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O RATO DO MEU NAMORADO

[Leia com bom humor...]


Meu namorado e eu nos falávamos todos os dias. Sempre muito interessados um pelo outro, falávamos de nós, contando experiências vividas no cotidiano e, é claro, entregando sempre nossos sentimentos com palavras de muito carinho. Era lindo o nosso amor!

De repente, me chegou um mail inusitado:

“Tem um rato na minha casa... está estragando meus sofás... gosto muito de animais, mas este, me desculpe, vou matá-lo.”

Respondi dando algumas dicas de como matar o rato, métodos que considero eficazes, nome de venenos eficientes etc. etc.... E em seguida me esqueci do rato...

Dia seguinte, outra vez o rato. Discutimos, solenemente, os métodos de extermínio, o que os venenos produziam no animal. Ele não queria que o rato sofresse para morrer. Vejam como era humano o meu namorado!

Dias depois escrevi e, quase sem pensar, perguntei do rato, julgando que o pobre já estivesse morto. Qual nada! Outro mail falando do rato que, além de estar bem vivo e prosseguindo no seu propósito de destruir os sofás, ainda tinha levado embora o saquinho de veneno que ele deixara.

Percebi imediatamente a importância daquele rato em nossas vidas. Ele estava ocupando de fato todos os nossos espaços. Já era o principal assunto de nossa correspondência. Não conseguíamos mais nos falar sem lembrar o rato. Então saquei:

“Meu bem, você não pode matar esse rato, pois ele é um rato inteligente. Ele já é importante pra gente. Se ele morrer, o que será de nós? Ficaremos definitivamente sem assunto. A morte dele pode até matar nosso amor! Nessa guerra, eu torço pelo rato!”

Imediata resposta:

“Você está contra mim e a favor do rato? Não vê que ele está destruindo os estofados de meus sofás? Vou ter que entrar numa prestação pra comprar um jogo de sala novo... Claro que vou matar esse rato. Antes ele do que eu...”

Respondi: “Mas, querido, o que é um sofá diante de uma vida? Veja bem: o rato só quer viver. Ele está só lutando pela sobrevivência, assim como nós lutamos pela nossa. Você precisa entender melhor a psicologia do rato. Está destruindo seu sofá só pra chamar sua atenção e protestar porque você não deixa comida pra ele. Não vê que ele levou o pacote de veneno? Foi uma forma de te provocar e fazer com que você acorde. Deixe alimento pra ele, afinal ele é seu, é responsabilidade sua. Vai ver como vai melhorar seu comportamento e a relação de vocês dois.”

Ele, muito bravo: “Mas eu não quis ter um rato. Não tenho que alimentar um rato. Eu não sou responsável por rato nenhum. E tem mais, não é só um sofá, são três sofás... Você está minimizando o problema. E são sofás muito finos. Sabe por acaso quanto eles custam?”

Eu, paciente: “Tá, são três, um sofá e duas poltronas... eu tinha esquecido... desculpa... E imagino que sejam caros. Sei que você só tem móveis finos... não precisa se zangar por isso... Mas, meu querido, o rato eu não esqueço, e acho que, se ele está em sua casa, é sinal de que a vida o deu de presente a você. Estou falando pro seu bem. Se o matar, você não vai agüentar o remorso. Assume isso e deixa o pobrezinho viver... Cuida dele com carinho... Ele vai lhe fazer companhia, você vai rir das suas artes, os ratos são mesmo muito engraçadinhos...”

Ele: “Você está louca! Ele vai reproduzir e em pouco tempo terei a casa cheia de ratos.”

Eu: “Mas isso não é problema hoje em dia, querido. Arme aquela ratoeira que pega mas não mata, é como uma gaiolinha. Pegue o bichinho, olha se é macho ou fêmea, leva ao veterinário e manda castrar... E aí viva com ele feliz para sempre...”

E o caso foi longe. Ainda discutimos muito, eu cada vez mais empenhada em salvar a vida do bichinho, aquilo virou ponto de honra pra mim. Ele já quase querendo me matar também, como se eu fosse um rato... Mas eu tinha argumentos, sempre muito fortes, sempre em defesa da vida, não importa se a vida em perigo era de um simples ratinho... que agora, aliás, não era tão simples, era a causa de nossas brigas... Justo nós dois, que nunca brigamos... Até reconheço que cheguei a ser agressiva com meu namorado, mas eu tinha toda a razão pois a causa era nobre...

EPÍLOGO

Bem... não tenho mais notícias do pobre e desamparado ratinho... Meu namorado simplesmente me deixou falando sozinha... O ingrato nunca mais me escreveu... Escrevi mais de 20 emails e ele não respondeu. E até hoje não consigo entender por que meu namorado me abandonou... Os homens são mesmo assim... São uns ratos!
Sal
Enviado por Sal em 16/10/2005
Código do texto: T60085
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
507 textos (44787 leituras)
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