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O sax...





Sentada na beira da cama, tendo uma televisão ligada as minhas costas...Mas estranhamente nada ouço, nem ao menos vejo o que se desenrola, imagem após imagem!
Na parede a minha esquerda, uma janela entreaberta, cujas cortinas brancas parecem estáticas, paradas em pleno ar, ar que parece não penetrar por ela.
Tenho a porta do quarto, trancada.-Não quero que ninguém me penetre a solidão, com suas expectativas, seu palavreado rápido e incontrolável.
Sentada a beira da cama passo as mãos pela cocha rendada, mas nem noto as diferenças no tecido...Se bordada, não me apercebo dos detalhes de seu entalhe...Meus dedos parecem mortos...Nada sentindo vou passando as horas neste torpor estranho.
Meus pensamentos vão se desencadeando, um após o outro...
Se concatenar um após o outro, faz-se mecanicamente, se os coloco logicamente um após o outro, o faço mecanicamente, meus pensamentos vão se escoando calmamente...Calmamente?
Nestes parágrafos, nesta folha ainda a pouco tão virgem, vou anotando estranhezas...
Sinto-me tão vazia, e ao mesmo tempo, tão cheia de sensações, que vou me admirando da fluência que se vai formando, palavra após palavra.Novamente me vem á mente a palavra “Calmamente”.
Parece que há uma fúria incontrolável me dominando...Não! -Querendo ser controlada...
Silencio...-Não!
Ouço apenas as pulsações de meu próprio peito.
Estranho o arfar de meu peito, os movimentos que se repetem a cada respiração...Puxo o ar para dentro de mim com uma avidez estranha...Preciso respirar ardorosamente!
Mais:
Quero sentir dentro de mim a vida. Quero me sentir viva!
Com uma ponta de maldade penso de relance na noite que ainda a pouco transcorrera alheia a minha vontade.
Ele tocou em mim esperando uma resposta apropriada, sua mão estava quente, ansiosa, a espera de algo que eu não estava querendo oferecer.
Lembro de seu toque repetindo-se em meu corpo mais de uma vez. E ainda assim a resposta apropriada não veio.Virei-me na cama mais de uma vez... Recusei-lhe os lábios, recusei-lhe o corpo, ofereci-lhe desculpas esfarrapadas, por entre lábios, semi serrados, quase emudecidos!
Neste momento que relato estes fatos, sinto uma necessidade urgente de respirar mais profundamente, para que novos ares entrem em meu peito, ao que se faz dolorosamente...
Á cabeceira da cama um relógio marca copiosamente as horas... A que hora ele se levantou deste leito, saindo para a lide do dia, casa afora?
Desde que hora estou sentada à beira desta cama?-Com estes loucos pensamentos...Escrevendo encurvada sobre a folha outrora tão branca e pura.
Pureza? Palavra estranha... Como tudo em mim hoje!
Meu Deus, que dia será hoje?
Março... Cinco... Meu Deus é o aniversário de Mario... Meu Deus, quantos anos?...
Aqueles cabelos negros, longos, escorrendo por aquele pescoço roliço e moreno...Lembrar dos olhos, eu preciso lembrar dos olhos...
Bobagem, as meias luzes nas minhas memórias atrapalham a lembrança dos olhos... Meu Deus, como brilha aquele Sax, aquele Sax tão sonoro, com o passar das luzes do palco por ele...Como brilha...
Parece uma estrela em noite de lua cheia, solitária, brilhosa...
E sonhos antigos me trespassam a cabeça. Aquelas mãos em meu corpo, o toque forte daquelas mãos em meus seios... Bobagem, nunca houveram tais toques!Mas aquele sax, no entanto, aquele sax!
Minha respiração parece querer dar vida aquele sax!
Meu Deus onde  estará aquele sax, hoje em dia?
Loucura, eu devo estar louca. Esta bem debaixo de minha cama:
-Guardado em sua caixa, estático e mudo.
Eu aleijei o sax.
Eu lhe retirei o sopro, o ar que lhe dava vida.Mudo!-Eu matei o sax...
E noite após noite eu me deito sobre seu corpo, e sonho os sonhos que ele me fizera um dia sonhar... Como que a espera do dia em que possa vivenciar todo o prazer que me possa dar...
-Prazer a que renunciara um dia! Um dia que já fica parado, lá, bem lá atraz!
Súbito me abaixo, de joelhos, estendo as mãos ao sax. Retiro o corpo de seu negro sepulcro, abro a caixa, cinco de março, aniversario dele, é tudo passado!
Agora sinto, meu peito em descompasso, agora choro.
Uma lagrima quente me percorre o rosto, molha meu peito, invade meu leito incompleto e desaparece.
O sax, volta para seu repouso, após um abraço apertado.
Com este gesto eu te abraço meu amado!E eu me despeço...
Continuarei deitada sobre os meus sonhos, talvez a me perder em outras horas em outros devaneios...
Não é bem o que desejo, bem, pelo menos ainda há desejo, espero!




Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 25/10/2005
Código do texto: T63615
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edvaldo Rosa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 55 anos
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