Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Um pé atrás

"Miragem ou Realidade", publicada no Jornal do Cariri no dia 08 de outubro de 2002 do mesmo autor

Conto Classificado em 4" Lugar no Concurso de Contos pela Fundação Valeparaibana de Ensino - Univap: Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos/SP – 2003

Aquele senhor, de trajes simples, de aspecto interiorano, chapéu de palha, desceu da condução que lhe trouxe do recôncavo mais escondido da serra. Seu Quinô, o nome de batismo era Joaquim Macedo, pisou o solo, meio que a contragosto, mas recoberto por uma áurea de renovação. Estava chegando para uma visita à sua irmã. Ela viera para a cidade grande - achava aquela grande demais em relação ao sopé onde morava - quando brigara com os pais há tempos longínquos. Fincara pé na cidade, conhecera gente nova, se engraçara de um caboclo trabalhador, apaixonara-se, casara-se. Mas isso foi há muito tempo. Agora tudo mais calmo, mortos os pais, lágrimas de desgosto, luto usado e desusado, esquecimento. Ia revê-la. Não gostava muito de sair do seu canto, deixar a mulher sem a sua companhia, entregue aos pançudos meninos crescidos, mas era preciso. Diziam que era tempo de eleições.
Esperou ali mesmo, sem dar dez passos, pela irmã. Ela tinha dito que o esperaria na rodoviária, mas não via gente sequer parecida com ela. O saco de legumes nas costas, o outro de roupas no chão, e o olhar perdido por entre a multidão. Era gente que não acabava mais. Viu meninos: negros, brancos, sujos, descalços carregando troços, malas. Viu outros metendo a mão nos bolsos dos velhos, carregando o alheio, fazendo cobra por entre as pernas dos adultos. Sem querer, inocentemente, abriu os lábios num sorriso. Achou aquilo engraçado, mas logo dissipou o sorriso, concentrou a atenção numa voz que saía de uma caixa. Uma voz de mulher, bonita, mas sem entender muito o que ela dizia. Voltou os olhos por cima dos chapéus, cabeças, ombros dos que passavam por perto, mas não avistava irmã nenhuma. Por certo esqueceu dele. Cansado, jogou o saco de legumes no chão, bem ao seu lado. Mas ficou ainda de pé, sem mover-se, sem dar passos, apenas movimentava-se com os olhos. De vez em quando tirava o chapéu para amenizar o calor. Os escassos cabelos se lhe pregavam na cabeça de suor. Voltava a colocar o chapéu de volta. Era preciso estar a caráter porque a irmã podia não reconhecê-lo. Esperava e nada.
Cansado, resolveu sentar-se. Primeiro procurou com a vista um lugar para acomodar-se, encontrou, rumou para lá, puxando os sacos. A irmã não vinha. Mas era preciso ter paciência, mas sabia que não tinha lá essas coisas. Por besteira, brigava, falava, exasperava-se. Mas, como estava em terra estranha, de estranha gente, precisava ser outro.
Surgiu um rapaz, tocou-lhe o ombro, sem falar nada, deu-lhe um "santinho" do candidato às eleições. O senhor o recebeu de bom grado, tirando o chapéu em agradecimento. Olhou para o retrato do homem, empertigou mais a vista, puxou pela memória e conseguiu reter a imagem e achar que conhecia aquele do sorriso. E antes de guardar no bolso da camisa, lembrou do mesmo que aparecia na televisão. Sim, no seu recôncavo lugar, a televisão chegava. Quando conseguiu comprar uma, foi como se casasse novamente. A mulher ficou entristecida, carrancuda para um lado, enciumada por causa daquela caixa falante, isso no início. Mas depois a tal da mulher não desgrudava da frente daquela caixa. Às vezes até a comida deixava queimar, esquecer de fazer. Via que ela prestava atenção nos danados de homens e mulheres num agarra-agarra, boca com boca. Quem teve ciúmes foi ele. Quis quebrar a televisão. Mas como empregara dinheiro nela, vendeu para um compadre seu. Viu cacos dela tempos depois no monturo próximo ao seu rancho.
O que lhe doeu era não poder mais ver o Presidente da República, algumas autoridades que falavam bonito, coisas corno emprego, renda, irrigação do campo, moradia para os pobres, aposentadoria, micros empresários, um tal de FMI. Essas palavras lhe fincaram na memória de tal forma que a mulher não agüentava mais de tanto ouvir falar. O compadre perdia horas e horas, tentando entender o por que de tudo aquilo, em que seu Quinô, loquaz, falava, falava, mas no fundo não entendia também.
Cansou de esperar pela irmã. Procurou nos bolsos da calça o endereço dela. Mostrou para algumas pessoas. Recebeu orientação, explicação, entrada numa certa rua, virada à direita, depois à esquerda, sobe urna ladeira, chega numa praça, passa pela igreja, pelo cemitério, há um chafariz, dar a volta nele torna outra rua, sempre a subir, subir, no final dela passa-se urna ponte, entra numa estrada de terra batida, chega-se lá.
