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Os Espaços de Pascal

João corria inquietamente pela W3, ninguém poderia supor que ele era o autor daquele crime.Quem iria culpa-lo? A atitude suspeita..? Bem esta ele poderia justificar caso alguem o incriminasse, ele poderia fugir de tudo e de todos naquele momento, afinal Morgana o provocara, ela o ofendera duvidou de sua coragem, incitou-o, ele saberia defender-se conforme o Direito sabia que a provocação da vítima era uma atenuante, mas o que poderia fazer ? João corria inquietantemente pela W3, preferia seguir por ali do que pela W5, lá poderia ser facilmente capturado, mas na W3 parecia que um outro mundo se descortinava para si. João culpava-se e sabia que naquele instante não só por correr, mas por não se entender...ele não queria se entregar. Cantarlava Dies Irae, do requiem de Mozart em sua mente, o que só o atormentava mais e não afastava a imagem da tesoura ensanguentada, que ainda se repetia como um filme insano em sua mente. Correu até a estação do metrô suava em bicas, a lista telefônica que apertava contra si frenéticamente continha a tal tesoura do crime, mas ninguem percebeu, ou as pessoas já simplesmente defendiam-se daquela violência optando ignorar? Mas Brasília é tão pequena - pensava João- mas parece que as distancias em nossas vidas soam tão grandes. O que escreveria em seu Twiter? QUE IMAGENS CONSTAVAM EM SEU ORKUT? Mas ali, dentro do metrô, João sentiu-se enojado de ser ele mesmo. Pois era um assassino e naquele instante em que alguém poderia parar aquela sandice, interpelar o que o angustiava, ele confessaria... mas ninguém o fez. No carro-vagão alguém estava ouvindo música alta e as pessoas interessavam-se mais por seus problemas, João então desceu na Rodoviária e pegou um ônibus até a ponte JK.Ainda hoje se repete que esta ponte, embora seja alvo de diversas críticas, é obra ricamente linda e devemos reiterar muito bem feita, uma ponte que chama a atenção até no Japão. O assassino, posto que a esta altura a identidade se perde e não se é mais João, mas a alcunha dos que nossos atos nos preescrevem. Este indivíduo, ironicamente dividido, foi até a ponte olhou em volta respirou fundo e jogou a unica arma que poderia incrimina-lo na morte de Morgana, cansado decidiu caminhar até a Esplanada, eram 20 h e 30 e Brasília não era um local tão violento, talvez por culpa ou por ser verdade ele viu Morgana caminhando ao seu lado cabisbaixa e olhando decepcionada para seu ex-amigo, ex-amante e ex-namorado. João caminhou até a rodoviária e chorou silenciosamente o caminho inteiro. Apanhou um ônibus e dirigiu-se até o seu apartamento no Sudoeste, o corpo de Morgana seria encontrado daqui a dois dias. João lamentou o ocorrido, queria acertar as coisas se pudesse, agir diferente fazer algo mais por ambos. Não, não podia, só conseguia lembrar-se de um frase de Pascal que lera minutos antes de brigar com a moça e matá-la... "O silencio destes espaço infinitos me apavora", estremeceu.Deste ponto em especial parecia que a frase ficou ecoando em sua cabeça. A campanhia tocou, o espiríto (ou seria a consciencia de João projetando a vítima), ou algo qualquer que se explique e que se expresse, ou nos expresse, que se entenda como for leitor, como não é ou como seja, o espírito de Morgana continuava ali e quando ele foi atender a porta o rosto dela deu-lhe um ligeiro sorriso, João não sabia se era de perdão ou de pena, ao abrir a porta, viu-se. João olhou para a visita e tratava-se dele mesmo; e um terror medonho de arrepiar todo o corpo o possuiu, viu-se a si mesmo na porta com os olhos esbugulhados de horror entregando-lhe a tesoura ainda com sangue, mas bastante molhada, horrorizado com aquilo João correu para a janela e suicidou-se la de cima, o espirito de Morgana observava um homem de chapéu e roupas pretas desenhando no chão e após repetiu o ato com a mesma palavra na testa do cadáver, algo que cabe dizer meu leitor, nenhum de nós jamais  viu ou leu, veria ou leria, o homem cuspiu no corpo morto e andou em direção ao Parque da Cidade desaparecendo na escuridão da madrugada, o Espirito de Morgana observou a cena e quando chegou a luz do dia, olhou para o espirito de João trêmulo dentro do apartamento, ele não entendia e não percebia que consciência era o nome do homem de preto, e so na punição eterna ele entenderia que não podemos nos esconder de nós mesmos.
Ernesto Pessoa Rodrigues
Enviado por Ernesto Pessoa Rodrigues em 30/08/2007
Reeditado em 03/10/2009
Código do texto: T631039

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Sobre o autor
Ernesto Pessoa Rodrigues
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
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