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Fuga

O mais encantador nele é que sua simples presença fazia todos, homens e mulheres, se sentirem mais atraentes e vivos, quando o normal seria que se considerassem incomodados.
Susana suspirou. Sentia-se desajeitada ao comparar sua vivência com a daquele rapaz de vinte e oito anos. Sua vida parecia-lhe insípida e sem cor. Tal como Joana, sua filha, não se esforçava para impressionar o visitante, como faziam os demais. Susana via-se com um jeito decidido, eficiente e objetivo que, por implicação, repudiava as futilidades, muito embora apreciasse imensamente o senso de humor.
Olhar e ouvir aquele homem era como viajar num mar de conhecimentos e verdades insondáveis novas para todos os ouvintes.
Começou a sentir a garganta apertada e os olhos marejados de lágrimas. Quebrou o clima sutil com um:
- Vou fazer café para todos.
À sua saída olhos e atenções continuaram voltados ao narrador. O sotaque arrastado dava-lhe um charme especial.
Susana não era vaidosa ou arrogante. De qualquer modo nunca se sentira à vontade para chorar diante de estranhos, mesmo que os ouvidos lhe trouxessem imagens doloridas.
Ao retornar à sala, inclinou-se para frente, enquanto pegava o bule de prata com o café ao gosto de Almeida. Um gracioso serviço de prata Sheffield, o favorito dela, e finíssimas xícaras de porcelana inglesa, com uma pequena bombonière com alguns biscoitos amanteigados, feitos por sua sogra, arrumados com capricho sobre um guardanapo de linho bordado.
Sentia-se desajeitada servindo pessoas que pegavam as xícaras sem prestarem atenção ao gesto.
Percebeu naquele momento que havia perdido muito da narrativa, mas agora era inútil pensar no caso. Seu gesto de fuga diante da emoção excluíra-lhe os fatos. Balançou a cabeça num gesto enérgico, como a retirar o pensamento impertinente, e continuou a servir o café.
Omar levantou-se. Estava tarde e precisava voltar ao hotel, onde se instalara desde a chegada a Foz de Iguaçu.
Observou o homem de cabelo escuro e feições queimadas de sol. Os olhos penetrantes olharam-na e com uma inclinação de cabeça, num cumprimento, tentaram um misto de sorriso.
- Agradeço sua gentileza Da. Susana e desculpe o trabalho. – Comentou à guisa de despedida, olhando de relance a bandeja disposta sobre a mesa e as xícaras espalhadas.
- Trabalho algum. Foi um prazer e lembre-se que a casa é sua.
Madalena olhou a mãe com carinho. Havia um agradecimento mudo naquele olhar. Era estranho para Susana pensar que a filha pudesse estar apaixonada por um homem com costumes e vivências tão diversos dos deles. Enfim... Balançou os ombros, num gesto de desalento.
Seu pensamento voltou-se para quando conheceu Almeida. Também ele tinha os cabelos escuros naquele tempo, as feições eram menos fortes, bem verdade. Os olhos miúdos tinham sempre um misto de ingenuidade e doçura. Foram felizes por anos. Agora ele se dedicava inteiramente a fabriqueta de camisetas, após a aposentadoria do serviço público, até altas horas da noite. Vez por outra reclamava do governo, por causa dos empréstimos que estavam se tornando impagáveis pelos juros escorchantes. Tinham as duas filhas moças, prontas para o casamento e muito diferentes entre si.
Madalena independente, autoconfiante e competente, além de muito bonita. Contrariamente Joana nunca se sentira competente, não tinha confiança em si mesma e certamente não era independente. Não se podia dizer que fosse feia, mas era de uma beleza tão sem cor que desaparecia ao lado da irmã.
De vez em quando ainda esperava que Almeida a surpreendesse com algum gesto apaixonado, qualquer sentimento mais ardente, em que ordem fosse. Tudo seria melhor que aquele vazio. Os ecos dos anos da juventude não são facilmente aquietados, apesar de já se estar na casa dos cinqüenta. Não se recordava quando aquilo tudo se amornara e continuava a querer de Almeida algum arroubo que lhe trouxesse ânimo, mas nada disso acontecia e a vida a envelhecia.
Certo dia Omar chegou com o pai. Também ele viera do Iraque antes mesmo da primeira guerra dos Estados Unidos contra seu país de origem. Estava ali para oficializar o noivado do filho com Madalena. Os olhos tão penetrantes quanto os do filho, os cabelos com alguns fios brancos e a pele morena já lhe denotavam a idade, porém continuava a manter as feições delineadas e firmes, que lhe marcavam a beleza da raça. Mantinha o bigode bem aparado e nada nele demonstrava a dor que havia passado alguns anos atrás, quando soubera do falecimento da esposa e do filho mais novo, após um ataque de artilharia aérea americana. Somente quando a conversa girou sobre o assunto as lágrimas correram soltas por aqueles olhos escuros.
