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Contações

I

Ainda ouço os passos de Amadeus chocando-se com o assoalho. A imensurável solidão dos seus sapatos. De repente a sua boca:
- Vivaldi! Deixe-me quieto com minhas estações, necessito duas primaveras, verões curtos, longos outonos e brevíssimos invernos.
( A valsa embalava aquela lucidez.)
- As flores desta primavera murcharam em minhas mãos, perdi demasiado tempo com elucidações teóricas a respeito desta miserável existência. Estou exausto.
Aproximando-se de mim ele então vasculhou seu enorme sobretudo e entregou-me um último manuscrito. Não vi quando ele saiu,  perdi-o dentro da multidão eufórica e suas efervecências intelectuais:

O sono do réptil descansa numa pedra afastada, perto de algum lugar longe demais para que se possa ir a pé. O sol se põe antes das palavras existirem na tua garganta, antes que teu pensamento floresça de novo e desabroche dentro de um coração ferido demais para o amor. Cortaram as asas do teu anjo traidor, e agora, insólita, a solidão vem buscar-te para um longo passeio dentro do bosque fúnebre das almas desvairadas. A escuridão pertence ao teu espírito, teu corpo desaprendeu  a vida e jaz insosso  ao lado do réptil faminto e imerso em sua finita hibernação. Dentro daquela caverna teus fantasmas trocam congratulações pelo sucesso do teu franco fracasso. Tua tragédia íntima imita a farsa bufa de uma Grécia desaparecida. São mestres da dor descabida aqueles gregos que inventaram a tristeza de destruir amores possíveis. Toma um gole desta cólera densa, calcada pelo remorso de tua existência incompreensivelmente insana, eternamente breve. Carpediem. A tua dor te aguarda na alcova. Enquanto teus pensamentos acham impressionar os medíocres, a fome corrói as vísceras dos que obrigatoriamente vivem conforme estes dogmas hipócritas que algum déspota não tão esclarecido assim formulou em delírios febris dentro de uma madrugada perdida entre os dias.
As manhãs de Sábado me são incomensuravelmente inspiradoras quando me encontro desperto, livre da ressaca de olhos que outrora se embriagaram com os meus olhos.
Descansa tuas pálpebras na palma das minhas mãos, que é longa a caminhada, e tuas órbitas enjoarão de ver teus pés caminhando sobre os cascalhos de um passado ignorado.
Vem! Toma teu posto. Entra no teu carro arduamente adquirido e siga rumo á inevitável morte dos teus princípios.
O que fazes aqui? Vives? Enganas? Mentes?
Teu corpo vai cambaleando os dias em busca da certeza que não existe.
Embriaga-te, então, que essa vida não tem remédio. Desde muito cedo diagnosticaram erroneamente as tuas enfermidades. Teu coração putrefato espera com lassidão os abutres que te espreitam desde o nascimento.
Desce as escadas, calmamente, e entoe os cânticos dos teus antepassados, o futuro está condenado pelos homens de bem. Esquece a tua dor. Abandona teu carro numa esquina despovoada e siga o resto com tuas próprias crenças.
Durante a análise empírica dos cogumelos, durante uma sessão de psicodelia proto mutante, durante as frases e perante o silêncio eminente a tua alma saltou de um trampolim esférico em direção à Lua.
Selenita, a tua voz disforme invade os universos pequenos das pequenas criações divinas.
O que teu sonho almeja talvez seja etéreo demais para o toque de tuas mãos concretas.
Decepa os dedos um a um para que a queda seja mais leve, para que tua face conheça cruamente o cinza das ruas. A chuva escorre no meio fio, carrega as folhas e as ilusões, restos de cigarro e ratos mortos.
Fecha as janelas que eu já conheço a realidade lá fora, eu conheço o tilintar dos freios, o barulho do caminhão que me recolhe o lixo, eu sei o ruído de uma bicicleta ou do cortador de grama.
Quando se está sozinho numa sala de estar sozinho a sensação do silêncio é bem diferente. Parece o morrer de uma mosca, o silêncio tem o som de um último suspiro.
O encontro com teu mentor será inesquecível, eu dar-te-ei umas folhas e te farei prostrar defronte uma máquina velha de escrever. Irei espremer teus pensamentos, mas em tua mente somente tuas digitais existirão.



