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Reencontro

            Dona Júlia ergueu o travesseiro, recostou-se e espalmou as mãos sob o queixo. Não segurava apenas o queixo, suas mãos iam atingir os cantos dos olhos. Segurava com firmeza o peso de muitos cansaços. Dona Júlia, dona de todos os clichês que se aplicavam usualmente às senhoras virtuosas de antanho. Dona Júlia mãe, dona Júlia esposa, dona Júlia dona de casa, com todos os serviços a que a expressão dava direito...

            Sentiu uma fisgada no ventre, era a dorzinha que comparecia. Mãe, te mete na cama, vai descansar. A filha trazia as crianças dependuradas, crianças que ficavam mexendo (vó, tem bolacha?, vó, tem uva?, etc. e tal). A filha trabalhava, ah, trabalhava. Só que não dentro de casa. A filha tinha estudado, conseguido diploma, aberto consultório. Enfim... Suspirou de alívio, um suspiro muito fundo, muito marcado. Já o filho, estava longe, lá no interior do Paraná, ganhando bem, é verdade, mas longe, trabalhando num banco, vindo muito pouco, uma vez por ano, às vezes menos. Ela, sozinha. Não, não queria morar com a filha. Ambiente agitado, genro um tanto esquisito, melhor não. A casa, comprada com esforço, era bem sua agora, depois da morte do marido.

            Dona Júlia soltou um segundo suspiro, não mais de alívio, mas de dor. A doença comendo por dentro, agora que não precisavam mais dela. Não tinha mais serventia. Não...

            Dona Júlia franziu os olhos, num franzir que tinha uma correspondência no fundo de si mesma. O não a possuía, corpo e alma. Ela, que alguma vez julgara merecer uma estátua: àquela mulher que tanto trabalhou - anonimamente (essa palavra era importante para precisar bem o caso), anonimamente, pelos outros... No momento, um não ressoava por todos os cantos do quarto vazio.

            Levou a mão ao ventre, apertou-o. A mente acendia sua luz mais forte. Sem desejar, ou sem perceber, abandonara o travesseiro, o busto retesado. Não tinha feito nada de seu? Algo próprio, que marcasse sua presença como pessoa? Ela, Júlia... Sentia-se inquieta,   com uma inquietude que tinha sabor de vida. A idéia sem deixá-la: nada além daquele trabalho realizado e recomeçado todos os dias?

            Com andar firme, enveredou para o armário da despensa. Trepou a uma cadeira, esquecida da dor, e foi puxando, cuidadosamente, um por um, pratos empoeirados. Flores e folhas coloridas espiavam por trás do pó. Diante daquela louça, que um dia havia pintado, Júlia bateu palmas. De pura emoção.
béti mecking
Enviado por béti mecking em 31/08/2007
Código do texto: T632040
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
béti mecking
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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