Novamente Susana se esquivou de ouvir relatos sobre fatos dolorosos. Saiu da sala, à busca do café, sabendo que ficaria alheia aos detalhes. Não podia evitar. Nem mesmo à época da última guerra conseguia manter-se diante do televisor. Aquilo tudo lhe parecia tão distante de sua realidade. Preferia alienar-se às dores daquele povo. Era uma forma de se proteger dos desalentos que não podia evitar. Agora eles pareciam teimar em adentrar ao seu ambiente familiar, através das narrativas do futuro genro e do pai dele.
O café jazia frio e insosso dentro das xícaras. Pensou que poderia se permitir um pedaço de torta. Ergueu os olhos para observar as fisionomias que continuavam voltadas para o novo narrador e, como quem rouba, serviu-se.
Dois meses se passaram e eles continuavam a freqüentar-lhe a casa. Madalena se preparava para o casamento e já se engajara na empresa de comércio exterior do futuro sogro. Pelo que Susana pudera depreender de conversas esparsas, faziam exportação de sapatos para vários países da Europa.
Seu pensamento andava tumultuado com os preparativos de última hora para o casamento da filha. Enquanto caminhava pelas ruas comprando pequenos detalhes, resolveu descansar os pés tomando um chá na confeitaria do hotel. O prédio de construção clássica fazia esquina entre as duas ruas. Observou o interior por entre as cortinas que recobriam as janelas. Entrou. Estava sentada e já havia feito o pedido ao garçom, quando o viu. Ele atravessou a sala em passos largos e veio ao seu encontro. Os olhos penetrantes pareciam invadi-la. Educadamente pediu licença para sentar-se à mesa.
Após cumprimentá-la e perguntar pela família convidou com a maior naturalidade:
- Não quer subir ao meu apartamento? Podemos tomar o chá mais tranqüilamente.
- Talvez seja uma inconveniência...
- Inconveniência a sogra de meu filho visitar-me em minha casa? Absolutamente. Não vejo qualquer inconveniência nisso. Depois moro com Omar. Ele não está no momento porque foi até o escritório, porém não vejo qualquer motivo que a impeça de visitar-me.
Ela mantinha os olhos pregados na toalha da mesa, suas mãos foram primeiro às faces afogueadas, num gesto desesperado para acalmar-lhes a vermelhidão, então vagamente procurou o casaco nas costas da cadeira.
Ele levantou-se solícito e ajudou-a a vesti-lo. Chamou o garçom e disse que a senhora iria tomar o chá em seu apartamento.
Subiram. Ela entrou e ele ajudou-a a desvestir o casaco.
O garçom chegou com o chá, biscoitos e torradas. Serviu-os e retirou-se discretamente.
Ele falava animadamente sobre o casamento dos filhos até que em certo momento tocou-lhe a mão direita num gesto delicado. Ela estremeceu e ele sentiu sua emoção. Olhou-a profundamente. Levantou-se, sem largar-lhe a mão, estreitou-a nos braços.
Os lábios se procuraram sôfregos. Não disseram palavra. Os corpos se colaram e sentiram um calor intenso abrasá-los. As mãos dele corriam pelo corpo dela sentindo-lhe as curvas. Os seios intumescidos arfavam num delírio de há muito esquecido. Perdeu-se no redemoinho das sensações.
Ainda sentia os braços dele molemente envolvendo seu corpo desnudo. Ficou na expectativa, sentindo-se frágil como o cristal, como se por dentro pudesse estilhaçar-se em miríades de pedacinhos. Embora estática diante do acontecido, tinha a impressão de seguir um túnel escuro onde, há milhares de quilômetros, pudesse adivinhar um filete de luz que se ampliaria e a envolveria, aquecendo-lhe a alma vazia. Mas não podia ficar ali, não depois do acontecido. Vestiu-se lentamente enquanto ele ressonava e saiu do quarto.
Em casa sentiu-se segura. O perigo, por ora, havia passado.


Não ousou olhar ao redor e localizá-lo. Vê-lo no salão apinhado de gente, enquanto se desenrolava o casamento ao estilo mulçumano, aceito por Madalena, a enchia de temores. Naqueles últimos dias tinham se evitado. Não mais reuniões de finais de tarde em sua casa.
Depois de todo o cerimonial religioso passaram aos jardins onde tudo estava ornamentado para um baile convencional.
O som da orquestra lembrou-a do local em que estava. Enxugou os olhos com cuidado por causa do rímel, depois bebeu um gole do champanhe que lhe haviam enchido a taça. Sentiu o líquido borbulhante descer-lhe pela garganta.
Havia uma coisa da qual podia se orgulhar: tinha mantido as aparências e Almeida não suspeitara em minuto algum do turbilhão que envolvia seu ser. Não era justo com o marido, nem com as filhas.
Relembrou de tantos momentos em que se desesperava vendo os momentos e anos que nunca mais tornaria a viver com Almeida se desintegrarem em nada. Agora aquilo lhe parecia tão distante. Uma ânsia feroz de vida lhe tomava o ser. Era-lhe quase impossível deter aquela torrente de desejo insaciado.
