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Acalanto

O mundo tem aspectos que por vezes desconhecemos ou esquecemos. É uma idéia estranha pensar que podemos esquecer pequenas lembranças da infância, até o momento em que nos deparamos com uma realidade tão forte que nos transporta para aquele tempo.
Assim foi com Acalanto.
A realidade se instalou na minha frente. Observei aquele lugar e senti repulsa, num primeiro momento. Voltei para casa decidida a não trocar meu estado social por aquele local tão deprimente.
Há momentos em que a proteção sentida dentro do seu mundo é balançada e você fica exposta à fatalidade e imprevistos. Aquele era um deles.
Criei uma barreira, que me parecia intransponível. Mas a ponte fora lançada e eu precisava atravessá-la. Não havia volta naqueles tempos. Tudo me impulsionava para aquela aceitação.
Três meses depois lá estávamos, meu marido e eu, diante daquele pedaço de terra, cercados por vizinhos de poucas posses, vivendo a vida simples que me recordava a infância enterrada. Muito bem enterrada, que agora explodia diante do quadro que minha vista alcançava.
O terror se instalou, até que passei daquele estado ao êxtase. Foram emoções encadeadas pela fantasia de transformar aquele pedacinho de fim do mundo num paraíso.
Numa torrente de alegria me lancei ao trabalho de limpar o terreno com a ajuda de um nativo. Enquanto ele carpia e limpava, deixando a terra nua, os tabletes de grama iam sendo assentados no terreno. O mestre de obra, contratado por baixo salário, paralelamente ia transformando a pequena casa de dois quartos em um belo e arejado chalé.
As treliças foram esmaltadas de branco, da cor das janelas de madeira e do teto, contrastando com o amarelo canário da casinhola, agora aconchegante e agradável. Os móveis, comprados numa feira própria, estavam sendo lixados e patinados.Os almofadados de um floral alegre recheavam os móveis de vime. Tudo cheirava a tinta fresca. O jardim à volta da casa também chegava ao seu final. Na entrada de duzentos metros, onde corria a ladeira que ia dar na casa, foram colocadas as palmeiras. Agora elas balouçavam suavemente à brisa da tarde e tudo convidava ao descanso e ao acalanto do colo materno. O nome surgiu assim, num repente.
A vida não pode ser encarada como um movimento de recuo – foi o que pensei - olhando para aquela paisagem. Estamos sempre caminhando em frente, descobrindo matizes dantes não revelados. Aquele era um matiz de minha vida. Sobreviver era preciso. Meu marido ainda se ressentia de ter sido despedido aos cinqüenta e dois anos de idade, sem eira nem beira. A aposentadoria voara de suas mãos por alguns anos apenas. O ajuste salarial recebido fora todo usado para as reformas, esquecimento de lembranças desagradáveis e a transformação de Acalanto. O meu minguado salário de professora e o aluguel do belo apartamento na capital nos sustentariam. O ambiente não incitava gasto extra. Tudo seria medido dali em diante. Depois, era importante aquele presente, que tornava a realidade mais palatável.
Os vizinhos foram se achegando devagar. Começamos, meu marido e eu, a receber pessoas simples e o entrosamento foi sentido aos poucos. A vida interiorana invadiu nossos seres.
A brisa noturna do verão e o céu forrado de estrelas amainavam nossos espíritos, enquanto balançávamos nossos corpos molemente nas redes engastadas nas colunas do avarandado. Conversávamos, recordando passagens vividas. O convívio nos fez mais amigos e confidentes, conforme os dias e noites iam se desenrolando. Já não eram duas as redes. Apenas uma. Nossos corpos nus se ajustavam sob o céu estrelado. A sensualidade aguçada pelo clima tropical. Um encontro por inteiro.
Certo dia meu marido recebeu uma correspondência. Foi para um canto e ficou olhando fixo para o horizonte. Acompanhei o olhar e sondei o recorte da Serra do Mar. Esperei calma até que ele se decidisse falar.
- Recebi um convite para trabalhar em Curitiba.
- É mesmo...?
- Sim...
- Vai aceitar?
- Não sei ainda. Preciso pensar. - Afastou-se e seguiu para o bosque. Sentou-se naquele banco, onde gostava de meditar vez por outra, e ali ficou pela manhã toda.
Era a época das férias escolares e eu segui minha rotina cotidiana. Nada tinha pressa naquele lugar. Não seria eu a mudar aquilo, apenas me adaptara. No início havia sentido muita dificuldade. Agora, aquela angústia antiga não fazia sentido.
Eu o percebi ao meu lado.
- Acho que vamos voltar.
- Tem certeza?
- Tenho. Fui convidado para ser Diretor-Presidente de uma empresa em alta expansão. O salário é melhor do que o anterior. Preciso recomeçar, retomar minha vida.
- Retomar sua vida?
-...Nossa vida, se prefere assim. Não há sentido continuarmos aqui se temos condições de voltar à vida anterior, aos velhos amigos. Foi um tempo de sossego, de férias, pelo menos para mim... – Olhou-me nos olhos e percebi a esperança brilhar nos dele.
Aquiesci, sentindo uma dor funda no peito. Teríamos que deixar Acalanto e tudo que ele havia significado para nós. ...Ou para mim.
Os dias correram, aparentemente calmos. A venda se concretizou. Voltamos a colocar nossas máscaras e o belo apartamento voltou a ser ocupado por nós, após o distrato do aluguel.
Viagens para a Europa, conversas sobre mazelas brasileiras indefinidas. Os amigos de sempre, que voltaram com o retorno à situação econômica e social.
Acalanto ficou para trás. Uma bela lembrança apenas.O tempo se encarregaria de torná-la apenas um borrão.
Sylvia R Pellegrino
Enviado por Sylvia R Pellegrino em 24/10/2005
Código do texto: T62972
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Sobre a autora
Sylvia R Pellegrino
Curitiba - Paraná - Brasil, 66 anos
3 textos (104 leituras)
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Sylvia R Pellegrino