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Época de verão

Quando abri os olhos, me vi longe de minha casa, e por mais que muitas vezes eu tenha pedido para alguém me levar para longe, naquela manhã, eu queria estar em casa, sozinha. Reclamei, que não reconhecia o caminho, com meus cílios grudados, tentei abrir completamente os olhos, não consegui. O carro era filmado, mas mesmo assim o sol batia em meu rosto, com uma voz meio reprimida de sono resmungava sobre os caminhos tomados e de minha casa que se encontrava longe, na boca gosto de bebida.Desisti, não tinha mais força para insistir em voltar, em mudar, em tentar, cansada me entreguei aquele caminho desconhecido. Às vezes, passando todas as avenidas, aquelas ruas nunca vistas, poderia chegar em algum outro lugar, uma vez num bar na Augusta, ouvi que São Paulo escondia uma caverna, no meio dos prédios, e que nela todos que entravam não voltavam e não pediam ajuda para voltar, e dela ouviam-se risos, gargalhadas livres, espontâneas, dessas que existem em poesia, mas não na vida.

Quem sabe seguindo ali entre todos aqueles prédios e ruas desconhecidas, eu pudesse chegar em alguma caverna, para eu poder libertar minhas gargalhadas. Finalmente em algum lugar nós chegamos, descemos do carro, a casa onde ele morava estava a venda, a porta gigantesca de madeira, não emitiu um ruído, a sala completamente vazia, subimos a escada de mármore, tão fria, no andar de cima, a tv ligada no sofá o amigo que rachava a casa com ele dormia, todo encolhido na posição fetal, como se pedisse o calor estável da placenta.

Ele desligou a tv, cobriu o amigo e seguimos para seu quarto, enquanto ele ia ao banheiro eu me deitava na cama, toda preguiçosa, no rosto dele, eu vi uma expressão meiga, um sorriso coberto pela barba cheia e escura, deitou-se ao meu lado, todo se insinuando, querendo beijos e corpo, todo venenoso, com aquele sorriso barbudo cheio de interesses sobre meus fluídos. Após um longo tempo, e eu não reagindo, ele desistiu, sexo sozinho faço no banheiro, imagino que ele tenha pensado, e dormiu.

O sol forçava a janela entreaberta, como se quisesse arrombá-la, para penetrar no quarto, trazendo energias do vento abafado que fazia em São Paulo, acordei, preocupada, sufocada, com o desespero de ir embora, cansada de estar ali, não era a caverna que eu esperava, era como uma tortura, havia sido roubada, e de certa forma, havia consentido o roubo, não eu, mas o meu cansaço. O acordei, querendo voltar pra minha cabaninha, longe dali. Ele fez uma cara, e insistiu em beijos, abraços, pernas roçando. Falei que estava mestruada, que a cama sujaria de sangue, que não. Ele nada ligou, o tempo passava, o sol entrava calmamente, e meu desespero aumentava, resolvi então me entregar a ele, para ver, se assim, ele me devolvia a minha solidão.
Seus pêlos nas minhas costas, minha mão o percorrendo, uns sons aqui outros ali, o sangue estancou com a penetração, um prazer vazio misturou-se com meu desespero, foi fútil e intenso, à vontade de ir embora me vinha à cabeça a cada toque, me sentia pagando por algo que não comprei. Não comprei aquele passeio até tão longe, ele quis, eu não aceitei.  Não era o que havíamos combinado, mas o que a ele convés. A expressão de meu corpo era rítmica e ressonante não parávamos, podia sentir tudo ao nosso redor sendo engolido por esse tufão que o nosso sexo, se tornou. A cama, a mesa encostada na parede roxa, a cadeira com roupas amontoadas, a janela, a luz, a poeira que respirávamos, tudo em uma reconfortante harmonia cinza que se prolongava. Sem término.

Quando naquele instante eufórico, nossos corpos finalmente encontraram o propósito. O sangue não mais estancado correu por entre minhas pernas, mas sentia todos meus orifícios sangrarem.

Novamente, pegando as avenidas, as ruas, conversávamos sobre qualquer coisa bem banal, aqueles papos quase obrigatórios e completamente cínicos, vindo escritos em manuais de sexo casual. Meu corpo ainda sangrando, ouvia e falava pouco para não esforçá-lo, e assim não causar uma hemorragia sem volta do sangue que provinha da angústia. O caminho mudou, os mesmos bares de sempre, os ônibus que pegava para ir de lá para cá, agora o caminho era meu.

O sentimento ruim cessou. Nos olhamos, e demos um tchau amigo, “a gente se tromba”.

Então meu corpo parou de sangrar.

coisa
Enviado por coisa em 16/10/2005
Código do texto: T60273
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Sobre a autora
coisa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 29 anos
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