PONHA-SE NO SEU (NO MEU OU EM QUALQUER) LUGAR!

Você acorda e os olhos veem seu primeiro céu: o teto do quarto. Permanente e inviolavelmente branco. Antes de pular da cama, para a importância do dia, o ritual do despertar exige que se faça a oração matinal. Você faz uma persignação e professa sua crença apenas para os próprios ouvidos: “– Nada deve estar diferente, porque nada está por vir”. Certifica-se de que tudo está onde sempre esteve, e suspira de alívio. É confortante! Nada mudou de ontem para hoje. Nem de anteontem.

Há séculos entre os mesmos lençóis, vivendo nos limites das mesmas paredes. O mesmo lugar à mesa. Repete as rotinas com mãos amarradas, “– Mudar o quê? Pra quê?” Está “tudo dominado”! Seguro. Você sabe exatamente onde está cada alfinete daquela casa. A quantidade certa de água que cada vaso de planta absorve por dia. Tem de tudo um pouco e não é de muitos caprichos. Não sabe o que é viver sobressaltado. Quaisquer riscos você os contempla pela televisão; se estão se aproximando é só desligar o aparelho. E como você tem o controle dos seus horizontes – o poder sobre as janelas e portas que dão para a rua – então, a terra gira afortunadamente e nada mais importa.

No trabalho também não há surpresa. Ou melhor, não pode haver. Você faz parte de uma cadeia produtiva, com criaturas antes e depois de você; por isso nem pensar em desviar dos trilhos! Você é automático. Está sedimentado. Preciso no que executa. Previsível. E isso é bom para todas as partes.

Não sei quem, mas alguém disse que: “o louco quando dá conta de seu desequilíbrio, fica absolutamente bom”. E é fato!

Um dia, sem querer, você percebe que as lágrimas – as suas – não embriagam mais os olhos, os seus! E que seu anjo, cansado de posar tal e qual o “Pensador” de Rodin, resolveu tocar o sino. Então você corre e... com o cardiologista está tudo bem, seu coração continua batendo satisfatoriamente! O endócrino diz que a gordurinha a mais está em paz, nada preocupante! Com a saúde mental nenhum problema, ou seja, sobre sua cabeça há um céu de brigadeiro!

“– Ufa! Que alívio!” Certamente alarme falso, coisa sem significado. Melhor assim! Acha até engraçado ter se preocupado à toa. Afinal você é um panglossiano convicto, vive “no melhor dos mundos possíveis”; sempre citando o “otimismo beato” do doutor filósofo: “...se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar em outra parte. É impossível que as coisas não estejam onde estão. Tudo está sempre bem".

Pois é! Mas eis que o anjo bate o sino pela segunda vez e... “– Mas que diabo é esse?” Coisa irritante! Você fica se perguntando sobre as razões que ele teria para fazer isso, e arrisca um palpite: “– Vai ver o Querubim adoeceu! Só pode ser!” Será? Ele pode perfeitamente estar pensando a mesma coisa a seu respeito, que quem está doente é você.

Surpreso? Pois não deveria. Vamos à prova. Você tem reparado as clematites no jardim? Percebe se o comportamento delas anda assim, digamos, melancólico? Se admitir que é desse jeito que elas estão, fique atento. Se você continua enxergando sempre as mesmas cores e formas, as mesmas distâncias, sentindo os mesmos perfumes, cuidado! É outro sinal. Se o sino percutiu duas vezes e as badaladas lembraram uma espécie de réquiem, então alerta geral. O resultado é que sua vida pode estar fluida, sem densidade, destituída da força da gravidade. Pasteurizada. E você não está se dando conta disso!

Não percebemos, mas ficamos cansados de destilar sempre as mesmas impressões de tudo e de todos; porque nenhuma validade é para sempre, perpétua. Por isso carregamos um “átomo primordial” – uma espécie de célula inconformada – capaz de provocar um big bang dentro de cada um. Nenhum mortal sabe exatamente onde esse “incômodo” se localiza: se é na cabeça, tronco ou membros; justamente para ninguém se sentir tentado a extirpá-lo. Sabe-se apenas que ele existe e que um dia, fatalmente, se manifestará. Como parece estar se manifestando agora em você. Mas nada de pânico! Pode ser apenas sintomas de que você esqueceu coisas pela estrada, foi deixando pelo caminho o que era precioso e essencial. O que se conquistou não se descarta, se supera. Você pode permanecer na sua galáxia ou explorar outras.

Talvez seja o caso de alguns resgates, porque provavelmente você desaprendeu de brincar. Não brinca mais nem consigo mesmo.

E um desses jogos interessantes é fazer como aquele grego, Téspis, que um dia lá por volta de 600 a.C., cansado de tanto praticar a mesmice, mexendo com a pele de um animal, resolveu se disfarçar, fingir ser alguém que não era. Fez uma máscara, enfeitou a cabeça, subiu numa carroça e proclamou para quem quisesse ouvir: – “Eu sou Zeus!” Pronto. Estava descortinado um novo mundo para o homem: o teatro ou a capacidade de ver o mesmo mundo, com olhar diferenciado, com o olhar do outro!

Mas ninguém precisa subir numa carroça, nem cobrir o rosto para ser e ver através do outro por entre formas prismáticas. A brincadeira é simples, é só dizer para si mesmo, por exemplo: – “Eu sou um rei”. E você passa a ver as coisas como se fosse um rei. Dia seguinte você muda e brinca que é um guerreiro, o mundo e as pessoas passam a ter um outro sentido. Depois você resolve que é um gnomo... e assim estabelece uma galeria infindável de personagens, porque essa brincadeira não se esgota, não se repete, não cansa.

Tenho quase certeza de que o dia em que Téspis se investiu na figura de Zeus, estava folheando um livrinho de verbos para saber o que dizer além de se anunciar como deus do Olimpo. E nada me tira da cabeça que ele estava na página do erre, conjugando verbos que alertam sobre muitas coisas e que são ótimos para a brincadeira do SER o OUTRO, como: reavivar, reatar, reconquistar, reconstruir, reflorescer, reciclar, recomeçar, renascer, rebrotar, reencontrar, renovar, refundir, religar... Vamos brincar?