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Vidas na mesma dança

     Sem muito ânimo, ele arriscava algumas notas desafinadas no trompete, da música cidade maravilhosa. O som saía meio rouco pela janela do apartamento, ou melhor, da sala comercial que César chamava de apartamento há seis meses. A música sempre fora uma grande paixão, mesmo que platônica para ele. Só uma chuva muito fina, iluminada pelas lâmpadas de mercúrio da rua, ouvia o trompetista.
     Que horas seriam? Algo entre meia-noite e duas da madrugada, ele pensava. Um silêncio absoluto reinaria, não fossem os exercícios no trompete. Essa era a vantagem de morar em um edifício comercial: sem vizinhos durante a noite. Durante o dia, ele convivia com os pacientes do consultório odontológico da porta ao lado. O barulho da broca do dentista podia ser ouvido nitidamente, além das recomendações do doutor. César sabia a ficha de todos os pacientes, mais alguns meses e ele estaria  quase formado em odontologia como sua mãe sempre quisera.
     Na porta em frente, a vizinhança era outra: o escritório de uma empresa multinacional de fertilizantes e adubos. “Bem condizente com a minha situação” - ele pensava – “Uma merda!”.
     Digitando maquinalmente o trompete, ele pensava  no que faria no outro dia. Havia perdido a conta dos lugares em que tinha deixado seu currículo. A falta de dinheiro lhe corroia os bons pensamentos. Ainda bem que um conhecido tinha cedido uma sala comercial ociosa ganha em um processo para ele viver temporariamente na capital.
     O tempo tinha passado, seus amigos tinham casado, seus pais tinham morrido e seus ideais também. Os trinta anos estavam mais próximos do que ele gostaria e a realização dos sonhos tão longínqua quanto sua cidade natal. Naquela noite úmida, César remoia suas lembranças e projetos: tudo que poderia ter sido, mas não foi.
     A aproximadamente dez quilômetros dali, alguém com a mesma idade tinha quase os mesmos pensamentos que César. Uma das diferenças, é que esse alguém não tinha um instrumento musical em mãos. Vanderlei tinha uma arma e estava pensando no que faria no outro dia. Na fraca luz incandescente do barraco que o seu conhecido lhe havia emprestado temporariamente, ele tentava planejar o assalto ao banco localizado no prédio em que César morava, vendo a mesma chuva fina cair lentamente.
     Vanderlei também era do interior. Interessantemente da mesma cidade que César. Na verdade, se eles buscassem bastante em suas memórias, eles lembrariam que haviam sido colegas na primeira série há vinte e dois anos atrás. Agora eles eram colegas no mesmo sentimento de desilusão.
     O que nenhum dos dois teria condição de saber é que eles morreriam na manhã seguinte. César nunca imaginaria que ao atravessar a rua em frente ao seu prédio, ficaria na trajetória de uma das balas que Vanderlei iria disparar contra um vigia em sua fuga. Vanderlei não poderia supor que a caminhonete vermelha que conseguiria desviar do corpo de César caído no asfalto, o encontraria fatalmente na calçada.
     Mas enquanto o outro dia não chegava, a chuva fina que caía lentamente na noite úmida, ouvia a música do nosso sistema social, criando a dança das nossas vidas.
Bruno Philippsen
Enviado por Bruno Philippsen em 15/10/2005
Reeditado em 15/10/2005
Código do texto: T59945

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Sobre o autor
Bruno Philippsen
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 31 anos
82 textos (5085 leituras)
2 áudios (67 audições)
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Bruno Philippsen