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Ao olhar atravez da janela

E fazia um bom tempo que não parava para ver o mundo, súbito ele me chega, e me alcança debruçado na janela; olhar pálido e perdido na estrada que passa bem a frente de minha casa; longa e infinita.
Em suas margens tem tanta vida,pranteada com muitas mortes...
E eu, testemunha muda de tanta coisa, testemunha muda de coisa alguma.
Olhava os carros que corriam em busca de seus destinos,pregados no infinito, talvez pregados lá de traz do horizonte. E eu, aqui, parado estaticamente como um boneco duma vitrine de magazine.
Como queria ter pernas para alcançar tais destinos no infinito! Eu aqui, com minha vida enlouquecida, a esbarrar num tédio de dar dó!
Como queria alcançar, lá na frente alguma novidade!Um imprevisto!Uma surpresa!
Os que me conhecem diriam; logo você que gosta tanto de ter controle sobre todas as coisas de sua vida!
Sim, logo eu que se imagina conhecedor de todas as coisas que me dizem respeito, que me gabo de ter controle sobre tudo que se refere a minha vida!
E parado recostado em minha janela, comecei
a rir... Controle sobre tudo que me diz respeito! Que controle que nada!
Talvez a minha contabilidade sobre tais coisas, seja boa sobre as coisas que não tem valor pra nada!
A vida, sinto vez e outra, me escapa por entre os dedos, como água!
Será que é por isso que a minha vida me parece sem graça, sem sentido e vazia e parca?
Será que é por isso que meus dias parecem tão monótonos...
Eu aqui, cara escancarada janela afora vejo a vida real? Descont rolada e tão cheia de si?
Que sem permitir controle algum esbanja beleza e espontaneidade!
Subitamente olho para traz, tanta bagunça neste aposento. Que controle maneta este meu!
E se ponho alguma ordem neste rebuliço em que naufrago, vem outra onda, me arrastando para a desordem...
E são coisas que não controlo, e são sentimentos que descubro embaralhados dentro do coração e pensamentos dentro deste celebro velho!
Parado por instantes, entre as coisas da minha vida, objetos espalhados, pensamentos e sentimentos... Uma sensação me invade:
Como é difícil entender, se não se é entendido? Ou antes, Como é difícil ser entendido, se nem ao menos se entende o que nos cerca.
Estando de costas para a janela, sou desperto de meu transe por um som...
Uma batida, homens irados esbravejando... Duas mulheres pedindo calma, uma menina de cabelos encaracolados pedindo colo, e outros motoristas barrados pela batida dos veículos a frente buzinando, querendo passar... Um guarda, com seu apito, querendo por ordem naquele rebuliço... gesticulando como um louco! E o som estridente daquele apito incomodo!
Há os curiosos, aglomerando-se nas calçadas,
falantes, espremendo-se...
Lá a traz, bem lá a traz, com seu passo manso, vem seu Ildefonso. Ante toda a rapidez dos movimentos dos participantes daquela cena,
aquele ser tão lento, passo a passo achegando-se, pareceu-me anacrônico.
Estático em minha janela, fico observando...
Os homens saidos de dentro dos carros batidos, esbravejando, as mulheres pedindo calma, a menina chorando, com seus cachos a esvoaçar pelo vento, o guarda meio que apita, meio que fala, meio que gesticula. Os carros parados em fila buzinando, e os curiosos meio que espremidos e espremendo...
E assim, passo a passo, lá vem seu  Ildefonso... A passos de tartaruga, vem se aproximando!
Eu juro que vi: Ele virou o rosto magro, ele sorrio, mostrando os dentes brancos! E foi passando a larga...
Eu vi que enquanto os ânimos se acalmavam,enquanto as mulheres se recompunham, enquanto a mulher de saltos altos e cabelos com laque se aninhava em seu carro e a outra, de bobs, vestido de chita agarrada pela filhinha de cabelos encaracolados, também entrava em seu carro, o velho Ildefonso se afastava... Lentamente!
E com um sorriso no rosto.
Ele veio em minha direção, e minutos depois,estávamos frente a frente. Eu do lado de dentro da minha casa, encastelado de traz da janela, ele solto e livre, calmamente desvencilhando-se daquela bagunça.
Ele me olha. Olhos grandes, como que arregalados.
Eu lhe fito a face, meio que hipnotizado,meio que curioso!
-Bom dia!
-Bom dia, seu Ildefonso!
-Que bagunça hoje!
-Fazer o que? Hoje em dia não se tem controle de mais nada!
-Meu filho, eu nunca soube que a vida se controlava! Apenas se vive, mais nada...
E aquela voz tão mansa quanto os movimentos do homem foi se perdendo dentro de mim...
Súbito, outro grito! A mulher me chama:
-A janta esta posta!
Um eco ainda soa dentro de mim: Apenas se vive, mais nada...



   
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 03/10/2005
Código do texto: T56166
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edvaldo Rosa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 55 anos
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