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Excentricidade

EXCENTRICIDADE

Nasci de sete semanas. Ainda não tinha uma formação estruturada quando aventurei por a cabeça no mundo. Vim ao mundo simplesmente - nascimento da impossibilidade.
Sexo feminino, olhos fundos e claros, percebi que não seria razoável imaginar que teria algum papel de destaque. Em pouco tempo, meus nãos movimentos, meus nãos pensamentos, meus nãos realidades foram misturados com tudo que é abstrato...
Simplesmente, esqueceram que não nasci, ou lembraram que nasci de sete semanas... Talvez não consiga verbalizar, mas certamente a sensibilidade do leitor já adentrou no âmago dos meus questionamentos.
- Não chore por mim leitor! Nunca compartilharei suas dores, sou a impossibilidade de retribuir...
Consegui desgarrar-me do corpo com facilidade. Deixei a carcaça no mundo para me preocupar com o que é essencial. Deixo algumas propensas vivências em suspenso pela impossibilidade de voltar à origem e gozar... não sentir o que germinou o gozo.
Nem pênis, nem vulva... Sombra de um corpo emoldurada num futuro nome. Talvez tudo se repita, talvez simplesmente se extinga... Nem corpo, nem alma... Sombra de uma consciência.
- Talvez antecipe os passos!
Impossibilidade, nome registrado... Sou o que identifico. O nada está além de percepções vulgares. Sou mais do que se realiza, pois nunca poderei e sempre estarei presente enquanto outros se ausentarem.
Gozo em saber que o leitor se acumplicia do personagem, mas deixemos de sentimentalidades. Não cheguei ainda neste plano.
Fui apenas embrião de alguma coisa. A morfogênese não se completou e assim de sete semanas sem ter desenvolvido forma nem estrutura do conjunto dos meus órgãos vivos, fragmentei-me no mundo como origem de uma impossibilidade.
O ventre que me gerou não me sentia propriamente.
- Morri no mundo! Eis me aqui!
Pulsa a veia de uma suave ironia, rio colore meu riso nervoso, sinto sussurrar, no espaço que não ocupo, as suaves orações de uma missa de intenção. Entregam a alma para Deus... Devolvem-se a inocência.
Veias e nervos fragmentados. Deus não quis...
- Nasceu de sete semanas. Declarou a matriarca octogenária.
Havia uma evidente contradição entre a irrealização e suas excentricidades. Vestia o luto próprio dos inconformados e ria-se por entre dentes distantes, disfarçando a ambigüidade.
A velhice abortou a loucura. Ninguém imagina que o absurdo ganha forma e estrutura em tais entranhas. O ventre fértil ainda goza suas doidices. Poucos a ouviam delirar perdas. Dentro das rugas, mora um lobo disposto a matar a fome de sua esterilidade.
Os jovens que se protejam de tal instinto, choram vivas mortes apiedados de si, enquanto o centro apodera-se da dor, despertando seus desgostos em imagens projetadas.
Ela me percebe, ainda que impossível, e eu a vejo se realizar nas impossibilidades alheias. Balança nas mãos o terço de preces, roga que anoitece para as sombras desaparecerem. Ela não pode conviver com o que não manipula.
Sinto que se esconde na obscuridade, enquanto tento me buscar em representações da minha não natureza.
- Sou apenas uma sombra suspensa no escuro.
Permaneço em fragmentos, tentando destacar o quanto a decrepitude se constrói de mortes e como tece a mortalha da vida. Assusta-me quando tenta agasalhar-me, aquecer-me com a vivência perdida no tempo... O medo me enruga de vividas mortes.
Ela torna a dizer, executa meu nascimento, reproduz o significado...
O lobo a ermo assopra as habitações, desaloja-os da serenidade. Eis a maturidade da perversão a soprar-lhes a face, a ranger-lhes os dentes. Eis que todos se acomodam e acobertam seus devaneios.
Submissos à experiência, respeitam as realidades!
Sete semanas desabam em sangue. Talvez o fim esteja presente no calor do ventre... Talvez...
O acaso germina a semente, solo fértil disposto em ciclos incompletos. Lua minguante. A espera da colheita aborta em mim. Sete semanas de uma negação.
A experiência não me contamina, não conheço a realidade.
A mulher sangra fragmentos. Chora a possibilidade morta no mundo. Em luto, desnuda os seios ressequidos, entrega-se ainda com o corpo ressentido.
- Nasceu de sete semanas. Cospe a verdade com olhos de realidade a octogenária.
Sorriso tímido perdido em rugas. Olhar rígido encontrado no desafio do tempo. Ela me percebe mesmo que impossível, compreende que sou o entardecer de um dia cinza, sem brilho, sem sombras.
A velhice amadureceu o conhecimento. Trouxe a possibilidade de concretizar a perversão como se fosse uma frágil tentativa de atingir o abstrato. Os sentimentos destruídos abortam o futuro, a juventude se rende silente aos devaneios.
- As tradições vencem a lucidez...
- Os inocentes não percebem o perigo das vivências cristalizadas no tempo. A velhice é traiçoeira.
Nasci de sete semanas. Longe do tempo esperado de gestação, ainda não tinha a formação estruturada quando aventurei por a cabeça no mundo. Vim ao mundo simplesmente...
A mulher sangra a emoção, deixa ir ao mundo as cores das entranhas. Tenta resgatar ao céu aberto a vida que deixou embrionar de seus questionamentos mais íntimos.
Sou o que restou de um eu ainda não constituído. Desnudo-me de qualquer corpo para me entregar às incertezas.
A octogenária repete para si "Nasceu de sete semanas". Repete até adormecer sob o luto que impõe ao mundo, enquanto a mulher repete a exposição da intimidade, despertando de mais uma noite.
Sexo feminino, olhos fundos e claros, percebi que poderia me constituir em palavras, protagonizar minha ausência, preencher a narrativa...
Inventar-me a vida, afinal, quantas não são ficções! Sobreviver na polaridade das minhas contradições. Tentar descobrir-me no que poderia...
- Sou a personagem!
Impossível definir o que sinto, pois tudo é narrativa. Observar-me na descrição de cada ação, calar-me no silêncio de reticências, gozar a cada entrega, seduzir o leitor, abandoná-lo e rir por entre dentes incríveis das reações que provoco.
- Não se antecipe leitor. Não sabe ainda como irei abordar-me...
Confesso que não tenho compromisso com a moral. Os sentimentos não estavam formados quando fui desentranhada.
Leitor não interdiga meu pensamento. Não tenha restrições aos meus descompromissos. Precocemente coloquei a cabeça no mundo e nunca mais consegui me libertar dessa recordação. O princípio foi sublinhado na apresentação da narrativa. Ainda não sei como irei desenvolver, como incorporarei a maturidade da octogenária para dispor sobre a perversão sem ser condenada. Não quero me concluir, não tenho formação para finalizar a narrativa.
Sexo feminino, olhos fundos e claros, começo a me escrever: Nasci de sete semanas...

Helena Sut
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 19/02/2005
Reeditado em 13/05/2005
Código do texto: T4768
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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