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Rajada de Outono

A música acabou. Mas por quê? Mais uma pergunta sem resposta. Abro os olhos, fito o teto. Difícil concernir à realidade. Arredo para o lado a coberta e sento na beira da cama, com a cabeça baixa. Algumas vezes, gostaria de possuir a habilidade de não pensar. Seria muito mais feliz, se assim fosse. Mas não quero pensar nisso agora. Uma sombra.

- Ela se foi, não é? – pergunta-me.

Espanto-me com a minha própria falta de espanto. À espreita, em um canto do quarto, paira uma sombra.

- Sim.
- Não te perturba minha presença?

Não respondi. Apenas o olhei. Havia algo de triste em sua voz. Amargura e arrependimento misturavam-se em seus tons. Será outro pesadelo? Tenho tido muitos ultimamente.

- Gostaria de conversar com você, - disse-me ele – conversar sobre a sua situação.

Pesadelo ou não, diálogo algum pode reverter as coisas. Toda atitude torna-se inútil perante fatos irrelevantes. Ela se foi. Ela se foi para sempre, e nada, nem ninguém, podia fazer nada, quanto mais consolar-me.
Ignorando-a, saio do quarto, fechando a porta em seguida. Na cozinha, um copo de água. Não me dou nem ao menos ao trabalho de acender uma das luzes. Olho a janela. Atravessar o vidro e acabar com tudo seria a solução perfeita para um fracassado. Mas o que sou eu? Um vencedor? Alguém que acabara de perder o que de mais precioso tinha na vida pode ser considerado um vencedor? Creio que não. A água do copo se foi, assim como a música. Um dia, será a minha vida a escoar-se pela escuridão do fim. Mas quando?
Vou até a sala. Deito-me no sofá, buscando o sono. Não quero voltar para o quarto. Passara tempo demais me remoendo em lembranças e soluços. E, ademais, a música acabou. O sono não vem. Ligo a televisão. Os mesmos programas, os mesmos assuntos, as mesmas mesmices. Lembro-me das risadas, do seu sorriso, da sua voz. Desligo a televisão. Deitado de lado no sofá, sob a escuridão do aposento, olho para o nada. O silêncio afaga cada um de meus pensamentos. Por que ela? Que missão pífia é a do homem. Conquistar bens inestimáveis para mais tarde vê-los sumindo no abismo, sem nada poder fazer. E cá estou eu, repousando sob as trevas ínfimas dessa fria madrugada de outono. Noto um vulto no canto, próximo à porta de acesso à sacada. É a sombra.

- Compreendo a sua dor. – disse-me.
- E o fato de você compreender mudará alguma coisa?
- Não, essas coisas são irreversíveis. Você deveria aceita-las como são.
- Eu cansei de simplesmente aceitar as coisas. Adaptar-se sempre à infelicidade é como enterrar uma faca no próprio peito e fingir que não está doendo.

Houve um curto e pesado silêncio.

- E se eu disser que ela também sente a sua falta, acreditaria em mim?

Um raio de esperança ingenuamente bucólica transpassou pelo meu corpo. Logo que ouvi, senti-me radiante. Mas ao me dar conta da efemeridade da questão, senti ódio de mim mesmo. Olhei aquela sombra com curiosidade. Porque diria tal coisa?

- Você a viu? – perguntei-lhe.

