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Fim de história

- Celio, larga essa arma. Vamos conversar. Você não vai conseguir nada assim. Vem aqui pra fora, solta o refém.
- Vou soltar o meu caralho! Essa porra dessa criatura só sai daqui quando meu livro estiver publicado, ou então com uma bala na cabeça!
- Celio, assim vou ser obrigado a cortar a luz e tomar medidas extremas
- Até você chegar aqui meus miolos tão misturados com os restos mortais dessa merda desse editor que nunca publicou meu texto.
- Mas..Mas..
-E cala a boca ai que você é refém e não tem direito de falar porra nenhuma! Te dei chance quando te mandei 10 vezes o original e você fez o que com eles?
- Eu..
-Tá vendo, nem lembra! Jogou tudo fora! Editor é tudo igual. Só publica trabalho de chegado. Se é boiola, do caso, se é maconheiro dos amigos da boca de fumo, se é cola-velcro, só das sapatas que tão pegando na hora. Vocês são tudo um bando de raça desprezível..agora você vai virar história filha da puta! toma!
-Célio, é o último aviso.
- Vai avisar a puta que te pariu! Quem tá no comando aqui sou eu!
O diálogo entre o escritor que havia feito o editor refém e o policial da equipe de negociações era tenso.  Do lado de fora repórteres, jornalistas e curiosos acompanhavam ansiosamente o desenrolar.
- Que saber o comandante cerqueira. Vai lá negociar no bordel que tu pega aquelas putas que te pagam uma grana pra proteger a região tá, vai fazer uma coisa de útil de verdade que você também tá sujo nessa história. Preparei teu dossiê..
-Celio...não adianta fazer esse jogo psicológico..
-Jogo psicológico??!! Tu vai ver quando tu chegar em casa e a tua mulher abrir a caixa de correio infeliz! Agora seguinte, vai ligar pra casa que a essa altura o sedex 10 tá la. Quando trouxer um contrato assinado de publicação eu solto essa porra desse editor. Fui! Celio desliga o telefone e o refem toma coragem.
- Você não vai sair dessa meu rapaz. Desiste. Por que não acaba logo essa história. Você já teve seus quinze minutos de fama..
- Sei. Como psicólogo você é um péssimo editor.
- Mas como é?
-Você ainda não entendeu? Deixa eu explicar: você vai entrar pra história. Vai ser o editor mais famoso, vai virar nome de pracinha na rua, sua familia vai aparecer chorando na tv xingando meu nome, me chamando de lunático, provavelmente virar um filme feito pelo Waler Salles sobre a tragédia e vai ganhar uma palma de ouro em Cannes ou um leão em Berlim...você não sai daqui vivo. Ainda não entendeu?
- A polícia vai te prender, você acabou com a sua vida. É melhor se render enquanto é tempo - diz o editor abalado.
- Você pensa que está aonde?? Nova Iorque? Londres? Você ainda não se mancou em como foi fácil entrar com essa arma aqui, estourar os miolos dos seu dois seguranças, botar a sua secretária pra correr, evacuar o andar inteiro e ainda te amordaçar nessa cadeira? Você viu quanto tempo a PM levou pra chegar? E o Bope então? E ainda acha que vai sair daqui pra começar o analista? Eu vou é te ajudar a economizar uma grana infeliz! Isso é pra você pensar duas vezes antes de cortar um original como o meu...com esse papo de agenda programada até 2010...agora lamento, mas de agora você não passa..
-Que isso, eu faço o que você quiser! Publico teu livro, dou todo o dinheiro do mundo, esvazio minha conta, transfiro tudo pra onde você quiser via internet banking. Agora! Me solta!
- Paga boquete?
- Até pago pra você!
- Toma vergonha nessa cara! Morre com honra filha da puta! Então quer dizer que tua vida vale uma chupada num cacete só porque tá borrando de medo agora? Tá bom. Toma uma porrada na cara pra aprender a ser homem!
- Vai te a merda! Eu sou o editor aqui! Se não publiquei era uma droga a sua história.
-Você não está se ajudando...é melhor ficar calado!
- Rapaz, você quer o que? Eu publico o livro! Te pago um resgate! Diz o valor!
- Legal, aí eu desço e ali eles me prendem e você manda suspender o negócio, ou daqui a cinco minutos rasga o contrato. Tá vendo muito filme hein caro editor...acha que todo mundo é otário que nem nas séries e filmes da tv?
- Rapaz, eu sou influente..
- E o que a sua influência lhe ajuda agora? Você está aqui, com uma arma na cabeça. E quer saber do que mais: curte teus minutos de influência porque pra onde você vai ela não vai servir pra absolutamente nada! Bom, vou te dar uma chance de deixar uma mensagem pra sua familia gravada nesse moderníssimo mp3. Vou acionar o botão e você pode falar o que quiser. Tem família?
-Sim, mulher e filha.
-Então se eu fosse você, eu realmente utilizaria muito bem esse tempo. Te dou cinco minutos. O tempo que vou gastar para falar com o comandante Rambo crente que tá arrasando lá embaixo...está valendo.
-Não! volta aqui! Espera! Espera!
- Comandante..tempo esgotado. Boas novas?
- Celio. Não negociamos dessa maneira. Você tem sua última chance.
- Comandante, seus atiradores de elite estão cegos, as persianas fechadas. Não adianta cortar a luz do edifício. o andar está às escuras, pode invadir, você é muito bem-vindo. Eu falei pra você quantas vezes mandei um original para essa criatura? Dez. E o que ele fez. Leu alguma vez? Não.
- Mas isso não é motivo. Imagine se todos tiverem a mesma atitude que você?
- Os editores ganhariam adicional de periculosidade.
- Celio...
-Comandante...
-Sou capitação.
-Que seja. Estou esperando você subir. Pode mandar sua equipe...
Um tiro é ouvido. Um berro. Após algum tempo ouve-se pelo telefone   a porta se abre. Um grupo de policiais invadiu a sala atirando a todos os lados. No telefone tiros e gritos, muitos berros e urros e muitas balas.  Nesse mesmo tempo uma vidraça se arrebenta e dois corpos caem. Um amordaçado em uma cadeira e o outro sobre a cadeira.  Ambos caem sobre o carro de televisão que filmava toda a cena. A mistura de sangue, ossos, músculos e cerebro espatifada esparrama sobre repórteres, policiais e curiosos, alguns passam mal, outros fecham os olhos. Na rua, muitos começam a vomitar.  A repórter que falava enquanto a câmera mostrava o mergulho dos dois é cortada repentinamente quando os corpos atingem e destroem a antena da unidade móvel.  Uma grande massa vermelha de cérebro acerta a repórter que fica paralisada e perplexa.
Um dos operadores sai do carro onde os corpos haviam caído ensanguentado e pressionando fortemente a cabeça, tentando estancar o sangue após ser atingido pelo impacto da queda dos corpos.
Na mão de uma da vítimas, um mp3 estilhaçado, inaudível, é retirado cuidadosamente por um bombeiro que tenta desmembrar a maçaroca dos dois corpos fundidos em um pela queda.
C G Gutenberg
Enviado por C G Gutenberg em 27/08/2007
Reeditado em 27/08/2007
Código do texto: T625367

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Sobre o autor
C G Gutenberg
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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