II

Defronte a máquina velha de escrever o silêncio torva-se insuportável. Com a mão  tapei os ouvidos e espremi fortemente os olhos, como se assim fizesse parar os berros  e as lamentações do mundo.
Durante duas horas permaneci assim, imóvel, e então, pus-me a escrever e os Sonhos de Pantera puderam renascer displicentemente:
“Declaro triste o declamar dos dias, minha garganta repleta de berros cala-se. Foi Carlos que disse ser a voz uma orquestra só de  cordas. O coro de Mefisto acorda Fausto de um sono hipotético, agora a orquestra só de cordas bane o maestro e prossegue com um homem só, tão só que sua face nunca se reproduz diante o espelho. Farta de ser sozinha reparto-me e dissolvo-me entre os atos de uma ópera-bufa, a farsa faz  Fausto onipotente. Finjo contentamento perante a vida, nutro este amor mefistofélico pela natureza das coisas.
Por trás das coxias observo tua impecável atuação, porém teus olhos delatam o pavor que este palco te causa ao desfigurar tuas convicções. Volátil é tua certeza acerca do amor e tua libido duvidosa  não me permite crer em coisa alguma.”
Talvez os sonhos já estivessem prontos, e como não pedi para que parassem, eles prosseguiram:
“Extraviou-se morna a minha consciência. Pessoa vem caminhando por estes corredores púrpuros e o sangue desenha calmo uma silhueta na parede, é escorregadio o teu andar sobre minhas vísceras. Eu, camaleão, finjo sempre ser atriz num palco por mim inventado, poeta dos interlúdios das canções desencantadas, fado dos aflitos, coito das paixões interrompidas. Meu sonho afronta a realidade, golpes de espelho, aguçadas lâminas, vermelho.
Temerosas acendem-se as lâmpadas, duelo em meu corpo, e inimiga que sou de mim mesma, abafo com o travesseiro um ronronar de nuvens rápidas.
Silente é meu beijo que se cala na reta circunferência da minha própria face, inventando um tagarelar de línguas que me invadem o céu da boca: o palato das memórias entristecidas. Oh! Acre paladar dos beijos de outrora! Socorram-me da lucidez! Poupem-nos da sensatez dos amores santos. Sacros são aqueles que não souberam amar.
Paciência.
Extraviou-se rija a minha consciência. Percorro as estradas de marfim sintetizado e farto-me das pequenas anestesias e dos teus pequenos orgasmos matinais.
Se eu ainda existo entre teus lençóis, por favor, exila-me! Que eu não  suporto mais tuas mãos puxando-me para trás, nem teu sêmen ensopando-me as vestes.
Quero que te vá embora mansamente, sem que eu te peça para partir, sem que eu te profane o beijo e o abraço, sem que eu te odeie por me amar demais, por te amar demais e por não conseguir amar mais ninguém”
A madrugada já comprimia meus olhos, a espera era inútil, meus dedos não cessavam de escrever:
“Senti empalidecer-me a face esta manhã. Durante a noite extasiei-me perante tua figura imóvel, inacabada, delicadamente construída por lapsos desconexos. A tua inércia excitou-me ao ponto de minhas mãos orquestrarem músicas em teu louvor, enquanto a efemeridade da fêmea ao lado insuflava meus instintos até o teto do céu. Trêmula minha boca engoliu teu nome, conduziu celestialmente teu corpo em prantos até os íntimos  aposentos de uma fera no cio.
Existem palácios entre as minhas pernas, onde Pacata, uma rainha decadente, seduz gladiadores, bufões e servos. Deitada, sonhando sonhos de ópio, Pacata se rende aos seus próprios encantos, mas seu silencioso arfar recolhe das trevas o ato incestuoso e sua beleza torna-se amarga.
Pacata dorme, e agora portas e janelas estão trancadas.
O palácio emudeceu perante a sua dor.”
Enfim, adormeci sobre as folhas e confessei o meu cansaço:
Tropeça,
Triste e
Trôpego
Poeta
nos Trópicos.