Minha indagação perdeu-se no ar. A sombra não estava mais ali. Talvez nunca tenha, de fato, estado. Assim como antes me espantei com o tamanho da minha naturalidade, espanto-me agora com a extensão da minha tolice. Levantando-me lentamente do sofá, dirijo-me ao quarto. De uma hora para outra, o frio ficara insuportável. Deito-me mais uma vez em minha cama. Busco outra vez o sono. Olho para o relógio. Duas e quinze da manhã. Tenho de estar apto para agüentar mais um dia de flagelação solitária, lutando contra a minha própria desgraça. Mas não quero pensar nisso agora.
Abro os olhos. Um estranho barulho de ventania parece vir do lado de fora, seguido de uma intensa iluminação. Alguns fracos feixes de luz entram pela janela, alcançando a porta. Chegara o amanhecer. Mas então porque estou tão abatido de sono? Olho o relógio. Três horas da manhã. Algo está errado, mas minha curiosidade está tão aguçada quanto a minha animação para levantar da cama. Demoro um tempo até organizar as idéias, para então tomar a decisão de ir ver do que se trata. Ao abrir a porta do quarto, sinto um vento polar circulando toda a sala, enquanto que a forte luz, vinda da rua, castigava meus olhos. Lutando contra a violenta investida da estranha ventania, aproximo-me da sacada, e fico deslumbrado ao ver a incrível combinação de cores que se formara no céu, outrora negro e mórbido. Lembra muito todas as pinturas e imagens já vistas sobre o paraíso, com todos os seus símbolos e significados. Sem acreditar no que pairava naquele momento, diante dos meus olhos, luto novamente contra a investida do vento que, com sua velocidade, derruba pequenos móveis e até mesmo algumas pequenas peças postas sobre os armários. Toda e qualquer aproximação não era o suficiente para admirar aquele fenômeno indescritível. Agarrando-me ao parapeito, sinto o vento diminuir levemente, ao passo que o frio fica mais intenso. Eis que vejo algo que me deixa incrédulo de minhas próprias crenças, algo que faz com que minhas mãos tremam e com meu corpo fique estático, como nunca antes acontecera. Vejo, abrindo caminho por entre nuvens coloridas e imagens distorcidas, uma sombra. Não uma sombra obscura como a que encontrei antes, mas uma sombra de aura incomparavelmente divina. Eu podia senti-la. Era ela. Jamais tivera tamanha surpresa desde o início das minhas desilusões, quando ela se foi. Agora a vejo vindo em minha direção, com o seu sorrido inundado de paz e vivacidade, e seus olhos radiantes fitando meus olhos de profunda tristeza. Parada ao meu lado, sobre a sacada, ela continuava a me olhar. Eu nada consegui pronunciar, tamanha foi a minha emoção ao vislumbrar seus longos cabelos e seu longo vestido branco. Meus olhos voltaram-se então para os seus lábios rosados, quando estes se mexiam.

- Você não pode continuar sofrendo. Eu estarei sempre aqui do seu lado. Não esqueça disso.

Senti uma lágrima escorrer. Foi quando consegui, por fim, pronunciar a primeira frase, pulando todos os obstáculos emocionais que me impediam de faze-lo.

- Eu sinto a sua falta.
- E eu também sinto a sua. Eu pedi para que acreditasse em mim, não se lembra?

Nesse instante, senti um calafrio de arrependimento e ternura. Era ela. Era ela o tempo todo. Ela esteve do meu lado o tempo todo, e não pude enxergar. Espanto-me agora com o tamanho da minha insensibilidade.

- Eu quero pedir que seja forte - disse-me ela – e agüente firme, até o fim. Nos veremos algum dia, e eu vou estar esperando por você, onde quer que seja. Eu te amo!

Ela passou a mão sobre o meu rosto, secando as lágrimas. Senti uma gélida, porém branda sensação pousar sobre minha pele. Quase afundei em um fosso interno de infinita consternação ao vê-la voltar em direção das nuvens coloridas. Senti que nunca mais a veria. Mas a sensação de que aquele momento único valera por qualquer outro a ser vivido, senti-me feliz, como há tempos não me sentia. Antes de vê-la desaparecer por completo naquela imensidão celestial, gritei com todas as forças dos meus pulmões.

- Eu vou te ver. Eu vou te encontrar, onde quer que seja. Eu também te amo, e sempre te amarei.

Ela olhou para trás, pela última vez, e preencheu a minha alma de ternura com o seu sorriso, antes de sumir completamente por entre as sombras. Ao adentrar as nuvens, uma forte fonte de luz surgiu em seu lugar, trazendo consigo uma ventania tão ou mais forte do que a primeira. Eu fechei os meus olhos e abri os meus braços, deixando que o frio e a luz fizessem parte de mim, unindo-me a eles. E nesse momento chorei como nunca antes havia chorado, e sorri como nunca antes havia sorrido, com o corpo sendo irradiado por aquela fulminante rajada de outono.
Irwin
Enviado por Irwin em 07/09/2007
Código do texto: T642127
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Sobre o autor
Irwin
Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul - Brasil, 29 anos
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