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O pintor, de nome Artista

De nome Artista, vivia de fome. Pintava na alma a cor do espírito. Com simples gestos nas mãos pintava um quadro, modelava o barro. E suas obras, esquecidas, se esqueciam. Sentia e se expressava, mas sentimento próprio de expressão única. Com o dinheiro que tinha comprava sentimentos captados nas paisagens, a essência vista por seus olhos era mais que essência, era uma vida a ser pintada. E lá estava, mais um quadro, mais uma obra, criada por alguém de nome Artista. Amigo da solidão, companheiro da lua. A lua e o céu estrelado lhe guiava a cada noite, momentos de inspiração. Se sentia fluído, flutuando entre a escuridão, escorregando em aromas artísticos, sendo sugerido pela sensação de liberdade. E voava durante um bom tempo. Pisava na lua e descia do céu calmamente, como uma pena, sem pressa, livre. Chegava ao chão e pintava, sentia a sua obra, além de vê-la ele também sentia o seu cheiro, ouvia e sentia um gosto bom em cada. Ao terminar, deixava a pintura lá, esquecida, e nunca mais voltava a vê-la. Eram únicas, ele transportava seus sentimentos também únicos para suas pinturas como ninguém, e por isso não conseguia pintar o mesmo quadro duas vezes. E lá ia ele, andando pelas ruas, pelos becos, deitando-se na solidão de um artista solitário, deleitando-se em ares coloridos, transpirando sentimentos e vivendo em puras sensações. Não conseguia mais ver o mundo como era de fato, tudo agora era uma pintura. Um menino que, de fato, caminhava com seu cachorro se transformara em uma pintura; uma mulher que andava apressada para não perder a hora se transformara em uma pintura; o grandiosidade dos prédios se transformara em pintura; o sol se transforamara em pura obra pintada; a primeira estrela que surgia no céu era uma pintura das mais raras, para ele uma obra perfeita: um céu extenso, vago, e uma única estrela lá brilhando, resistente à solidão, dando coragem para que outras acordem e apareçam também. Seus olhos haviam se transformado em um filtro de obras, tudo que via se transformava em pintura. Não só seus olhos, mas como também seus ouvidos: se ouvia um menino chorar ao longe sem nem saber por qual motivo este chorava, ele pintava. Seu tato também era um aliado, muitas vezes sentia uma parede e a pintava fantasiosamente. Tinha também o paladar como filtro de obras; o gosto era também uma pintura, uma obra, uma moldura, uma perfeita escultura. E tinha, por fim, o olfato. Cheirava e transferia o aroma para a tela, e lá estava: uma perfeita pintura. Fazia combinações das mais perfeitas cores, que juntamente transferiam paz a quem visse; tranformava medo em algo belo, coragem em medo, paz em guerra, guerra em paz, tristeza em alegria, espanto em prazer. Brincava com os conceitos, conseguia dar inúmeros significados a uma só palavra, tudo pela pintura. E se sentia bem, pintando e sobrevivendo, apesar do esquecimento (já antes esquecido) aumentar com a ajuda do tempo. Mas para ele o tempo era amigo, e isso não importava. Era pintor de nome Artista, vivia de fome, pintava na alma a cor do espírito, mas além de tudo era feliz. Muito feliz.
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 23/09/2005
Código do texto: T52940
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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 28 anos
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