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UM SONHO E DOIS PONTOS FINAIS

UM SONHO E DOIS PONTOS FINAIS


Um ônibus chegando na bela Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro. Onofre desce e já fica encantado com a beleza da cidade. Tem certeza de que vai se acostumar ao lugar, apesar do frio. Problema é achar emprego e um canto para morar. Para se esquentar melhor, entra num boteco e pede uma cachaça. Só mesmo para esquentar, pois não é de beber. Puxa prosa com um homem que está no balcão ao seu lado. Comenta um pouco sobre o clima do lugar, diz que nunca esteve ali e que achou bonita a cidade. Por sorte, aquele desconhecido é tão falante quanto ele e se oferece para mostrar os lugares mais bonitos. O papo entrosado, sentam-se a uma mesinha pequena do bar. O homem se apresenta como Pipoca. Estranho nome. Diz, rindo, que se chama Carlos, mas gosta mais de ser chamado pelo apelido, Pipoca. E Onofre descobre logo a razão, quando ele tira do bolso um saco de pipocas. Ele conta que é chamado assim desde criança porque sempre foi louco por pipocas e não dava sossego ao pai enquanto não satisfazia sua vontade. Como foi uma criança muito alegre e faladeira, toda a vizinhança sabia de sua preferência e lhe dava sacos e sacos da guloseima preferida. Aí o apelido pegou e ele até esquecia que seu nome era Carlos. Também curioso, logo quis saber o que o forasteiro fazia em Teresópolis. Onofre explicou que era sozinho e gostava de viajar e ver novos lugares. Alguém lhe falou da cidade como linda e tranqüila e ele resolveu conhecê-la. Pensava encontrar um trabalho e ficar morando ali por algum tempo. Conversa vai, conversa vem, Pipoca se lembrou que, a caminho do bar, parara na banca de revistas e dera uma espiadinha no jornal do dia. Lera o anúncio de uma chácara nas redondezas que oferecia um emprego de caseiro.

Carlinda, tratada por Dona Linda, tinha uma bela chácara. Era uma mulher sofisticada, muito rica, educada, e morava sozinha na chácara. Depois que se aposentou da profissão de secretária numa firma de renome, resolveu se isolar ali, curtir a natureza, aproveitar o descanso merecido e gozar uma solidão que não tivera nunca. Vivera para o trabalho. Casara-se uma vez e tivera uma filha que morreu ainda criança. O casamento fora muito chato, marido folgadão, não trabalhava, só pensava em aproveitar a vida e era o que fazia às custas da mulher. Ela foi se cansando e se divorciou. Tempos depois conhecera Roberto, homem atraente, educado, muito simpático. Uma amizade se fez e, meses depois, resolveram viver juntos e foi graças a ele que Linda conheceu a verdadeira felicidade. Mas não durou muito. Roberto adoeceu, parecia ser nada grave, mas ela insistiu e ele acabou indo ao médico. Exames foram pedidos e foi descoberto um câncer já em estado avançado. Ela cuidou dedicadamente do companheiro durante dois anos. Esqueceu até de si mesma nesse tempo e, apesar de tudo, viveu seu único amor. Quando ele morreu, ela o enterrou no mausoléu da família. Nunca mais pensou em ter alguém, vivia de lembranças e se satisfazia com elas.

O mausoléu da família era suntuoso, recoberto de mármore, ao alto uma plataforma onde a imagem de um Cristo de bronze recebia, com mãos estendidas, pessoas também de bronze, homens, mulheres e uma criança. A família de origem de Linda não era grande e o pai, ao construir o mausoléu, pensou em representar junto ao Cristo cada membro da família que partisse para o céu, como acreditava. Isso foi feito e a família guardou a tradição. Ao perder Roberto, ela mandou que se fizesse a imagem de um homem e ele, depois de morto, se integrou à família.

O sininho da porteira tocou e tirou Linda de suas recordações. Era um homem que respondia ao anúncio da vaga de caseiro em sua chácara. Recebeu-o na cozinha, ofereceu-lhe um café e passaram a negociar o emprego e o salário. Após as formalidades, Onofre foi contratado. Linda o acompanhou aos seus aposentos: um pequeno e bonito chalé mobiliado com simplicidade e bom gosto. Ao entrar, o homem foi se espantando com o que, para ele, era luxo demais. “Mas isso aqui é a mansão dos meus sonhos de garoto! Eu achei que ia ficar rico na vida e que ia ter uma mansão... - disse, rindo. A senhora tá realizando meu sonho.” Linda riu da observação do empregado humilde. Gostou de seu jeito falante, sentiu que era um homem alegre, mas estranhava aqueles olhos fundos e tristes. Deixou-o bem à vontade para organizar a casinha ao seu gosto, arrumar sua bagagem que não passava de uma velha e pequenina mala. Avisou-o quanto a horários de refeições, que vinham de fora, uma pousada vizinha.

Semanas depois Onofre estava perfeitamente entrosado no trabalho e na rotina de Linda. Cuidava da limpeza da casa, arrumava a cozinha após as refeições e no restante do tempo cuidava da propriedade: jardins, a horta que estava ainda formando, os cães de estimação e os de guarda, o pomar onde encontrou as mais variadas árvores frutíferas, e ainda alimentando os pássaros que viviam naquele lindo pedaço de natureza.

