio histórico, que se encontra em total abandono. Gouveia decide se aproximar, um sinal de comprometimento. Televisão é seu ponto fraco. A magia, a luz, o silêncio de sua casa quebrado por anúncios de margarina com famílias perfeitas, o timbre grave das vozes dos apresentadores de telejornais, o colorido dos desenhos animados – ele adora isso.

Os repórteres cada vez mais perto. Não presta atenção neles, o foco nas câmeras. De tão entretido esbarra na carrocinha de cachorro-quente, derruba ervilhas, batatas, guardanapos. Não pede desculpas, o olhar fixo. É acordado de seu transe:

- Senhor, senhor! – o repórter atrás dele.
- Hãããã...
- Nós estamos fazendo uma matéria sobre o descaso com este prédio, aliás, de enorme importância para a cidade e...
- U-hum.
- Gostaríamos do seu depoimento. O senhor passa por aqui todos os dias?
- U-hum.
- Alguma vez viu veículos da prefeitura por aqui?
- Hã... Acho que não.
- Antes de começarmos a gravar, preciso de algumas informações básicas.
- U-hum.
- Qual o seu nome?
- Eustá...
- Como?
- Gouveia. Eustáquio Gouveia.
- Qual sua profissão?

Neste momento, como se todo o espaço temporal congelasse, Gouveia tem um lampejo de lucidez, um rompimento de sua apatia natural, e vê toda a situação nitidamente, um terceiro espectador da conversa, alheio, porém presente, presente de espírito. Sua grande chance. Responderia que é chefe do setor de expedição de uma média empresa? Isso é que não. Com mãos de pinça como a dos alpinistas, agarraria esta oportunidade e escalaria em busca do cume de seu orgulho perdido, nunca antes tão perto. Pudera Mamãe o ver neste instante, tão certo de si, a vida como um cartão-postal, os pássaros a cantar, as flores desabrochando, tudo mudaria, ela veria só. As novelas realmente existem na vida real, sempre confiou. O quê senão um final feliz o que ele agora tem a oportunidade de protagonizar? O destino resolvera presenteá-lo. O telejornal de canal pequeno, pouco conhecido, poucos espectadores. Quem se importa. Seria eternizado entre as molduras de polímeros, entre os transistores, circuitos, pontos luminosos, irradiariam suas ondas, seu eu mais íntimo diluído em emanações eletrônicas, invadindo lares...

- Hããããã...
- Sua profissão, senhor...
- Sim... Claro...

E daí, como fará agora para apreender informações que chegam inundando seu cérebro? Sabe ele esta ser a chance de ser o que se quer ser, apesar de isto ser um pensamento, até então, intocado. Inalcançável para seus padrões de desprendimento e alienação por vontade própria, assim, por acaso. Segundos preciosos processando a resposta e correndo o risco, à beira do abismo, outro podendo ser escolhido.

Toda a exclusão sofrida durante a infância, a única namorada – traidora, “nunca serviu pra você”, dizia Mamãe -, a ausência de amigos, as partidas de futebol em que era deixado de fora – tudo seria passado remoto. Na empresa: boa recepção; no bairro: participação. Mulheres, poder, seus devaneios iam além da realidade. Finalmente sua hora chegara, ele merecia, claro.

Pensou tanto que o repórter desistiu. Quinze minutos de espera, mais que suficiente.








 
           
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 17/08/2005
Reeditado em 22/08/2005
Código do texto: T43197
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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