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Dia dos Namorados


Contrariando o domingo, ela levantou-se cedo.
Além de ir ao cabeleireiro, à depiladora e à manicure, faltava ainda buscar o presente: um tênis raro, aquele que, quando foi tirado de circulação, causou ira na comunidade jovem masculina.
O namorado ia gostar do presente; deu um trabalhão danado para achar, ainda mais no número dele, 36, um pé de menina o do homem da sua vida. Ela teve que importar da Argentina, pagou caro e esperou muito, mas valeria a pena. Ah, e como valeria a pena! Pensava ela, enquanto se olhava no grande espelho do quarto, e antevia a reação do namorado ao rasgar sem piedade, como boa criança que era, o embrulho bonito.
Melhor embrulhada estaria ela em seu vestido novo e, talvez, quem sabe desta vez, ela deixasse o namorado, como bom homem que era, desembrulhá-la também.
É quando a mãe bate à porta, chamando-a para sair. A menina vê seu rosto ruborizar: uma vergonha ser surpreendida pela mãe em meio a pensamentos tão impróprios para sua idade. Admira ainda mais uma vez seu corpo no espelho e pode jurar que ele se faz mais belo a cada instante. Então, enfia um vestido de flores desabrochadas pela cabeça, e sai assim, sem roupa debaixo, prenunciando no dia a ousadia da noite.

Ele acordou tarde.
Estava de bom humor e agüentou paciente as brincadeiras do pai e do irmão sobre o dia que se iniciava - para ele, já na metade. Tomou café com leite, sob protestos veementes da mãe, que insistia para que ele almoçasse de uma vez, e sentou-se preguiçoso na sala, perguntando quem estava em primeiro. Responderam que era o carro vermelho-fogo do brasileiro, assistiu ao carro liderar duas voltas e rodar na terceira; “ta vendo, foi só você chegar”, disseram o pai e o irmão. Ele aproveitou a deixa e levantou-se.
No quarto, olhou para o presente ao lado da cama: um perfume sofisticado. Estava orgulhoso do pacotinho, que custou meses de economia, mais uma forcinha da mãe.
Difícil para um homem escolher uma coisa tão sofisticada e feminina, ainda mais para um homem de pouca idade como ele. Por isso mesmo, não tinha hesitado em engolir o orgulho e pedir ajuda a meninas de antipatia tão grande quanto bom gosto. Foi humilhante, mas conseguiu: tinha ali, ao lado da cama desfeita, o presente perfeito.
Sorriu, abriu a porta do armário e olhou-se no espelho. Ousou achar-se bonito, mas logo se assustou com a própria vaidade. Saiu do quarto espaventado e viu o alemão ganhar a corrida.

Ela voltou da rua, entrou no banho apressada, saiu cantarolando, colocou um vestido novíssimo, a meia calça e só; “a calcinha ia marcar” justificou para si mesma. O cabelo, que não molhou no banho, ainda exibia a beleza de quando foi cortado e os cachos domados não esboçavam qualquer tentativa de rebelião. Estava realmente bela quando apanhou o presente. O taxista notou (e comentou), enquanto ela se sentava devagar para não amassar o vestido.

Ele demorou-se a fazer uma barba quase imaginária. Se queria a pele lisa ou só justificar o uso da loção pós-barba não se sabe. Colocou a camiseta, a calça, levou muito mais tempo do que o de costume para amarrar os cadarços. Depois escutou um pouco de rock pesado e ficou olhando para o embrulho do presente, esperando a hora chegar.
Cansou-se de esperar, apanhou o pacote e saiu: a caminhada mataria o tempo para ele. O pai estranhou a dispensa da carona, mas preferiu assistir ao resto do jogo a questionar a decisão do filho.

Chegou à praça, feliz. Logo viu seu homem que balançava uma sacola, encostado no coreto. Ela andou com passos largos e o abraçou apaixonadamente. O namorado estendeu-lhe a sacola de marca famosa e assistiu a ela abrir o plástico e rasgar o embrulho para encontrar uma blusinha, dois números maior, afogada em papel de seda. “A moça falou que se não servir...”, disse o namorado, e sugeriu que se apressassem, para não perderem o filme. Seu embrulho abriria depois.

Sentado na fonte, ele já esperava há meia hora quando a namorada saltou do ônibus. Vinha chacoalhando uma grande sacola e parecia um pouco aborrecida. O presente chegou alguns segundos antes dela. Ele o abriu, rasgando o papel, e viu aparecer uma camiseta toda estampada, certamente apertada e que lhe causou certo desconforto visual. “É daquela loja nova, mas se não gostou pode trocar”, ele ouviu e colocou um sorriso dolorido no rosto, vendo sua amada descolar, cuidadosamente, a fita adesiva da caixinha e abri-la só o suficiente para o rabo do olho poder entrar.
“Ah, brigado, o perfume que eu queria”, a namorada disse, e puxando a mão dele: “agora vamos que se não a gente perde a sessão”.

Tão baixo andavam os olhos dos dois que acabaram por se cruzar em frente ao cartaz do disputado filme. Em poucos segundos perderam-se, na confusão da entrada, na vergonha do desejo ou na inadequação do dia, mas foi tempo suficiente para fazê-los passar o filme a perseguir vultos, na esperança de que o rosto do outro se tornasse evidente no tremeluzeio da tela.
Não se viram mais.
Tivessem oitenta anos ou fossem poetas românticos, teriam se matado. Mas eram jovens de prosa; foram para casa, guardaram os presentes e escreveram o mesmo conto, sob luzes diferentes.


(anteriormente publicado no site: www.releituras.com.br)
Pedro Braga
Enviado por Pedro Braga em 21/09/2005
Código do texto: T52331
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Sobre o autor
Pedro Braga
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
3 textos (226 leituras)
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