Linda ficava horas se encantando com aquele homem de sentimentos delicados, que conversava com as flores e com os animais. Um dia o surpreendeu falando com uma pombinha que pousara em suas mãos: “Olha, minha pombinha, sai voando e vê se descobre pra mim onde está minha filha. Aí vem e me conta. Ainda quero ver minha menina antes de morrer. Acha ela pra mim.” Isso a impressionou. Ela já sabia muitas histórias de vida que ele contava, mas nunca falara de uma filha. Dizia-se sozinho no mundo. Um dia criou coragem e lhe perguntou se aquela conversa com a pomba era realidade ou apenas uma fantasia. E ele confirmou. Tinha uma filha, única pessoa que lhe restara da pequena família. Casou-se, mudou de cidade e deixou o endereço. Um dia foi visitá-la, mas ela tinha se mudado. Perguntou aos vizinhos, ninguém sabia. Voltou para casa e esperou muitos anos que a filha viesse vê-lo. Um dia se cansou de esperar, sentia muita saudade. Vendeu o que tinha e resolveu sair pelo mundo à procura da filha. Nunca a encontrou. Nem notícias dela, morta ou viva. Mas não perdia a esperança. Confessou não gostar de ser um homem sozinho. Linda também confessou já não gostar de sua solidão. Nesse dia, convidou Onofre para lhe fazer companhia à mesa. Detestava fazer as refeições sozinha. E desse dia em diante ambos se faziam companhia, às refeições, à noitinha, após o jantar, quando era gostoso deitar-se na rede e ver o pôr-do-sol, trocar histórias e lembranças da vida passada, jogar conversa fora ou disputar uma partidinha de buraco.

Véspera de Finados, Linda pediu a Onofre que colhesse muitas flores para levarem ao túmulo da família. Chegando ao cemitério, Onofre se espantou diante do mausoléu que Linda chamava de túmulo. Não se conteve e exclamou: “Mas isso sim é que é uma verdadeira mansão!” À hora do almoço, não tinha outro assunto. Linda então lhe contou a tradição da família de mandar fazer a imagem em bronze de cada membro que morresse. O pai queria que todos ficassem perpetuados naquelas imagens e assim a família permaneceria unida eternamente. Onofre chorou ao ouvir a história e pensou nele mesmo, sem ninguém. Nem mesmo tivera uma pequena família para reunir num simples túmulo.

Com o tempo, Linda e Onofre se tornaram amigos de verdade. Ele continuava o matuto de sempre, mas ela não tinha o menor preconceito, dona que era de um nobre coração. Ele falava pouco da filha, mas quando falava comovia Linda: os olhos tristes se entristeciam mais da conta. Ficavam ainda mais fundos, como querendo esconder uma saudade que não cabia em seu coração. Ela pensou na filha morta, sentia saudade e ainda sofria, mas percebeu que era mais fácil sofrer por uma filha morta que por uma filha desaparecida. Foi quando teve a idéia de colocar anúncios em jornais e rádios de todo o país para tentar achar Letícia, a filha de Onofre. Tudo foi em vão.

Linda se acostumou tanto a Onofre que nem podia pensar no dia em que ele resolvesse ir embora, talvez ainda procurando a filha, ou para “andejar” por aí, como ele dizia. Mas ele pouco saía. Quando o fazia era para visitar Pipoca, o único amigo que fizera na cidade. Ela se acomodou com a idéia de que teria a companhia dele até morrer.

Certa manhã, Linda acordou mais tarde. Correu à cozinha em busca do café gostoso que Onofre preparava todos os dias. Mas o bule estava vazio e a cozinha ainda fechada. Estranhou muito, pois Onofre era madrugador. Foi ao chalezinho, bateu, esperou... chamou... ninguém respondeu. Era dia de semana, ele tinha obrigações, além do que não sairia sem avisar. Mas entendeu que poderia estar cansado e ter dormido além do costume. Passou ela mesma o café, tomou-o com as torradas que ele guardava numa lata e ficou pensativa. Aos poucos foi sentindo o coração apertado, estranhos pressentimentos. Foi novamente chamar por Onofre. Silêncio na casa. Pensou, apavorada, se ele teria ido embora sem se despedir. Afastou a idéia, pois a porta estava trancada por dentro. E, com a chave na porta, ela não poderia usar a chave-reserva para abri-la. Ligou para a pousada vizinha e contou o fato ao proprietário, que se ofereceu para ir até lá. Nem isso a aliviava. O homem rodeou a casa, forçou portas e janelas, tudo muito bem fechado por dentro, a casa em absoluto silêncio. Consultou Linda e resolveram arrombar a porta dos fundos. Foram logo ao quarto de Onofre. Pressentimentos confirmados.

Linda não pensou duas vezes, preparou o velório, comprou para Onofre um caixão de luxo, enterrou-o no mausoléu. Enfim, ele tinha a mansão de seus sonhos... Depois mandou fazer a imagem de bronze para colocar ali. Onofre agora tinha uma família...

No caminho de volta, sentindo uma tristeza infinda e a solidão doendo como nunca doera antes, Linda falou alto com o pai: “Desculpa, papai, por eu integrar duas pessoas sem nosso sobrenome na família em bronze que o senhor idealizou... Aquelas imagens substituirão a minha, que nunca estará ali, pois, quando eu morrer, não fica ninguém para mandar esculpir uma imagem que me represente...”

Chegou em casa e, chorando muito, mandou colocar um anúncio no jornal: “precisa-se caseiro para chácara”... Em seguida, adormeceu.

Dia seguinte: o sininho da porteira soou... soou de novo... e soou, alto e firme, pela terceira vez...
Sal
Enviado por Sal em 22/10/2005
Código do texto: T62068
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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