III

Acordei com dor nos ossos, me eram pesados os músculos sobre os ombros. Li a poesia que Astor prendeu entre as teclas, acho que sorri um pouco, não me lembro. De tão fria a cozinha assumia uma coloração extremamente branca, fiz um café bem forte e fui ter com a janela o tradicional diálogo vespertino. Perguntei das pessoas, dos seus trajetos dos seus sonhos...
Sem que eu percebe-se Astor havia entrado. Sentado naquela poltrona, fumando seu cigarro predileto, ele parecia mais do que um escritor desconhecido. Uma postura firme, lábios tensos, olhos oblícuos, fizeram-me lembrar as figuras exentricas que costumam frequentar os pubs dublinenses.
- Não pense muito, querida. Elas apenas continuam.
- Como?
- As pessoas. Não perca tempo com elas. Elas apenas continuam.
- Mas... como soube?
- Teus olhos, eles estavam a busca de estórias inusitadas. Esqueça, a realidade não presta para a poesia. Tudo o que  precisa está dentro do espaço que separa teu dedo da primeira palavra.
- Acontece que eu preciso de pessoas.
- Bárbara, imagine um homem e seu chapéu, coloque um baixo entre seus joelhos. Ele está sozinho no centro de um pequeno palco, veste preto e seus olhos, de longe, parecem que nunca acabarão...
Ele se chama Elmore Lewis, aos doze anos quando seu pai, reverendo Charles B. Lewis, morreu, passou a ajudar Lionel Brown, um homem mais antigo que o blues, em troca de um quarto em sua empoeirada pensão em Richland, Mississípi. Em 1938 aos treze anos de idade, já tocava bem o violão. Teve sua primeira guitarra três anos depois. Não demorou para que participasse do programa radiofônico “King Biscuit Time” apresentado por Sonny Boy numa emissora de Helena, Arkansas. Cinquenta e seis anos se foram e estamos  aqui, num bar chamado “Litlle Mama”. Lewis está sentado no centro do pequeno palco e seus olhos me dizem que nunca acabarão... Só agora eu percebo que ele está cantando: “De pé na esquina, com os pés molhados, eu dizia a cada homem que achava... Se não pode me dar um dólar, dê-me uma maldita moeda de dez centavos, só para poder alimentar o meu homem faminto...”
Era comum a prostituição entre as mulheres que cantavam e tocavam piano àquela época. Ela estava morta agora. Quando me aproximei ele disse “Por quê creem que canta o galo cada amanhecer? Para que os rufiães saibam que os homens trabalhadores põem-se em marcha.”  E então seus olhos acabaram.
- Bravo!
Astor sorveu o resto do uísque que adormecia no copo e saiu.

III

“Querida Bárbara,
Recebi ontem a tua carta, fico feliz por você. Astor é realmente um homem notável, você irá apaixonar-se por ele, se é que isso já não aconteceu... Apenas tenha cuidado, há vezes em que os poetas não sabem amar.
Sofia me disse que você está mais magra, estou triste porque não posso mais adivinhar o seu peso sobre meu corpo. Você está ficando cada vez mais longe ...
Estou com saudade, mesmo sabendo que a nossa vida não faz mais sentido pra você. Jonathan anda dizendo na escola que a mãe será a escritora mais famosa do mundo. Ele também sente muito a sua falta.
Desculpe-me por não ser suficientemente inspirador prá você. Na verdade eu sempre soube. Há vezes em que os poetas não sabem amar.
Carinhosamente,
Amadeus








luana vignon
Enviado por luana vignon em 04/10/2005
Código do texto: T56550
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Sobre a autora
luana vignon
Araçatuba - São Paulo - Brasil, 35 anos
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luana vignon