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A coceira

    Embora os afáveis raios de sol, que pela janela adentravam seu quarto, quisessem envolvê-la alegremente, ela resistia e continuava num ânimo oprimido, abraçada à sua solidão e a seu travesseiro. E, uma vez que os raios perturbavam sua introspecção ativa, ela se deu ao trabalho de fechar, até o fim, as duas folhas da janela. Voltou a deitar-se na cama e quis então ser levada pelo torpor habitual que desde sempre lhe fornecia os leves devaneios dos quais agora tanto necessitava para conquistar tranquilidade. Os devaneios a que ela se submetia, na cama, eram sempre tão bonitos, e carregavam tanta espirituosidade no aspecto mais sutil, que lhe era impossível não acabar em pouco tempo dormindo apaixonada por qualquer coisa. E a beleza era tanta que ela mesma não podia sequer conhecer suas factuais naturezas quando consciente: eram de fato belos por si próprios; e tudo então parecia um delicioso mistério.
    O que sucedeu então naquela bela manhã foi que de repente ela se descobriu coçando sem parar a perna esquerda, e esse terrível incômodo não cessava. Logo lembrou que essa coceira não existia na noite anterior; a culpa era, pois, da janela que ficara a noite inteira aberta, sinalando entrada aos mosquitos tentados. E agora, como poderia se deixar fugir livre em direção às caras abstrações mentais encontrando-se ela presa ante essa boba, porém real situação? E num repente percebeu que a coceira apenas representava uma metáfora viva, que enfim se mostrava clara a seus olhos. Ela viu que realmente gastava energia no ato de coçar, e que definitivamente estava apalpando algo sólido e quente. Um segundo após, abriu apressadamente a janela acima de sua cabeça e deixou o calor do sol ferver — livre, enfim desobstruído! — na sua pele suave. Que sensação estranha! Parecia que seu corpo estivera todo dormente até então, antes de começar a coçar.
    Mas o fato é que logo a enjoaram essas novas sensações que tão abruptamente haviam aflorado: como não carregassem nenhum sinal de mistério consigo (isso depois de, curiosa, ela ter estranhado a própria coisa em si, naturalmente), tornaram-se insuportavelmente enfadonhas. Sentindo-se estúpida e rindo baixinho de si mesma, tornou a fechar a janela e foi pegar uma pomada para passar na perna, voltando logo após a cair sobre o travesseiro macio que a chamava.
wsdafae
Enviado por wsdafae em 29/08/2007
Reeditado em 03/10/2011
Código do texto: T628511
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Sobre o autor
wsdafae
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
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