Quando Mansur a fitou com aquele brilho abrasador nos olhos ficou-lhe impossível discernir tudo o que ele estava sentindo. Se fosse outro homem Susana afirmaria que era desejo físico, puro e simples. Mas ele... Não sabia. Nem queria saber.
A festa de casamento durou “anos” para terminar.
Quando se viu só no quarto, ouvindo o marido elogiá-la por sua habilidade na decoração e escolha de tudo, sua vida pareceu pálida e cinzenta.
Com um pequeno suspiro recostou no travesseiro e percebeu que sempre fugira da realidade. Sua vida sempre fora um imenso deserto, organizado sim, mas um deserto, sem ninguém com quem compartilhar opiniões ou sentimentos. Não atinava desde quando isso começara a acontecer. Ela e Almeida jantavam fora inúmeras vezes em reuniões de amigos que acabavam em conotação comercial. Era importante que ela o acompanhasse. O casal perfeito. Outras vezes as reuniões eram feitas em sua casa. Uma silenciosa conspiração para evitar ficarem sozinhos.
O dia seguinte amanheceu brusco. Com toda força Susana se negou saborear o desjejum que Maria servia com tanto apreço. Afastou o pão e a manteiga em penitência aos excessos da noite anterior. Poderia não ter nunca seios pequenos ou quadris estreitos, mas ao menos não se sentiria gorducha, nunca mais.
Desde aquele dia vinha mantendo alimentação mais saudável e cuidava da aparência. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Não entendia porque tantos cuidados. Almeida sequer a olhava e quando mantinham relação o faziam sob os lençóis. Era algo mecânico como o desempenho de uma função para ela e uma necessidade física para ele.
Ultimamente Almeida vinha reclamando mais amiúde de noites insones. Eram as dívidas que se acumulavam. Susana o aconselhava vender a fabriqueta e viverem apenas de sua aposentadoria. Ele retorquia sempre sobre a impossibilidade de manterem aquele padrão com a miséria que recebia do governo. Aquilo se tornara um círculo vicioso. Agora nem mais a procurava. Tornara-se assexuado.
Dois anos após o casamento de Madalena, Almeida teve o derrame. Susana chamou a filha e o genro e eles providenciaram o pedido de falência da fabriqueta e organizaram um cronograma para o pagamento das dívidas.
Três meses depois ele enfartou. Foi para cirurgia e não conseguiu superar o pós-operatório.
Susana andava como um fantasma naquela casa. Madalena, Omar e Mansur haviam se mudado para São Paulo, inclusive levando a sede das empresas para aquela capital. Joana transferira-se para Curitiba, decidindo estudar arquitetura.
Como cinzas ao vento seu casamento desaparecera. Fazia grande esforço diante das pessoas. Ninguém adivinharia que ela sentia alívio pelo término do casamento, mas a sensação de culpa a esmagava por dentro.
Ela jogou a cabeça para trás, como a espantar os pensamentos que a perseguiam. Decidiu sair. Vestiu-se com esmero. Muitas vezes se desleixava, outras abusava da elegância. Via o olhar das pessoas pesarosas pela sua batalha interior. Supunham dentro dela uma viúva sofredora. Que importava o que pensavam. Vivia como achava melhor. Hoje desejava estar elegante e assim o faria.
Saiu sem rumo certo. Passeou pelas ruas a pé. Parou defronte ao hotel. Olhou a confeitaria. Estava cheia de gente. Decidiu entrar.
O garçom se aproximou. Fez o pedido.
Novamente o garçom veio até ela. A visão de seu nome – Susana Souza Almeida – escrito naquele bilhete a assustou. Olhos pregados na bandeja segura pela mão enluvada à espera de uma reação. Passou nervosamente a mão pelos cabelos, num gesto característico, então vagamente correu os olhos e o encontrou.
Por fim, pegou o envelope e leu: “Posso me sentar à sua mesa?”
Levantou os olhos para o garçom e respondeu:
- Por favor, diga ao cavalheiro que sim.
- Obrigado por me receber. – disse ele, sentando-se em frente a ela.
Depois fez sinal ao garçom e pediu que ele levasse tudo para o seu apartamento. Naturalmente levantou, tomou a mão dela e a levou docemente para o elevador. Ela o seguia maquinalmente sem nada dizer. Aliás, não sabia o que dizer.
Ele esperou que o garçom arrumasse a mesa e saísse. Voltou-se para ela e carinhosamente a puxou para si. Beijou-a longamente. Ela sentiu novamente aqueles calafrios e a quentura entre as pernas, para então se perder no redemoinho das sensações que as mãos e o calor do corpo dele lhe causavam.
Acordou e recordou aquele outro dia a três anos passados. Tentou levantar e fugir. Ele gemeu docemente e envolveu seu corpo com uma das pernas, prendendo-a. Ela deixou-se ficar. Não podia mesmo fugir.
Sylvia R Pellegrino
Enviado por Sylvia R Pellegrino em 24/10/2005
Código do texto: T62970
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Sobre a autora
Sylvia R Pellegrino
Curitiba - Paraná - Brasil, 66 anos
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