Seu Quinô agradeceu, resmungou alguma coisa corno: "com tanta rua, esquerda, direita, espero chegar vivo.", e partiu, de sacos nas costas, chapéu nos olhos, sandálias de couro nos pés e já urna forte dor de cabeça. Pensou na irmã, e só não tornou o ônibus de volta porque tinha que votar no outro dia. Veio por causa do voto, da aposentadoria, da mulher, dos filhos, dos vizinhos, até da besta fera. Pensou consigo de não falar com ninguém, de não pedir informações àqueles desconhecidos, de seguir em frente. Um dia toparia com a cancela da casa da irmã, assim não se chamava Quinô.
De acordo com a sua memória e dos ensinamentos de quem bondosamente lhe passou, seu Quinô tornou a primeira rua, enfiou os pés nela e subiu, e desceu, e virou à direita, à esquerda, não viu chafariz nenhum. Estava num descampado. Cansou. Jogou os troços no chão. Enxugou com o dorso da mão o suor que lhe turvava a vista. Olhou para o céu, o sol queimou-lhe os olhos bem em cima. Meio-dia. Um carro passou rente ao seu corpo, buzinou-lhe aos ouvidos, jogou-¬lhe poeira. Rosnou um nome feio, praguejou o motorista. Os lábios ressecados de sede, mas não quis pedir água em lugar algum. O arrependimento causava-lhe mal estar. Caso encontrasse a irmã agora, cuspia-lhe na cara. Assim, cansado, sem concatenar idéia nenhuma, com os sentidos em desarrumação - quando se encontrava nesse estado, perdia a noção das coisas - num dado momento, meio que perplexo e envolvido pela vontade de encontrar alguma coisa que lhe desse ouvidos e entendimento, parou diante de urna pessoa. Ela era alta, bonita, colorida. Notou algo de estranho no semblante da mesma. Diferente do que via sempre, do que se mostrava, do que se movimentava. Olhou para um lado e outro, corno se procurasse saber se estava ali, se era o único. Descerrou os sacos, de forma lenta, aparentemente calmo, tirou o chapéu, pôs em cima em um dos sacos. Tentou jogar a mão numa cordialidade para a outra pessoa, mas recuou, com vergonha de que fosse recusado o cavalheirismo. A outra lhe sorriu. E isso era urna vantagem. Empertigou mais as vistas e, corno se um clarão lhe rompesse a visão, chegou às idéias de que aquela pessoa era o político da televisão, do "santinho" do bolso. Engraçado, ele estava ali, de carne e osso - achava - e era hora de encontrar o que procurava. Por que não? Estava para votar em alguém, talvez nele. E iniciou as interrogações. "Bom dia seu moço. Está chegando o grande dia, não é? Para mim, hoje passei, quer dizer, estou passando por um dia terrível. Deu-me vontade de chorar, mas quando vi o senhor com esse sorriso todo, arrependi-me. Olhe, há muito que quero lhe perguntar algumas coisinhas, já que estamos cara a cara, vou lhe perguntar. Bom, se quiser responder que assim faça, se não, paciência".
Perguntou sobre tudo que lhe intrigava, que estava em dúvida: sobre urna sigla chamada FMI, o que não entendia; sobre "emprego e renda, aposentadoria"; sobre moradia - a sua casinha era simples e pobre, mas graças a Deus era sua; sobre a torne do Nordeste -lembrou que já tinha passado por isso; sobre "saúde" - em casa tinha sete filhos que só viviam gripados, de barrigas enormes, de peles cheias de caroços, da mulher que se queixava de dores por todo o corpo. Enfim, metralhou o político com tantas e incansáveis questões.
O senhor coçou as nádegas, enxugou o suor da testa, gargarejou, cuspiu fora o que veio da garganta. Olhou para um lado e depois para outro, e achou estranho que só ele fazia perguntas, porque também só ele estava ali diante daquele político. Viu algumas pessoas passando por perto, ouvindo as suas perguntas, as suas palavras e riam dele. Por que aquelas pessoas riam assim, por acaso estava dizendo alguma besteira? Estava ali só tirando dúvidas, porque lembrava bem que aquele político, ali na sua frente, prometia tudo aquilo e queria saber se era possível. Voltou-se para o político, refez as perguntas, e não obteve resposta nenhuma. Olhou de novo para os lados. Uma senhora se chegou, admirada, e perguntou ao senhor se ele estava passando bem. Ele respondeu que sim. A mulher afastou-se. O senhor achou melhor segui-la, jogar o orgulho fora, talvez a mulher lhe orientasse, primeiro a saber onde era a casa da irmã, depois pedisse àquele político que lhe falasse qualquer coisa, que fosse mais educado, que lhe desse um mínimo de atenção, que não só sorrisse feito besta. Mas não conseguiu alcançar a senhora.
Quando voltou a si, viu pessoas colocando escadas e escalando aquele político com quem falava. Pregavam algo a mais no outdoor em que se via uma grande foto colorida de um candidato qualquer, a sorrir, a olhar com olhos alvissareiros o povo carente que passava.

Juazeiro do Norte CE., 20 de maio de 2003

Anchieta Mendes
Enviado por Anchieta Mendes em 26/08/2007
Código do texto: T624709

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Anchieta Mendes
Juazeiro do Norte - Ceará - Brasil, 56 anos
3 textos (154 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/08/17 03:32)
Anchieta Mendes