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O velho morto

Entrou no velório. Seguiu direto para perto da única filha do velho, que recebia os pêsames sentada ali perto. Depois foi até o caixão. Olhou o defunto. Maneou a cabeça, preocupado com os outros, tentando não parecer que estava forçando. Se afastou acenando para um, dois conhecidos. Aproximou-se do grupo do canto, perto do bebedouro:

— Pobre do velho... Morrer desse jeito...

— Ora, eu acho que foi culpa dele, afinal na idade dele?!

— É mesmo. O velho era muito inconseqüente. E terminar assim era certo.

— Eu avisei, mas a filha é uma teimosa...

— Que absurdo! Um velho daqueles voando de pára-quedas...

— Parapente.

— Parapente, para-quedas... Não importa!

— O velho era um inconseqüente!

— E quando cismou de andar de moto? Trilha, né?

— Era muito perigoso naquela idade... Um velho...

— Sabiam que uma vez foi pra Bali... Indonésia...? Sei lá!

— Bali. Pegar onda. O velho pegava onda! — E riu. Notou que riu e ficou sério novamente, preocupado com os outros. — O caso era que não tinha olhos pra se ver.

— Cismou de fazer um tour pela África uma vez. Gastou rios de dinheiro. Um desperdício. E ainda por cima ficou lá três meses caído, com malária.

— Contava todo orgulhoso que um crocodilo lhe arrancou um dedo. Doido...

— O velho era um inconseqüente!

— O velho era um inconseqüente mesmo!

— E que morte, heim? Pra que morrer assim? Só podia terminar desse jeito...

— Achava que iria antes. Aquela vez que desceu as corredeiras do Macaé...

— Ou quando subiu o Pico da...

— O velho era um inconseqüente! Escalava sem corda, só pra se exibir...

— Ele havia se perdido lá no Pará, não foi? Aí a família aqui preocupada, todos nós preocupados. Afinal era um velho, né? E ele aparece na maior cara lavada: “Tava com os Ianomâmis da Venezuela!” Vê se pode?!

— O velho era um inconseqüente!

— E só podia acabar assim. No meio de uma loucura inconseqüente.

Olharam o caixão. Por cinco segundos, talvez. Sabe lá Deus o que cada um pensou. Por fim ele disse:

— E ainda por cima morre com essa cara! Vê se pode?!

Despediu-se por educação de todos. Foi saindo. Antes passou perto do caixão, e olhou para o velho deitado lá.

— E ainda por cima morre com essa cara! Que absurdo!

E saiu.

No caixão o velho estava deitado, morto, com um largo, franco, sereno e belo sorriso no rosto enrugado.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 25/10/2005
Código do texto: T63407
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond